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Bolsonarismo atuou como braço político do 'banco da máfia'

intercept.com.br By João Filho 2026-03-07 604 words
"Esse negócio de banco, sempre falei, é igual máfia" — parece uma frase de senso comum dita por um tiozão do churrasco justamente incomodado com os bancos. Mas não. É de Daniel Vorcaro em conversa com sua namorada no WhatsApp. O banqueiro não recorreu a uma hipérbole: estava sendo literal.

Além de ter uma teia de relacionamentos extensa, que chega em todos os poderes da República, Vorcaro mantinha uma milícia particular para fazer serviço sujo, como, por exemplo, intimidar funcionários; monitorar autoridades e empresários concorrentes; invadir sistemas do Ministério Público Federal, o MPF, para obter dados sigilosos das investigações contra ele; organizar festas com prostitutas; comprar jornalistas; e bater em outros jornalistas.

Em conversa com seus capangas, falou em forjar uma tentativa de assalto contra um jornalista para poder "quebrar todos os seus dentes". Um dos integrantes dessa milícia tem um vasto currículo na bandidagem, tendo sido indiciado por roubo de veículos, estelionato, crimes cibernéticos e clonagem de cartões de crédito. É tudo tão mafioso que chega a ser caricato.

Falsa equivalência

A prisão do banqueiro e dos seus capangas, junto com o submundo do poder revelado pelas mensagens do seu celular, deixou muita gente preocupada em Brasília. É fato que Vorcaro buscava manter uma rede de relações com figurões de todos os poderes e de vários partidos. Mas, ao contrário da tese que tem se propagado na grande imprensa, o Banco Master está longe de ser um escândalo suprapartidário.

Diante de tudo o que se sabe até agora sobre a investigação da Polícia Federal, a PF, dá para dizer com tranquilidade que o braço político de Vorcaro é o consórcio das direitas, leia-se bolsonarismo e Centrão. Isso não é uma novidade, mas é preciso relembrar, porque há muita gente interessada em inflar a ideia de que tanto a direita quanto a esquerda estão igualmente envolvidos nessa lama.

No final de 2024, antes de o escândalo estourar, Vorcaro conseguiu uma conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chamou dois ministros do governo e Gabriel Galípolo, que era diretor de política monetária do Banco Central à época. Em janeiro deste ano, vários veículos noticiaram que o banqueiro teria reclamado com o presidente sobre a concentração do mercado bancário no Brasil. Lula teria respondido que o tema não era da competência do governo e que deveria ser tratado de forma técnica pelo Banco Central. No celular de Vorcaro, a única menção ao encontro teria sido uma mensagem para a namorada em que ele fala que o encontro com o presidente "foi ótimo". Isso foi o suficiente para o nome de Lula aparecer nas manchetes do escândalo do Banco Master, sugerindo uma relação espúria com o mafioso. Até o momento, absolutamente nada indica que o governo favoreceu Vorcaro. Menos de um ano depois da reunião com o presidente, o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central e, agora, Vorcaro foi preso a pedido da Polícia Federal.

O berço do Master

Se o presidente do Banco Central indicado por Lula liquidou o banco da máfia, o presidente indicado por Bolsonaro estendeu o tapete vermelho. O Banco Master nasceu sob uma estranha benção do Banco Central durante o governo Bolsonaro. A autorização da compra do banco por Vorcaro foi assinada pelo então diretor de fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, que depois passou a trabalhar clandestinamente para o banqueiro dentro da autarquia. Segundo a PF, ele e outro funcionário do Banco Central trabalhavam para influenciar as decisões do órgão em favor do Master. Esse homem, que viraria "capanga" de Vorcaro dentro do Banco Central, foi nomeado ao cargo pelo então presidente Jair Bolsonaro.

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