A valorização da memória e da ciência em ‘O agente secreto’
Esse é o sexto longa do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, que se soma às obras Retratos fantasmas (2023), Bacurau (2019), Aquarius (2016) e O som ao redor (2012) e Crítico (2008).
Como cientista social e cinéfilo, me entretenho duplamente com os filmes do Kleber, que fazem sempre muitas referências a clássicos do cinema e também a temas clássicos das ciências sociais, em particular da ciência social sobre o Brasil: modernização autoritária, familismo, relações sociais, "jeitinho" e carnaval, entre tantos outros temas.
E, assim como em seus trabalhos anteriores, é difícil reduzir o filme a um único tema. Mas é possível dizer que um de seus eixos centrais é a representação da complexa realidade brasileira de 1977, e também como esse período funciona como espelho para o Brasil de hoje. Trata-se de uma ficção histórica que, de certo modo, contrasta e ao mesmo tempo se complementa com a produção que a precede, o documentário Retratos Fantasmas. Ali Kleber reafirma uma máxima do diretor francês Jean-Luc Godard segundo a qual uma boa ficção tende a ser um documentário e vice-versa.
O paralelismo com os dias de hoje é tão forte que torna difícil interpretar o filme apenas como uma crítica ao passado
O paralelismo com os dias de hoje é tão forte que torna difícil interpretar o filme apenas como uma crítica ao passado
No lado documentário de O Agente Secreto, o filme reconstrói de modo obsessivo o ano de 1977 e alcança um realismo impressionante. Para citar um detalhe, há muitas referências às décadas de 1940 e 50 em móveis, músicas e histórias. Afinal, assim como hoje falamos dos anos 1970, naquela década certamente se remetia muito a eventos de períodos anteriores, como a Segunda Guerra Mundial.
Mas eu gostaria de salientar um aspecto menos comentado sobre o filme: sua relação com a ciência, especificamente sobre fazer ciência no Brasil.
Retratos fantasmas da ciência
A trama começa no departamento de oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde uma cientista descobre uma perna humana (e cabeluda) no estômago de um tubarão que estava sendo dissecado. O tubarão não pôde ser guardado, pois o departamento tem uma geladeira que não funciona.
Em seguida, a trama acompanha Armando (interpretado por Wagner Moura), um jovem professor universitário. Ele dirige um departamento da UFPE (aparentemente de engenharia) onde se desenvolve uma série de inovações tecnológicas.
E, mais adiante, o filme mostra, no tempo presente, duas jovens assistentes de pesquisa trabalhando em um projeto de história ou ciências sociais e catalogando ou codificando um vasto material de arquivo que remonta a história desses personagens dos anos 1970.
Em alguns desses retratos, vemos como cientistas, estudantes universitários e acadêmicos em geral foram reprimidos pela ditadura militar brasileira (1964-1985). Essa perseguição ocorreu de modo desproporcional à ameaça que poderiam representar ao regime. E, segundo alguns estudiosos do tema, isso pode ter contribuído para o fim da ditadura.
O cientista político Vitor Weffort explica como a perseguição à profissionais de classe média e alta fez com que a elite re-calculasse seu apoio à ditadura. Isso se aplica à comunidade acadêmica, pois nas universidades estava a elite que o regime originalmente dizia proteger. Essa elite experimentou, portanto, um processo de conversão de interesse em direção à democracia.
A ditadura como contexto
Outro aspecto incomum que o filme resgata é o retrato do empresariado como base social da ditadura militar. Na ciência política, entende-se que a coalizão entre empresários, tecnocratas e militares esteve ligada ao surgimento de várias ditaduras na América do Sul. Estes regimes foram caracterizados pelo acadêmico argentino Guillermo O'Donnell com o conceito "autoritarismo burocrático", muito difundido nas ciências sociais e usado para explicar regimes autoritários em diferentes partes do mundo.
Nesse contexto, é marcante que a perseguição ao personagem principal se dê não por ele ser uma figura politicamente exposta, mas pela ganância de um empresário corrupto, interessado em se apropriar das invenções produzidas na universidade. A acusação de que o financiamento para a ciência seria "dinheiro fácil" aparece associada a uma parte do empresariado que é, esta sim, beneficiária de inúmeras vantagens concedidas pelo governo.
Algumas publicações apontam, portanto, que o filme trata da corrupção associada ao autoritarismo. Porém, acredito que ele vai além. A corrupção mostrada no filme não é tão distante da que observamos no Brasil hoje. Uma das pesquisas mais importantes sobre esse tema vem da própria UFPE (a UFPE real), onde a cientista política Nara Pavão mostra como a democracia, por si só, nem sempre é capaz de solucionar práticas de corrupção.
Além disso, a ditadura não é retratada em seu período mais repressivo, mas sim em um momento muito próximo ao início do processo de abertura "lenta, gradual e segura". Esse período construiu instituições que, por um lado, possibilitaram a redemocratização e, por outro, mantiveram práticas repressivas herdadas do regime – um fenômeno comum nas democracias da América Latina. Kleber nos mostra essa conexão ao representar escândalos reais do presente transplantados ao ano de 1977.
O paralelismo com os dias de hoje é tão forte que torna difícil interpretar o filme apenas como uma crítica ao passado. Ele sugere que aquele Brasil de 1977 continua, de várias formas, a se reproduzir nos anos 2020.
No autoritarismo burocrático predomina uma visão tecnocrática da política e a tentativa de desmobilização da sociedade. Ela é baseada na ideia de que o Estado poderia impor uma racionalidade superior às massas. Sua base social está justamente na coalizão entre empresários, tecnocratas e militares, não muito diferente das alianças políticas que apareceram em episódios recentes da política brasileira, como a tentativa de golpe de 2022 e, antes disso, as mobilizações pelo impeachment de Dilma Rousseff.
Nos últimos anos, com a radicalização de setores da direita e a revalorização pública da ditadura, voltaram também as acusações contra acadêmicos e cientistas. Vimos novamente situações de intervenção política em instituições de fomento à pesquisa e discursos abertamente autoritários e anti-ciência.
Permeados pela desigualdade
Em outro ponto importante do filme, que acompanha produções anteriores do diretor, O Agente Secreto também representa a complexidade da estrutura social e da cultura brasileiras. Por meio do vilão principal, o Dr. Ghirotti (interpretado por Luciano Chirolli), orgulhoso de seu "sangue italiano", o filme expõe elementos importantes da ideologia da supremacia branca no Brasil.
Inclusive, as dinâmicas inter-raciais dentro das famílias brasileiras aparecem de forma muito realista. O tema permeia desde o delegado Euclides (interpretado por Robério Diógenes), que lida com dois filhos, um racializado e outro branco, até o protagonista, que procura documentos sobre sua mãe, conhecida como "índia" e apagada da história familiar. Esses momentos mostram como a raça e a hierarquia social atravessam a vida cotidiana.
Porém, assim como na vida real, os mocinhos não são apenas testemunhas da desigualdade, eles também fazem parte dos mecanismos que a reproduzem. Um exemplo é a carismática Dona Sebastiana (interpretada por Tânia Maria), que hospeda perseguidos de todo tipo em seu pequeno prédio. Entre os moradores de seu abrigo estão empregadas domésticas e um adolescente, negro e homossexual, o Clóvis (interpretado por Robson Andrade). Rejeitado pela própria família, o rapaz encontra ali refúgio e afeto, mas também uma relação marcada pela servidão. Os demais personagens encomendam a ele pequenas tarefas, como sair para comprar cigarros, sem remuneração ou relação formal de trabalho.
Uma ficção realista
Quando uma colega alemã me perguntou se a história do filme era real, respondi que provavelmente um dos únicos personagens históricos é a perna cabeluda. De fato, a imprensa de Pernambuco noticiou essa lenda urbana para preencher o vazio deixado por outras notícias que haviam sido censuradas pelo regime.
No entanto, todos esses elementos contribuem para que o filme funcione tão bem como ficção histórica. Não por reproduzir fatos específicos, mas por captar aspectos fundamentais das várias dimensões do Brasil de 1977 e de hoje.
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Good use of named academic sources and clear personal analysis, though lacks direct primary sources like filmmaker interviews.
Specific Findings from the Article (3)
"O cientista político Vitor Weffort explica como a perseguição à profissionais de classe média e alta fez com que a elite re-calculasse seu apoio à ditadura."
Named political scientist cited as expert source.
Expert source"Estes regimes foram caracterizados pelo acadêmico argentino Guillermo O'Donnell com o conceito "autoritarismo burocrático""
Named academic (Guillermo O'Donnell) and concept cited.
Expert source"a cientista política Nara Pavão mostra como a democracia, por si só, nem sempre é capaz de solucionar práticas de corrupção."
Named political scientist (Nara Pavão) and her research referenced.
Expert sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
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Presents the film's perspective and academic analysis consistently, with minimal explicit counterarguments.
Specific Findings from the Article (2)
"Porém, acredito que ele vai além."
Acknowledges other interpretations before presenting author's view.
Balance indicator"Porém, assim como na vida real, os mocinhos não são apenas testemunhas da desigualdade, eles também fazem parte dos mecanismos que a reproduzem."
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Balance indicatorContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
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"a complexa realidade brasileira de 1977"
Sets specific historical timeframe.
Background"ditadura militar brasileira (1964-1985)"
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Background"Esse período construiu instituições que, por um lado, possibilitaram a redemocratização e, por outro, mantiveram práticas repressivas herdadas do regime"
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Context indicator"Nos últimos anos, com a radicalização de setores da direita e a revalorização pública da ditadura, voltaram também as acusações contra acadêmicos e cientistas."
Connects historical analysis to contemporary context.
Context indicatorLanguage Neutrality
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"Esse é o sexto longa do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho"
Factual, descriptive language.
Neutral language"A trama começa no departamento de oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)"
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Neutral language"reconstrói de modo obsessivo o ano de 1977"
'Obsessivo' carries a slightly evaluative tone.
SensationalistTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
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Full author attribution, date, clear quote attribution, and personal perspective disclosure.
Specific Findings from the Article (2)
"Como cientista social e cinéfilo, me entretenho duplamente"
Author discloses personal perspective and expertise.
Quote attribution"respondi que provavelmente um dos únicos personagens históricos é a perna cabeluda."
Author attributes personal response/anecdote.
Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical inconsistencies detected; arguments build coherently from film analysis to broader social commentary.
Logic Issues Detected
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Contradiction (high)
Conflicting values for 'the': 7 vs 1964
"Heuristic: Values conflict between P3 and P4"
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Contradiction (high)
Conflicting values for 'the': 7 vs 1977
"Heuristic: Values conflict between P3 and P5"
Core Claims & Their Sources
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"The film 'O Agente Secreto' uses 1977 Brazil as a mirror for contemporary Brazil, exploring themes of authoritarianism, science, and social inequality."
Source: Author's analysis as a social scientist and cinephile, supported by references to academic concepts and scholars. Named secondary
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"The persecution of academics under the dictatorship contributed to the elite recalculating support for the regime, aiding its end."
Source: Citation of political scientist Vitor Weffort's explanation. Named secondary
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"The film portrays corruption linked to authoritarianism that parallels contemporary Brazil, as democracy alone doesn't always solve corruption."
Source: Reference to political scientist Nara Pavão's research from UFPE. Named secondary
Logic Model Inspector
Inconsistencies FoundExtracted Propositions (8)
-
P1
"'O Agente Secreto' is competing for Oscars in 2026 in four categories."
Factual -
P2
"The film is Kleber Mendonça Filho's sixth feature."
Factual -
P3
"The film is available on Netflix since March 7."
Factual In contradiction -
P4
"The Brazilian military dictatorship lasted from 1964-1985."
Factual In contradiction -
P5
"The film reconstructs the year 1977 with realistic detail."
Factual In contradiction -
P6
"Persecution of middle/upper-class professionals causes elite recalculated support for dictatorship → contributed to dictatorship's end."
Causal -
P7
"Authoritarian bureaucratic regimes causes based on coalition between businessmen, technocrats, and military."
Causal -
P8
"Recent right-wing radicalization and public revaluation of dictatorship causes returned accusations against academics and scientists."
Causal
Claim Relationships Graph
Detected Contradictions (2)
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: 'O Agente Secreto' is competing for Oscars in 2026 in four categories. P2 [factual]: The film is Kleber Mendonça Filho's sixth feature. P3 [factual]: The film is available on Netflix since March 7. P4 [factual]: The Brazilian military dictatorship lasted from 1964-1985. P5 [factual]: The film reconstructs the year 1977 with realistic detail. P6 [causal]: Persecution of middle/upper-class professionals causes elite recalculated support for dictatorship → contributed to dictatorship's end. P7 [causal]: Authoritarian bureaucratic regimes causes based on coalition between businessmen, technocrats, and military. P8 [causal]: Recent right-wing radicalization and public revaluation of dictatorship causes returned accusations against academics and scientists. === Constraints === P3 contradicts P4 Note: Conflicting values for 'the': 7 vs 1964 P3 contradicts P5 Note: Conflicting values for 'the': 7 vs 1977 === Causal Graph === persecution of middleupperclass professionals -> elite recalculated support for dictatorship contributed to dictatorships end authoritarian bureaucratic regimes -> based on coalition between businessmen technocrats and military recent rightwing radicalization and public revaluation of dictatorship -> returned accusations against academics and scientists === Detected Contradictions === UNSAT: P3 AND P4 Proof: Heuristic: Values conflict between P3 and P4 UNSAT: P3 AND P5 Proof: Heuristic: Values conflict between P3 and P5