Bad Bunny: Um olhar a partir de Beijing | Outras Palavras
Nem todo espetáculo é apenas entretenimento. No show do artista portorriquenho estavam em jogo idioma, território e memória colonial. Do outro lado do planeta, a China também assistia e reagia. O que se enxergou ali sobre dois projetos políticos e civilizacionais opostos?
Publicado 25/02/2026 às 18:01
Por Iara Vidal, na CGTN
Um intervalo que atravessou o mundo
No dia 8 de fevereiro, os olhos do mundo se voltaram para o Super Bowl LX, em Santa Clara, na Califórnia. Não era só sobre futebol americano. Era sobre o show do intervalo. Pela primeira vez, um artista latino solo comandou o halftime show. Benito Antonio Martínez Ocasio, o Bad Bunny, ocupou o palco mais assistido da música mundial cantando quase inteiramente em espanhol.
Foram 13 minutos. Pouco no relógio. Gigante no significado. Um espetáculo tradicionalmente dominado pela indústria cultural anglófona abriu espaço para o Caribe e a América Latina falarem sua própria língua no centro do império midiático. Em tempos do ICE de Donald Trump, isso não é pouca coisa.
A audiência global ficou entre 128 e 135 milhões de pessoas. Durante dias, minha linha do tempo nas redes sociais foi inundada por análises e debates.
Entre dois palcos
Alguns amigos me provocaram: "Cadê seu texto sobre o show? Isso é a sua cara." E talvez seja mesmo. Moda e política se encontraram ali de forma quase didática. Mas, naquele momento, minha atenção estava voltada para outro palco: os prelúdios e as celebrações que antecedem a Gala do Festival da Primavera do China Media Group (CMG) — eventos realizados em vários países, uma espécie de aquecimento global para o equivalente chinês ao espetáculo da NFL (National Football League, a Liga Nacional de Futebol Americano).
Trata-se de um dos momentos mais importantes da empresa em que trabalho. Vou falar mais sobre isso em outro texto, talvez na minha prosa com Henfil. Por ora, digo apenas que foi uma das experiências televisivas mais grandiosas que já presenciei.
Volto a Bad Bunny. Ele esteve no Brasil para dar início à sua turnê mundial "Debí Tirar Más Fotos" e fez dois shows históricos em São Paulo (SP), nos dias 20 e 21 de fevereiro. Vale muito ler o registro feito pela jornalista Gabriela Peres para o veículo brasileiro Brasil De Fato.
Quando o show chega à China
Até aqui na China o show do intervalo do Super Bowl repercutiu. Internautas comentaram figurinos, gestos e símbolos. O álbum Debí Tirar Más Fotos alcançou o primeiro lugar na Apple Music China — feito raro para um trabalho inteiramente em espanhol.
Um vídeo viralizou: um cantor em Chongqing liderando um grupo de aposentados chineses cantando "Debí Tirar Más Fotos" em coro. A imagem fala por si. O intervalo mais estadunidense de todos virou, mais uma vez, um fenômeno global.
Cana, algodão e poder
Mais do que a música ou o gesto político de cantar em espanhol, dois elementos visuais me prenderam na apresentação: os canaviais no cenário e o cordão de algodão na cintura de Bad Bunny.
No look branco customizado da rede espanhola de fast fashion Zara, esse detalhe vai além do enfeite. A amarração remete à estética jíbara de Porto Rico, ligada ao vestuário do campo, e também dialoga com roupas de trabalho usadas nas Américas coloniais, sobretudo por pessoas negras escravizadas, com cordões e tiras de tecido para ajustar peças ao corpo.
Quando cana e algodão aparecem no palco do Super Bowl, não são apenas referência rural. Eles evocam uma história de exploração, trabalho forçado e poder nas Américas.
O algodão não é neutro. A cana também não.
Da plantação à estrutura
Cana e algodão ajudaram a desenhar o lugar que a América Latina ocupou no mundo: produzir para fora, exportar matéria-prima, depender de centros de poder externos.
Durante séculos, a lógica foi essa: grandes extensões de terra voltadas à monocultura. Produzir açúcar, algodão, depois soja — mas nem sempre organizar o território para alimentar a própria população com autonomia. Segurança alimentar não era prioridade. Exportar, sim.
Essa lógica se atualizou ao longo do século XX. É nesse terreno que a disputa entre Estados Unidos e China ganha nitidez. Os EUA consolidaram influência por meio de acordos comerciais, controle financeiro e cadeias produtivas. A China entrou nas últimas décadas com outra estratégia: infraestrutura, crédito, energia, cooperação agrícola.
Quando Bad Bunny surge entre canaviais e amarra um cordão de algodão à cintura, ele traz essa história para o centro da cena. O espetáculo é pop. O fundo é estrutural.
Porto Rico e a questão da comida
Porto Rico foi organizado durante décadas em torno da cana-de-açúcar. A prioridade era exportar.
Hoje, a ilha importa cerca de 80% dos alimentos que consome. A dependência ficou evidente após o furacão Maria, em 2017, quando o colapso logístico deixou prateleiras dos supermercados vazias. A Lei Jones, dos EUA, encarece o transporte porque obriga que mercadorias levadas entre portos estadunidenses (como os de Porto Rico) sejam transportadas por navios do próprio país, o que reduz as opções e aumenta os custos.
Há iniciativas para fortalecer a produção local, mas a herança da monocultura pesa. Quando cana e algodão aparecem no palco do Super Bowl, falam também de soberania — inclusive da soberania sobre o que se come.
Segurança alimentar como projeto de Estado
Enquanto boa parte da América Latina foi moldada pela monocultura voltada à exportação, a China construiu outro caminho. Em 2019, publicou o livro branco Food Security in China, deixando claro que comida é questão de Estado.
Desde 1949, com a fundação da República Popular da China, a produção de alimentos é tratada como base da estabilidade nacional. A diretriz fala em "autossuficiência básica em grãos e segurança absoluta dos alimentos essenciais". Proteger terras cultiváveis, investir em tecnologia rural e manter a produção doméstica como eixo central. Segurança alimentar, aqui, é soberania.
Essa estratégia nacional de soberania alimentar também se conecta ao combate à pobreza. Beijing proclamou, em 2021, uma "vitória completa" sobre a pobreza extrema no país. No balanço da campanha mais recente, o governo informou ter retirado quase 99 milhões de pessoas da pobreza rural e eliminado 832 distritos oficialmente classificados como pobres.
Esse resultado se soma a um processo histórico mais amplo: ao longo de várias décadas de políticas de desenvolvimento lideradas pelo Estado, a China retirou cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza, alcançando as metas de redução da pobreza da Agenda 2030 da ONU com uma década de antecedência. Trata-se de uma das maiores reduções de pobreza da história moderna.
O contraste com a história latino-americana é evidente. E é por isso que a disputa por influência na região passa também por acordos agrícolas, infraestrutura portuária e tecnologia para o campo.
A questão não é apenas quem compra soja ou açúcar.
É quem define as regras do jogo alimentar.
Em dezembro de 2025, Beijing publicou o 3º Documento sobre a Política da China para com a América Latina e o Caribe, reafirmando cooperação em infraestrutura, desenvolvimento, agricultura e conectividade.
O comércio entre China e América Latina ultrapassou US$ 500 bilhões em 2024. Projetos como o megaporto de Chancay, no Peru, ilustram uma estratégia que combina logística e reorganização de cadeias produtivas. No 4º Fórum Ministerial China-CELAC, em Beijing, o presidente chinês, Xi Jinping, anunciou novas linhas de crédito em yuan e iniciativas de cooperação regional.
Já os Estados Unidos falam em segurança hemisférica. Na Estratégia de Segurança Nacional, Washington volta a tratar a América Latina como parte de sua "esfera natural de segurança" — linguagem que ecoa a Doutrina Monroe e que nada mais é do que deixar claro que o continente é quintal de Washington. O eixo México–Caribe–América Central segue central, mas o que aparece é contenção geopolítica.
Se Beijing fala em multipolaridade, Washington fala em bloqueio e vigilância. Projetos distintos, linguagens distintas.
Cuba no centro da tensão
No meio desse tabuleiro está Cuba. O embargo econômico imposto pelos EUA desde os anos 1960 marcou profundamente a estrutura produtiva da ilha e afetou também a segurança alimentar. Cuba importa grande parte do que consome e enfrenta crises recorrentes de abastecimento.
Havana busca diversificar parceiros para ampliar sua margem de manobra. Beijing tem reiterado apoio à soberania da ilha e oposição a sanções unilaterais. Em janeiro, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, afirmou que Beijing "condena firmemente" as medidas de Washington e instou os EUA a "parar de privar o povo cubano de seus direitos à subsistência e ao desenvolvimento".
O discurso foi acompanhado por medidas concretas: envio de 30 mil toneladas de arroz e aprovação de assistência financeira estimada em cerca de US$ 80 milhões para necessidades urgentes.
No último 23 de fevereiro, o embaixador da China em Cuba, Hua Xin, comentou a entrega e a instalação de equipamentos de tecnologia fotovoltaica enviados pela potência asiática à ilha caribenha. Segundo o diplomata, "os equipamentos fotovoltaicos doados pela China estão chegando e sendo instalados nas diferentes províncias cubanas para ajudar na transição energética e aliviar a complexa situação atual". Entre os locais beneficiados estão policlínicas, lares maternos e de idosos, funerárias e outras instituições, como o lar de meninas, meninos e adolescentes sem cuidados parentais.
No centro dessa tensão, segurança alimentar deixa de ser conceito técnico e vira questão de sobrevivência econômica.
Do figurino à geopolítica
Quando Bad Bunny coloca canaviais no palco e amarra um cordão de algodão à cintura, ele não evoca apenas memória cultural. Ele reinscreve território e história no espaço mais simbólico da indústria cultural dos Estados Unidos.
A disputa por soberania na América Latina passa por portos, alimentos, crédito, terra e cadeias produtivas.
O palco era o Super Bowl.
Mas a história que atravessava aquele figurino não era apenas cultural.
Era geopolítica.
E talvez seja por isso que a China assistiu — e reagiu.
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Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
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Adequate named sources and some primary indicators, but lacks direct interviews or obtained documents.
Specific Findings from the Article (4)
"Por Iara Vidal, na CGTN"
Author is clearly named and affiliated.
Named source"Vale muito ler o registro feito pela jornalista Gabriela Peres para o veículo brasileiro Brasil De Fato."
References another journalist's work as a secondary source.
Secondary source"o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, afirmou"
Quotes a named Chinese official spokesperson.
Secondary source"o embaixador da China em Cuba, Hua Xin, comentou"
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Secondary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
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Minimal effort to present other sides; primarily contrasts US and Chinese perspectives without exploring counterarguments within each.
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"Se Beijing fala em multipolaridade, Washington fala em bloqueio e vigilância."
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Balance indicator"linguagem que ecoa a Doutrina Monroe e que nada mais é do que deixar claro que o continente é quintal de Washington."
Presents US policy in a negative, one-sided framing.
One sided"Beijing proclamou, em 2021, uma "vitória completa" sobre a pobreza extrema no país."
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"Porto Rico foi organizado durante décadas em torno da cana-de-açúcar."
Provides historical context for Puerto Rico's economic structure.
Background"Hoje, a ilha importa cerca de 80% dos alimentos que consome."
Provides specific statistical data on food dependency.
Statistic"O comércio entre China e América Latina ultrapassou US$ 500 bilhões em 2024."
Provides recent trade data.
Statistic"Desde 1949, com a fundação da República Popular da China, a produção de alimentos é tratada como base da estabilidade nacional."
Provides historical context for China's food security policy.
BackgroundLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
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Specific Findings from the Article (4)
"No dia 8 de fevereiro, os olhos do mundo se voltaram para o Super Bowl LX"
Neutral, factual reporting.
Neutral language"linguagem que ecoa a Doutrina Monroe e que nada mais é do que deixar claro que o continente é quintal de Washington."
Uses metaphor ('quintal' - backyard) with negative geopolitical connotations.
Left loaded"Eles evocam uma história de exploração, trabalho forçado e poder nas Américas."
Uses charged terms ('exploração', 'trabalho forçado') without presenting alternative historical interpretations.
Left loaded"Washington fala em bloqueio e vigilância."
Presents US policy in negatively loaded terms.
Left loadedTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
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Author and date present, good quote attribution, but lacks methodology disclosure.
Specific Findings from the Article (4)
"Por Iara Vidal, na CGTN"
Clear author attribution with affiliation.
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Clear publication date and time.
Date present"o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, afirmou que Beijing "condena firmemente""
Clear attribution of quote to specific official.
Quote attribution"o embaixador da China em Cuba, Hua Xin, comentou"
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Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
1-2 minor issues in connecting cultural performance to geopolitical analysis.
Specific Findings from the Article (2)
"E talvez seja por isso que a China assistiu — e reagiu."
Suggests China's reaction was due to the performance's geopolitical symbolism, but this causal link is not directly supported by evidence.
Unsupported cause"ítica. E talvez seja por isso que a China assistiu — e reagiu. Sem publicidade ou patrocínio, dependemos de "
The article implies China's reaction to Bad Bunny's performance was due to its geopolitical symbolism, but no direct evidence links the performance to specific Chinese government reactions.
Logic unsupported causeLogic Issues Detected
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Unsupported cause (low)
The article implies China's reaction to Bad Bunny's performance was due to its geopolitical symbolism, but no direct evidence links the performance to specific Chinese government reactions.
"Claim: 'E talvez seja por isso que a China assistiu — e reagiu.' vs. Evidence presented: Chinese social media reactions and chart performance, but not official government response to the performance's symbolism."
Core Claims & Their Sources
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"Bad Bunny's Super Bowl performance, through symbols like sugarcane and cotton, evoked colonial history and economic dependency in Latin America."
Source: Author's own analysis and interpretation Named secondary
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"China's state-led approach to food security and poverty reduction contrasts with Latin America's history of export-oriented monoculture."
Source: References to Chinese policy documents and statistics Named secondary
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"US policy in Latin America reflects a Monroe Doctrine-like approach of treating the region as its backyard."
Source: Author's analysis of US strategic language Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (7)
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P1
"Bad Bunny's halftime show was the first solo Latino artist performance."
Factual -
P2
"Porto Rico imports about 80% of its food."
Factual -
P3
"China-Latin America trade exceeded $500 billion in 2024."
Factual -
P4
"China claims to have lifted nearly 99 million people from rural poverty."
Factual -
P5
"Export-oriented monoculture causes food dependency in Latin America"
Causal -
P6
"US embargo causes structural impact on Cuba's production and food security"
Causal -
P7
"State-led food security policy causes national stability in China"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: Bad Bunny's halftime show was the first solo Latino artist performance. P2 [factual]: Porto Rico imports about 80% of its food. P3 [factual]: China-Latin America trade exceeded $500 billion in 2024. P4 [factual]: China claims to have lifted nearly 99 million people from rural poverty. P5 [causal]: Export-oriented monoculture causes food dependency in Latin America P6 [causal]: US embargo causes structural impact on Cuba's production and food security P7 [causal]: State-led food security policy causes national stability in China === Causal Graph === exportoriented monoculture -> food dependency in latin america us embargo -> structural impact on cubas production and food security stateled food security policy -> national stability in china
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.