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‘Adolescências plurais’: experiências diversas de transição - Nexo Jornal

nexojornal.com.br By Andréa M C Guerra 2026-03-13 588 words
Na contramão dessa experiência, entretanto, nossas pesquisas testemunharam, junto à população adolescente desvalida e em risco, que se envolve com atividades infratoras, um curto-circuito do próprio tempo de elaboração e de passagem da infância à adultez. Numa pressa, econômica – de sobrevivência – e pulsional – de realização –, que antecipa o aparecimento de comportamentos ditos adultos em corpos púberes, a adolescência como moratória – tempo de elaboração e transformação – é suprimida.

Assim, adolescentes infratores assumem as contas da casa e o comando de famílias que deveriam protegê-los. São, na sua maioria, identificados com o gênero masculino, negros e pobres. Defendendo a sobrevida de suas mães e irmãos, envolvem-se em atividades produtivas ilícitas para garantir o sustento de sua família de origem. Não é preciso lembrar, mas não custa, que a exploração do trabalho infanto-juvenil pelo tráfico de drogas é considerada pela Unicef uma das cinco piores formas globais de abuso. Nossas investigações acompanham os dados internacionais: as crianças pobres são iniciadas no trabalho doméstico em torno de cinco, seis anos de idade. Aos dez, já estão nas ruas trabalhando e, em torno dos quatorze, quinze anos, são cooptadas pela criminalidade.

Há, portanto, uma precocidade com relação à entrada na vida de responsabilidades do mundo adulto. Ao contrário do que comumente se observava no fenômeno da dilatação da adolescência nas classes mais altas, a vulnerabilidade econômica e social cria uma suspensão do campo de proteção, antecipando, pela exploração do trabalho infantil, responsabilidades que curto-circuitam o tempo de elaboração psíquica das mudanças corporais, hormonais, imagéticas, simbólicas e relacionais com as quais o púbere se defronta. Temos um curto-circuito, como cunhou a psicanalista brasileira Nádia Laguardia de Lima, e não uma dilatação desse tempo de moratória, exclusivo da adolescência rica, como já assinalava o psicanalista brasileiro Célio Garcia.

Nossas pesquisas, assim, concluíram que os jovens passam pela puberdade, física ou organicamente, mas não pela adolescência enquanto tempo simbólico de nova composição subjetiva, relacional e social. O que isso quer dizer? O termo "puberdade" designa um acontecimento no corpo que tem o efeito de um trauma, no sentido de um confronto com algo tão novo que escapa à significação e ao domínio intelectual, pois não existem palavras para definir o encontro com essa originalidade na satisfação prazerosa que o corpo púbere passa a portar. Assim, a puberdade poderia ser pensada como um encontro estrutural inevitável com a diferença no nível do prazer.

Já o termo "adolescência", como vimos, é teorizado como uma invenção social. E, como tal, reverbera de modos distintos em cada campo teórico, mas, sobretudo, em cada experiência cosmológica de mundo e em cada sujeito adolescente. Isso quando este não é simplesmente apagado, morto ou invalidado em sua vivência, como se não contasse na trama das vidas passíveis de reconhecimento e luto.

Nesse contingente não escrito ou até mesmo proscrito, as jovens mulheres, por seu turno, se defrontam com a entrada no mundo do trabalho ou com a maternidade, naturalizando e perpetuando uma condição de subalternidade ocidental, como problematizou Gayatri Spivak. Aliás, a própria divisão binária entre meninos e meninas já é herança de um modo patriarcal-colonial e naturalizado de organizar a sexualidade e o gênero, como propôs, dentre muitas feministas, Maria Lugones. Se não se sabe exatamente o que esperar da adolescência vulnerabilizada pelas condições materiais e discursivo-simbólicas, não podemos deixar de nos ocupar do seu futuro. São suas vidas apagadas na periferia global que figuram no avesso do espelho ocidental e constroem nosso porvir. Que mundo desejamos edificar?

Adolescências Plurais

Andréa M.C. Guerra Perspectiva 130 páginas

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