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Familiares de Marielle exaltam condenação de mandantes pelo STF: 'Justiça por ela é uma tarefa de vida'

www1.folha.uol.com.br By Isadora Albernaz 2026-02-25 1130 words
Familiares de Marielle Franco (PSOL-RJ) comemoraram nesta quarta-feira (25) a condenação no STF (Supremo Tribunal Federal) dos mandantes do crime contra a vereadora assassinada. A sessão na Primeira Turma foi marcada pela comoção de deputados do PSOL e por episódios de mal-estar de parentes da vítima, que se emocionaram durante a leitura dos votos dos ministros.

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, afirmou o resultado do julgamento foi um "recado" à parcela da sociedade que, segundo ela, tratou sua irmã como "descartável" e afirmou que a violência política de gênero e raça que resultou na morte de Marielle "precisa ser aniquilada".

"A estru
tura que leva, de fato, a minha irmã a ser assassinada, e as pessoas que ainda têm a mentalidade de diminuir ou minimizar um assassinato como foi o de Marielle, precisa parar", disse ela em entrevista coletiva após o resultado.

Emocionada, Anielle também declarou que o "legado de Marielle" e a luta da família não vão parar com a condenação no Supremo.

"A gente vai dar continuidade, sim, querendo ou não. E a honra que eu tenho, sim, de ser irmã de Marielle, não chego onde cheguei apenas por isso, mas, sim, [tenho] a honra de ser irmã de Marielle e a honra de fazer parte de um governo que traz de volta a democracia fortalecida, que, se não fosse por isso, também talvez não tivéssemos chegado aqui", afirmou.

Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino foram unânimes ao decidir condenar o ex-deputado Chiquinho Brazão e seu irmão Domingos Brazão, conselheiro do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Rio de Janeiro), a 76 anos e 3 meses de prisão em fechado.

Rivaldo Barbosa, ex-chefe de Polícia Civil, foi sentenciado a 18 anos de reclusão em regime fechado e 360 dias-multa no valor de um salário mínimo por obstrução de Justiça e corrupção.

A viúva de Marielle e vereadora do Rio, Mônica Benício (PSOL), disse que o STF quebrou "um punitivismo seletivo" com o julgamento. "Para alguns, a impressão era que jamais ia chegar, enquanto para outros a condenação pela cor, pela pobreza, pelo gênero é sempre o caminho destinado àqueles que achavam que era o da Marielle, que era o descarte", afirmou.

"Justiça por Marielle não é um slogan, é uma tarefa de vida, é a luta pela construção de uma sociedade onde Marielles e Andersons possam viver, florescer e jamais serem assassinados", completou.

Além de Anielle e de Mônica, estiveram presentes a mãe e o pai de Marielle, Marinete Silva, e Antônio Franciso, a filha da vereadora assassinada, Luyara, e a viúva do motorista Anderson Gomes, Ágatha Arnaus Reis. Ele morreu durante o atentado.

Eles se sentaram na primeira fileira do plenário e, em determinados momentos, conversavam entre si e, por meio de abraços e apertos de mãos, prestavam apoio quando um deles se abalava pelo o que era dito no julgamento. Anielle, Luyara e Ágatha seguraram um terço durante o julgamento.

Do lado dos réus, também esteve na Primeira Turma nos dois dias de julgamento o deputado estadual do Rio Pedro Brazão (União Brasil), irmão de Chiquinho e de Domingos. Ele não deu declarações à imprensa.

Os parentes das vítimas se emocionaram durante a leitura dos votos dos ministros, em especial de Cármen Lúcia. As viúvas de Marielle e de Anderson choraram. Ágatha Reis se emocionou quando a magistrada mencionou seu filho, Arthur, que tinha um ano quando o pai foi assassinado.

Cármen Lúcia falou mais de uma vez diretamente com a mãe de Marielle, além de ter destacado que pesou no crime o fato de a vítima ser uma mulher negra. No momento desta declaração, Anielle assentiu com a cabeça, concordando com a ministra.

"Nós, mulheres, mesmo eu, branca e juíza, somos mais ponto de referência do que sujeito de direitos. Somos muito parecida com seres humanos, mas não temos a integridade ainda de um reconhecimento pleno. Matar uma de nós é muito mais fácil. E, dona Marinete, não ache que é só sua filha. Estou falando, como minha mãe poderia dizer. É mais fácil me matar do que matar um dos outros três aqui [Zanin, Dino e Moraes]", disse Cármen Lúcia.

Por volta das 10h, quando o relator do caso, Moraes, descrevia a participação dos irmãos Brazão e de Rivaldo Barbosa no crime ao ler seu voto, Marinete precisou ser atendida por socorristas, que aferiram sua pressão e mediram seus batimentos. Ela ficou cerca de 30 minutos fora da sala.

Luyara Franco também deixou o plenário da turma onde ocorria o julgamento após um mal-estar, por cerca de 40 minutos. Chorando, a jovem foi levada de cadeira de rodas para fora da sala.

Já o pai da vereadora assassinada pediu para que os socorristas aferissem sua pressão depois que Dino encerrou a sessão. Ele foi atendido em uma sala atrás do plenário e preferiu não se alongar ao dar uma declaração à imprensa. "Tive um pico de pressão, foi a 18/9. Não estou me sentindo bem, então não vou falar", disse.

PSOL COBRA PUNIÇÃO A MILICIANOS NO RIO

Políticos do Rio também marcaram presença no STF. Foram à corte nesta quarta o ex-deputado e presidente da Embratur, Marcelo Freixo (PT), e os deputados federais Chico Alencar (PSOL), Talíria Petrone (PSOL), Tarcísio Motta (PSOL) e Jandira Feghali (PC do B).

Freixo, que era amigo e foi chefe de Marielle quando ela atuou como sua assessora, compareceu aos dois dias do julgamento. O ex-deputado manteve uma postura reservada, apesar de ter sido citado diversas vezes durante o julgamento. Os ministros lembraram que ele era um dos alvos estudados por milicianos.

A defesa de Chiquinho Brazão também afirmou que o ex-deputado teve votos em Rio das Pedras para rebater a acusação de que o acusado de mandar matar Marielle seria chefe de uma milícia na zona oeste do Rio, como entenderam a PGR (Procuradoria-Geral da República) e os ministros do STF. Freixo demonstrou irritação com o argumento ao acenar, repetidamente, com a cabeça em negação.

Ao fim do julgamento, Tarcísio Motta anunciou que o partido pediu ao MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) que todos os casos que foram arquivados por Rivaldo Barbosa à frente da Polícia Civil do Rio sejam reabertos e investigados.

"É preciso seguir enfrentando o crime organizado no Rio de Janeiro e isso passa hoje, nesse dia, pelo levantamento e desarquivamento de todos os casos de Rivaldo e a investigação, novamente, especialmente dos casos que envolvem milícias", disse.

Talíria Petrone, que também era amiga de Marielle, afirmou que o partido continuará enfrentando a milícia no Rio e em outros estados. "Isso é um recado para que a forma como o Rio é governado, em que crime e política se associam de uma maneira inaceitável, ela não será mais tolerada", disse a deputada, que chorou depois do fim da sessão.

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