Homens estupram ao menos seis mulheres e meninas por dia em Pernambuco - Marco Zero Conteúdo
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Homens estupraram ao menos 2.354 mulheres e meninas em Pernambuco em 2025. Isso significa que eles abusaram de, no mínimo, seis mulheres e meninas a cada 24 horas no estado somente no ano passado. Os dados são da Secretaria Estadual de Defesa Social (SDS-PE) e, sem dúvida, estão subnotificados porque muitas não prestam queixa. A maioria das vítimas (70%) tinha entre zero e 17 anos, ou seja, crianças e adolescentes.
"Nós sempre tratamos o estupro como um caso subnotificado. Esse número tem uma tendência de ser de seis a oito vezes maior do que o que está colocado", diz a coordenadora-executiva do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop) e conselheira do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Edna Jatobá.
O aumento na quantidade de pedidos de ajuda através da Central de Atendimento à Mulher Ligue 180 reflete a realidade — e também o aprimoramento do serviço de informação e acolhimento. Em 2024 (dado mais recente publicado pelo Ministério das Mulheres), o 180 registrou um total de 31.030 atendimentos oriundos de Pernambuco, um aumento de 40,6% em relação a 2023.
O Instituto Patrícia Galvão e o Instituto Locomotiva mostram, em números, o que quase todas as mulheres sentem: é cada vez mais perceptível que não existem espaços totalmente seguros para elas. Em pesquisada realizada pelas duas instituições no ano passado, 82% das entrevistadas declararam ter "muito medo" de sofrer um abuso sexual. Esse percentual era de 78% em 2020.
O temor também está presente na hora de decidir ou não pela denúncia. Muitas têm medo do agressor, sentem vergonha e temem ser desacreditadas, além de haver ainda muita falta de informação sobre os direitos das mulheres. Um outro levantamento publicado, no ano passado, também pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva mostra que oito em cada dez vítimas de violência sexual não buscaram nenhum atendimento.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, publicado recentemente pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, comprova que ainda é imensa a dificuldade de se punir os agressores. Das 67.157 perícias sexológicas realizadas em 2024, apenas 9,8% resultaram em laudos positivos.
Quem tem menos de 14 anos é considerado vulnerável pela legislação brasileira, que reconhece que crianças não têm capacidade de consentir sobre relações sexuais, independente de vínculo ou autorização familiar. Em 2024, o Brasil registrou 67.204 casos de estupro de vulneráveis, a maioria do sexo feminino e negra, de acordo com a 19ª edição do Anuário do Fórum. A taxa nacional chegou a 31,6 casos por 100 mil habitantes, o maior número da série histórica.
Na visão da organização, "casos recentes que mobilizaram o debate público reforçam a importância de compreender a dimensão desse problema e de garantir que a proteção da infância seja tratada como prioridade absoluta pelo Estado e pela sociedade". A decisão recente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) que absolveu um homem de 35 anos que manteve relações com uma menina de 12 anos, chocou grande parte do país e gerou uma reação nacional. Depois o desembargador reviu a decisão e condenou o criminoso. Agora, o próprio magistrado será investigado por suspeita de abuso sexual.
Edna detalha que existe uma tendência maior de notificação dos casos envolvendo crianças e adolescentes graças um sistema garantidor de direitos mais bem estruturado, com serviços vinculantes, conselhos tutelares e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Mas, na visão dela, a sociedade não está preparada para enfrentar o debate do estupro. Prova é, segundo destaca, a dificuldade para aprovar, no final de 2024, a resolução 258/2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). A medida estabelece um protocolo específico para atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, incluindo a garantia da interrupção legal da gravidez quando decorrente de estupro.
A resolução prevê, por exemplo, o treinamento de profissionais para identificar situações de violência sexual e a garantia de um atendimento rápido, sigiloso e livre de preconceitos, priorizando o cuidado e o respeito à vítima. "Essa resolução sofreu muita resistência, da Câmara de Deputados, do Senado, da igreja e até do próprio Governo Federal inicialmente, mesmo sendo um governo de esquerda", relembra.
"Quando temos um tribunal de Justiça e setores do judiciário que entendem como consensual uma relação entre um homem de 35 anos e uma menina de 12 anos e absolvem isso, como aconteceu em Minas Gerais, temos a prova cabal de que a nossa sociedade anui, legitima o estupro, especialmente praticado contra crianças e adolescentes", avalia Edna.
"O crime de estupro é muito difícil de detectar sem a ajuda da sociedade. Porque acontecem dentro das residências, dentro das famílias, dentro do lugar onde essas meninas e mulheres deveriam se sentir mais seguras. Existe uma proteção muito grande aos agressores e uma baixíssima proteção às vítimas de violência sexual. Temos uma inversão de valores", observa.
"E quando tentamos, a partir dos órgãos de controle e dos órgãos colegiados, fazer alguma coisa para diminuir essa distorção, essas iniciativas são rechaçadas pela sociedade a partir do manto do conservadorismo", aponta a especialista. "Precisamos preparar a sociedade para esse debate e que ele seja realizado à luz da ciência e da garantia de direitos, e não refém do extremismo religioso", frisa.
A casa da vítima ainda é o cenário onde mais situações de violência são registradas. De acordo com a edição 2025 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 65,7% dos casos de estupro em 2024 aconteceram dentro das residências, sendo que 45,5% dos autores do crime eram parentes e 20,3% eram parceiros ou ex-parceiros íntimos.
"O Anuário mais uma vez qualifica os dados, mostrando que a violência de gênero continua associada ao ambiente doméstico, à desigualdade racial e a ciclos de abuso. Mas os casos mais recentes se destacam por trazer um elemento que não pode ser ignorado: a intensidade e a crueldade dos ataques", diz o Fórum.
Na avaliação de Edna, do Gajop e do CNDH, é preciso olhar para esse tipo de crime como uma questão de segurança pública, mas não só. Para ela, é urgente que a sociedade fortaleça a educação de gênero e a educação sexual, ainda muito rechaçada pelas escolas, além de fortalecer o acesso de mulheres e meninas à informação sobre direitos e canais de denúncia.
Ela também destaca que é preciso fortalecer as mães dessas meninas com políticas públicas que também passem pela geração de renda e de proteção para quando há necessidade de retirada imediata das vítimas dos espaços de denúncia para quebrar o ciclo de continuidade das violências.
AUTOR
Raíssa Ebrahim
Vencedora do Prêmio Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petróleo, é jornalista profissional há 12 anos, com foco nos temas de economia, direitos humanos e questões socioambientais. Formada pela UFPE, foi trainee no Estadão, repórter no Jornal do Commercio e editora do PorAqui (startup de jornais de bairro do Porto Digital). Também foi fellowship da Thomson Reuters Foundation e bolsista do Instituto ClimaInfo. Já colaborou com Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Gênero e Número e Trovão Mídia (podcast). Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com
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Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
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Good use of named expert source and multiple official data sources, but lacks primary victim/survivor interviews.
Specific Findings from the Article (4)
"Edna Jatobá"
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Named source"coordenadora-executiva do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop) e conselheira do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH)"
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Expert source"Os dados são da Secretaria Estadual de Defesa Social (SDS-PE)"
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Primary source"O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, publicado recentemente pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública"
Citation of published research report.
Secondary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
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Primarily presents one perspective (expert/advocate view) with minimal representation of opposing viewpoints.
Specific Findings from the Article (3)
""Quando temos um tribunal de Justiça e setores do judiciário que entendem como consensual uma relação entre um homem de 35 anos e uma menina de 12 anos e absolvem isso, como aconteceu em Minas Gera..."
Strong advocacy language without presenting judicial perspective.
One sided""Essa resolução sofreu muita resistência, da Câmara de Deputados, do Senado, da igreja e até do próprio Governo Federal inicialmente,"
Mentions opposition but doesn't quote or explain their reasoning.
One sided"A decisão recente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) que absolveu um homem de 35 anos"
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Balance indicatorContextual Depth
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Specific Findings from the Article (4)
"Homens estupraram ao menos 2.354 mulheres e meninas em Pernambuco em 2025"
Specific quantitative data.
Statistic"65,7% dos casos de estupro em 2024 aconteceram dentro das residências"
Detailed breakdown of crime locations.
Statistic"Quem tem menos de 14 anos é considerado vulnerável pela legislação brasileira"
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Background"Em 2024 (dado mais recente publicado pelo Ministério das Mulheres), o 180 registrou um total de 31.030 atendimentos"
Historical comparison data.
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
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Mostly factual language but contains some advocacy framing and emotionally charged terms.
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"Os dados são da Secretaria Estadual de Defesa Social (SDS-PE)"
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Neutral language"chocou grande parte do país"
Emotional descriptor.
Sensationalist"a intensidade e a crueldade dos ataques"
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Sensationalist"não refém do extremismo religioso"
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"Raíssa Ebrahim"
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Author attribution"olocado", diz a coordenadora-executiva do Gabinete de"
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Quote attribution"Na visão da organização"
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Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical inconsistencies detected; arguments are supported by data and expert commentary.
Core Claims & Their Sources
-
"At least 2,354 women and girls were raped in Pernambuco in 2025, representing at least 6 per day."
Source: Secretaria Estadual de Defesa Social (SDS-PE) data Primary
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"70% of victims were children and adolescents (0-17 years old)."
Source: Secretaria Estadual de Defesa Social (SDS-PE) data Primary
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"Brazilian society legitimizes rape, especially against children and adolescents."
Source: Expert analysis from Edna Jatobá of Gajop and CNDH Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (8)
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P1
"2,354 rape cases in Pernambuco in 2025"
Factual -
P2
"70% of victims aged 0-17"
Factual -
P3
"65.7% of rapes occurred in residences"
Factual -
P4
"82% of women fear sexual abuse"
Factual -
P5
"Only 9.8% of sexological examinations resulted in positive reports"
Factual -
P6
"Underreporting causes actual rape numbers 6-8 times higher than reported"
Causal -
P7
"Fear of aggressor, shame, lack of information causes victims don't report"
Causal -
P8
"Domestic environment, racial inequality, abuse cycles causes gender violence continues"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: 2,354 rape cases in Pernambuco in 2025 P2 [factual]: 70% of victims aged 0-17 P3 [factual]: 65.7% of rapes occurred in residences P4 [factual]: 82% of women fear sexual abuse P5 [factual]: Only 9.8% of sexological examinations resulted in positive reports P6 [causal]: Underreporting causes actual rape numbers 6-8 times higher than reported P7 [causal]: Fear of aggressor, shame, lack of information causes victims don't report P8 [causal]: Domestic environment, racial inequality, abuse cycles causes gender violence continues === Causal Graph === underreporting -> actual rape numbers 68 times higher than reported fear of aggressor shame lack of information -> victims dont report domestic environment racial inequality abuse cycles -> gender violence continues
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.