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Mulher que se agarrou em poste por 3h pra se salvar de enchente não sabia da própria força: 'Deus'

otempo.com.br By Isabela Abalen 2026-02-26 786 words
ENVIADA ESPECIAL. Com os mesmos braços que seguraram dois filhos no colo e abraçaram, pela última vez, o namorado, Edna Silva se agarrou a um poste de luz por cerca de três horas ininterruptas durante uma das maiores enchentes já registradas em Ubá, na Zona da Mata. A força, até então, desconhecida da empresária a salvou de se somar aos seis mortos no temporal que atingiu a cidade entre segunda e terça-feira (23 e 24/2). Pela limitada condição humana, seus braços não puderam proteger o companheiro, Luciano Fernandes, de 50 anos, uma das vítimas do desastre, por mais que o coração estivesse ligado a ele. A casa onde vivia e o restaurante que comandava também não resistiram à fúria da água.+ Vídeo mostra destruição e ruas cobertas de lama em Ubá após tempestade

Edna conversou com O TEMPO no início da noite desta quinta-feira (26), ao som da chuva, que segue de forma contínua no município. Para que a reportagem chegasse até ela, foi preciso caminhar por ruas ainda tomadas pela lama. A empresária se sentou na única cadeira que restou do restaurante e desabafou sua própria história, em meio às lágrimas. "Não consigo não me emocionar", justificou, em reação compreensível.+ Mulher que ficou presa por 3h em poste no temporal, em Ubá, perdeu marido, casa e restaurante

A empresária relembra que, na segunda-feira (23), estava dormindo quando o temporal começou. Um telefonema do vizinho a acordou, avisando sobre a enchente, que já havia atingido cerca de 30 centímetros dentro da residência. Ainda atordoada, ela, o namorado e o filho Bruno, de 31 anos, acionaram o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil em busca de socorro. A água, no entanto, avançou rapidamente. "Eu escutava os móveis batendo — a geladeira contra a parede, o fogão, o sofá flutuando. Quando a água chegou ao meu peito, ouvi um estrondo e fui derrubada. A primeira coisa que pensei foi: 'Meu Deus, eu não sei nadar. Não me deixa morrer afogada'", relembra.

Naquele momento, Edna foi arrastada pela enxurrada para fora de casa por pelo menos 60 metros, parando a três postes de distância. Aquela estrutura fria, mas ainda de pé, tornou-se ponto de apoio pelas três horas seguintes. "Eu senti uma coisa redonda perto de mim. Apalpei: era um poste. Foi quando percebi que não estava mais dentro de casa. Eu estava submersa, com a respiração presa para não engolir aquela água. Senti algo no meu pé e comecei a pisar naquilo para conseguir me manter acima da água", continua.

De forma quase inacreditável, Edna conseguiu colocar o rosto para fora da enxurrada. Ao chamar por socorro, recebeu ajuda de vizinhos, aflitos às janelas. Naquele momento, também viu o filho agarrado à grade, o que lhe deu força para continuar presa ao poste. "Era eu vigiando ele, e ele me vigiando", disse.

Não havia como escapar do desespero: "Eu comecei a imaginar: ou eu morro afogada ou eletrocutada. Eu estava muito próxima da rede elétrica e aquela água muito forte batendo."

Um vizinho, até então desconhecido, lhe ofereceu uma corda, que ela conseguiu amarrar ao corpo sem soltar o poste. Quando perguntou sobre o namorado, não recebeu resposta dos moradores na janela. "Ele fez assim para mim", contou, ao fazer o movimento das mãos como ondas, indicando que o companheiro havia sido arrastado pela enxurrada.

As duas cachorras da empresária também não resistiram. Enquanto as horas passavam, mesmo certa do luto, ela permaneceu firme, com os braços fechados em torno do poste de energia. "Eu não queria morrer. Eu pedia: 'Deus, eu quero continuar viva com meus filhos'. E a água foi abaixando. Depois de muito tempo, eu consegui colocar o pé no chão", falou, em meio às lágrimas.

Quando a água baixou, ficaram o corpo exausto e a dor do luto. A força que Edna havia concentrado nos braços encontrou aconchego em outros colos, como o da vizinha, que lhe ofereceu um banho, e o do filho, também sobrevivente e seu porto seguro. Ao lembrar que, antes do temporal, pedia ao filho para abrir as garrafas de casa por se sentir fraca, Edna entende que a força que teve para segurar aquele poste por horas veio de dentro.

"Tudo o que eu ganhei em Ubá, naquele dia, a enxurrada levou. Restamos eu e meus filhos, o resto foi embora. Mas Deus ficou comigo o tempo todo. Ele foi minha fortaleza, eu sempre tive fé. Para você ter ideia, eu sou cozinheira e não tinha força para misturar uma farofa, mas fiquei ali por horas", desabafou.A moradora está recebendo doações de qualquer valor por meio de:

- Vaquinha online, disponível no link: https://vaquinhadorazoes.com/vaquinha/1772054474367x787556943139700700- Chave Pix: 32998338536, em nome de Glenda, filha de Edna, na Caixa Econômica Federal.

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