Na mesma hora, robô faz duas decisões antagônicas sobre o mesmo tema. Por Lenio Streck
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Denuncio tudo isso no meu novo livro Robô Não Desce Escada e Trapezista Não Voa – Os limites dos aprendizes de Feiticeiro (Editora Contracorrente). No Judiciário há incentivo ao uso de IA. Que cresce dia a dia. O juiz (ou o seu assessor) dá um prompt (condena, absolva, libera, faça alvará, conceda liminar etc. – explicarei isso na sequência) e o robô fará a justificativa. A propósito: diz-se que o acórdão que absolveu o homem de 35 anos acusado de crime sexual contra uma menina de 11 anos foi feita por IA. Pior: o assessor ou o estagiário esqueceu de retirar o prompt…! A coisa vai mal.
E o que pode piorar, piora, seguindo a famosa Lei de Murphy. Um juiz escreveu na decisão (pagou mico, esquecendo de tirar o prompt) o seguinte:
"Faça parecer que o juiz leu a manifestação do MP e, então, elaborou a decisão. Deixe a decisão o mais completa possível, com o máximo de argumentos pertinentes, convincentes e corretos que puder".
Terceirização total da cognição (que de nunciei já várias vezes). Dizer algo? Com a palavra, os adoradores do "novo normal".
Ou seja, chegamos ao teleologismo máximo: primeiro se decide (prompt) e depois se vai atrás da fundamentação (ver aqui o artigo sobre terceirização que escrevi trazendo a denúncia do juiz assessor da presidência do CNJ).
Para ilustrar esse final dos tempos – o jus armagedom – é possível ver diariamente nas redes sociais petições em que o causídico esquece de tirar o prompt, decisões judiciais com espaços em branco prontas para o prompt, mas que o assessor esqueceu de preencher… e assim segue a nave. E coachs ensinando a "clonar" (sic) juízes.
Mas o máximo dos máximos aconteceu há poucos dias, em uma determinada comarca – justiça comum (isso ocorreu na Moldávia do Sul). Um causídico ingressou com duas ações, versando sobre o mesmo "evento danoso". Pensem em uma enchente ou um desmoronamento (portanto, um evento com danos). No primeiro, o causídico pediu danos morais. No outro, danos materiais. Para a mesma vítima! É estranho que o advogado faça isso – mas consta que isso virou praxe. Deve ser coisa da IA. E aqui entra o bizarro:
(i) as decisões foram emitidas concomitantemente.
(ii) no primeiro, a vítima recebeu os danos morais;
(iii) no segundo, foram-lhe negados os danos materiais;
(iv) o busílis está na decisão do magistrado: no primeiro pedido (danos morais), houve o deferimento porque considerou-se provado o referido evento danoso – uma vez que o poder público agiu de modo X; no segundo pedido, danos materiais, o mesmo magistrado não considerou provado O MESMO evento anterior, por considerar que o poder público agiu de modo Y. Quer dizer, o poder público agiu e não agiu para evitar o evento! Bingo!
(v) isto é, o mesmo evento gera duas decisões – antitéticas.
Provavelmente cada um dos estagiários ou assessor tenham posto prompts diferentes. E deu nisso. O que diz sobre isso a comunidade jurídica? Muito pouco. A maioria está embriagada com o "novo normal" (há até um livro que anuncia o "novo normal").
O que seria normal?
O que se tira disso – se é que se tira algo? É uma amostra do que ocorre nas práticas judiciarias sob o império da IA. Vai ficar – se já não está – um jogo de cartas marcadas. Vejamos uma simulação:
(i) O causídico ingressa com ação com petição feita por IA;
(ii) A parte contrária responde usando IA;
(iii) O juiz decide usando IA (dá um prompt);
(iv) O causídico que perdeu ingressa com recurso feito por IA;
(v) A outra parte faz as contrarrazões por IA;
(vi) O tribunal julga por IA.
(vii) Basta que haja um ajuste entre a IA de primeiro grau e de segundo grau para tornar inútil qualquer possibilidade recursal.
(viii) Claro que, no juízo colegiado, deverá haver um ajuste entre os prompts dos diversos assessores. Assim, haverá unanimidade. Ou simplesmente basta "seguir o relator". E assim também os destinos dos embargos já estarão selados.
(ix) Eventual dissidência se dará ou por um outro prompt em sentido contrário ou por mão humana sem o uso de IA. Tertius non datur.
(x) Atenção: nem falarei sobre o REsp ou RE.
(xi) Tudo isso é ou não uma violação de tudo o que já se ensinou no Direito?
(xii) Há algum espaço para discutir acesso à justiça e decisão judicial?
Sobre o prompt, um esclarecimento (já falei disso em coluna anterior, para onde remeto o leitor). Segundo um estimado juiz de direito expert em IA, há prompts e prompts. Alguns são assim tipo "condene" ou "absolva" e "busque fundamentos". Outros são mais complexos (sofisticados), compostos por instruções feitas pela "persona" do juiz (persona é uma espécie de duplo do juiz). Constrói-se a persona e nele se coloca "o que o juiz pensa" (alimentação com decisões, informações, tipos de sentenças etc.) e depois se acrescenta o que "o persona" quer que o robô faça.
É o que os coaches de IA chamam – indevidamente, segundo o mesmo magistrado – de "clonagem de juiz ou de tribunal" (também acho que o termo "clone" não é legal). De todo modo, a IA mais confiável, segundo o magistrado, seria o Claude. Lembro que no livro Robô Não Desce Escada, conto o experimento de Oxford, quando os cientistas fizeram uma "persona" alimentada por tudo o que existia até 1.633 em termos de ciência. E então perguntaram para o robô o que diria se alguém defendesse a tese de que é a terra que gira em torno do sol… O robô respondeu: quem pensa assim é louco…!
Sigo. Parece, de todo modo, que o mundo jurídico fez sua opção. Já que tudo é IA, quem vai ficar de fora? Outro dia um professor da cepa me ligou para contar uma coisa que mostra de como qualquer Zérruela vira "opinador" no Direito: um cliente dele, empresário sem formação jurídica, mandou um áudio no qual "corrige" a petição do professor, dizendo "olha, o ChatGPT aqui diz que….". Pronto! Nada mais precisa ser dito. Esse amigo é um dos maiores experts em Direito Tributário. "Corrigido" pelo Chat, na voz do cliente.
Só mais uma coisinha: vamos deixando que uma coceira vire um ferimento e o ferimento se transforme em gangrena. E aí vem a amputação. O "sistema de precedentes" começou assim. E hoje já não há praticamente direito legislado e tampouco se estuda isso. Afinal, as aulas são sobre teses e enunciados (chamados de precedentes, de algum modo). Claro: e escolhidas por IA. Vivemos uma jurisprudencialização do Direito, porém sem casos concretos. Na verdade, um positivismo jurisprudencial – à brasileira. Lido e aplicado por meio de IA.
A propósito: sigo intrigado com a França. Por que será que proibiu esse tipo de uso de IA, inclusive com tipificação penal? Não, não quero isso aqui. Porém, ao menos deveríamos discutir melhor tudo o que está ocorrendo. Peço que pensem no juiz que esqueceu o prompt (vejam acima) e do outro juiz que conseguiu a proeza de fazer dois prompts antagônicos sobre o mesmo evento.
Quem se preocupa? Quem lê textos? Quem ainda lê livros? E sobre Direito? Vale ainda escrever?
Dica para quem quiser criticar a coluna: dê um prompt dizendo "critique o que disse Lenio Streck e use o inteligentíssimo exemplo do surgimento da energia elétrica e os fabricantes de vela". Ou dê um prompt assim: "critique o texto usando o exemplo do avanço tecnológico e que a IA é apenas uma ferramenta, tipo cinzel". Será um arraso. Serei nocauteado. Observação: não esqueça de apagar o prompt. Não pague mico.
Post scriptum: e a IA passou o cachorro na própria criadora – a Meta!
Segundo notícias, a diretora executiva da Meta disse que a IA alucinou e apagou seus e-mails. A "ferramenta" (afinal, é só uma ferramenta… como um pincel!) deletou todos os e-mails quando deveria analisá-los. Bingo. Imagina se a IA resolve deletar todos os REsp ou apelações. Ou agravos.
Publicado originalmente no Conjur
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Few named sources, mostly relies on general references and the author's own claims.
Specific Findings from the Article (3)
"Segundo um estimado juiz de direito expert em IA"
References a judge as an expert but doesn't name them
Named source"Segundo notícias, a diretora executiva da Meta disse"
Cites other media reports without specific attribution
Tertiary source"Outro dia um professor da cepa me ligou para contar uma coisa"
References unnamed professor without credentials
Anonymous sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
One-sided presentation with no counterarguments presented.
Specific Findings from the Article (3)
"E temos a ombudsman do jornal dizendo nada ver de errado"
Criticizes ombudsman without presenting their full perspective
One sided"s vezes). Dizer algo? Com a palavra, os adoradores do "novo normal"."
Dismissive tone toward opposing views
One sided"to pouco. A maioria está embriagada com o "novo normal""
Characterizes opposing view negatively without evidence
One sidedContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides some context about AI in judiciary but lacks specific data.
Specific Findings from the Article (3)
"No Judiciário há incentivo ao uso de IA. Que cresce dia a dia."
Provides general background about AI adoption
Background"conto o experimento de Oxford, quando os cientistas fizeram uma "persona""
References historical experiment for context
Context indicator"A propósito: sigo intrigado com a França. Por que será que proibiu"
Provides comparative context with France
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Significant biased language and emotional manipulation.
Specific Findings from the Article (4)
"o jus armagedom"
Dramatic, apocalyptic language
Sensationalist"o máximo dos máximos"
Exaggerated, sensational language
Sensationalist"E aqui entra o bizarro"
Emotional, judgmental language
Sensationalist"um jogo de cartas marcadas"
Metaphor suggesting corruption
SensationalistTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Clear author attribution and date, good quote attribution.
Specific Findings from the Article (2)
"Segundo um estimado juiz de direito expert em IA"
Attributes claim to specific source
Quote attribution"a diretora executiva da Meta disse"
Attributes statement to specific person
Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
Some logical issues with generalizations and unsupported claims.
Specific Findings from the Article (4)
"É estranho que o advogado faça isso – mas consta que isso virou praxe. Deve ser coisa da IA."
Attributes practice to AI without evidence
Unsupported cause"Provavelmente cada um dos estagiários ou assessor tenham posto prompts diferentes."
Speculation presented as likely explanation
Unsupported cause"Provavelmente cada um dos estagiários ou assessor tenham posto prompts diferentes. E deu nisso."
Attributes contradictory court decisions solely to AI use without considering other factors
Logic unsupported cause"No Judiciário há incentivo ao uso de IA. Que cresce dia a dia."
Claims AI use has become standard practice in legal system without statistical evidence
Logic unsupported causeLogic Issues Detected
-
Unsupported cause (medium)
Attributes contradictory court decisions solely to AI use without considering other factors
"Provavelmente cada um dos estagiários ou assessor tenham posto prompts diferentes. E deu nisso."
-
Unsupported cause (medium)
Claims AI use has become standard practice in legal system without statistical evidence
"No Judiciário há incentivo ao uso de IA. Que cresce dia a dia."
Core Claims & Their Sources
-
"AI is being used irresponsibly in the judiciary, leading to contradictory decisions"
Source: Author's own analysis and anecdotal examples Named secondary
-
"The legal profession is becoming overly dependent on AI, compromising judicial integrity"
Source: Author's personal observations and references to unnamed sources Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (6)
-
P1
"A judge forgot to remove an AI prompt from a decision"
Factual -
P2
"Contradictory decisions were issued simultaneously for the same case"
Factual -
P3
"France has prohibited certain uses of AI with criminal penalties"
Factual -
P4
"AI use causes contradictory judicial decisions"
Causal -
P5
"AI adoption causes degradation of legal reasoning"
Causal -
P6
"AI tools causes replacement of human judgment in legal system"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: A judge forgot to remove an AI prompt from a decision P2 [factual]: Contradictory decisions were issued simultaneously for the same case P3 [factual]: France has prohibited certain uses of AI with criminal penalties P4 [causal]: AI use causes contradictory judicial decisions P5 [causal]: AI adoption causes degradation of legal reasoning P6 [causal]: AI tools causes replacement of human judgment in legal system === Causal Graph === ai use -> contradictory judicial decisions ai adoption -> degradation of legal reasoning ai tools -> replacement of human judgment in legal system
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.