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O que viu a PF para prender vereadores por suposto elo com facção

opovo.com.br By Bianca Mota; Thays Maria Salles; Bianca-Mota--Thays-Maria-Salles 2026-03-13 1508 words
Agiota de facção financiava vereadores em troca de dinheiro e cargos, diz PF

Cinco vereadores de Morada Nova, município distante 116 quilômetros de Fortaleza, foram presos nesta quinta-feira, 12, no âmbito da Operação Traditori, que objetiva desarticular uma organização criminosa com atuação no Vale do Jaguaribe. Por determinação da 93ª Zona Eleitoral de Fortaleza, foram cumpridos 16 mandados de prisão preventiva, dentre os quais 5 são destinados a vereadores, além de 30 mandados de busca e apreensão.

A ação desta quinta cumpriu mandados em Fortaleza, Chorozinho, Morada Nova, Limoeiro do Norte, Pedra Branca (CE) e São Paulo (SP). A sede da Câmara de Morada Nova foi um dos locais onde foram cumpridos mandados de busca e apreensão. Com isso, o funcionamento do Legislativo municipal foi interrompido. O POVO tentou contato com a Casa parlamentar, mas até o fechamento desta matéria as ligações não foram atendidas, já o cancelamento das atividades foi divulgado nas redes sociais da Câmara.

Entre os presos nessa ofensiva, deflagrada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (Ficco/CE), estão o presidente da Câmara Municipal, Hilmar Sérgio (PT); a primeira secretária da Casa Legislativa, Gleide Rabelo (PT); e o vereador Régis Rumão (Progressistas).

Supervisor da Ficco/CE, o delegado da Polícia Federal Daniel Ramos explicou que os parlamentares envolvidos na investigação teriam recebido apoio financeiro da facção criminosa nas eleições de 2024, quando ainda eram candidatos, e, em troca, retribuído com nomeações em cargos públicos e outras vantagens.

"Esse fluxo financeiro: eles pedindo dinheiro para esse faccionado, para essa liderança que devolvia dinheiro e era retribuído com nomeações, também com dinheiro de volta. Enfim, são várias as movimentações que existiram com relação a isso", contou Ramos ao O POVO nesta quinta em entrevista na sede da PF, em Fortaleza.

Questionado se os nomeados fazem parte dos alvos da operação, o delegado informou que sim e que seriam duas pessoas, mas não as identificou. Ele também estimou que o fluxo financeiro nessa primeira fase passou de R$ 100 milhões, mas ressaltou que o montante ainda é analisado.

"Isso de toda a organização, de toda a representação em si. Não quer dizer que foram só a facção, só os alvos vereadores, não. Isso de toda a investigação, [na qual] nós identificamos esse fluxo financeiro. A ideia é justamente ver se existe parte lícita, se a maioria ou boa parte era ilícita mesmo. Agora, é a investigação que vai dizer", ponderou.

Documentos aos quais O POVO teve acesso ainda em dezembro de 2025 indicavam que, pelo menos, três então candidatos a vereador e um a prefeito teriam recebido valores que variavam entre R$ 100 e 375 mil. Na época, um homem foi preso e a extração dos dados dos aparelhos apreendidos mostrou que uma das formas utilizadas por ele para lavar o dinheiro era através de empréstimos mediante pagamento de juros ("agiotagem").

"Nós identificamos, de fato, um caminho do dinheiro que estava sendo remetido para esses candidatos a vereadores nas eleições de 2024. As investigações apresentaram o fluxo financeiro desse financiamento da facção criminosa direcionada a esses vereadores", narrou Ramos.

Além dos parlamentares presos, foi alvo da operação Marco Bica, que era diretor da Superintendência de Obras Hidráulicas do Ceará (Sohidra). Ele pediu afastamento do cargo após a ação policial.

A Operação Traditori busca interromper o fluxo financeiro do grupo e garantir o avanço das investigações, que apontam para a existência de um esquema de movimentação e ocultação de recursos de origem ilícita, supostamente ligado a uma facção criminosa.

Segundo a apuração, o dinheiro seria utilizado para financiar campanhas eleitorais, o que indicaria uma tentativa de infiltração do crime organizado na política local. De acordo com a PF, a organização criminosa é envolvida em lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, financiamento ilícito de campanhas e outros crimes eleitorais.

Daniel Ramos explica que "a ideia foi visualizar, a princípio, a lavagem de dinheiro dessa facção criminosa que atuava lá".

"Nós tínhamos algumas lideranças lá que foram a investigação aprofundada. Quando realizou-se esse aprofundamento financeiro, nós identificamos de fato esse elo através tanto do financeiro, mas [também de] interceptação telefônica, áudios gravados. Enfim, tudo isso. Esse elo, vamos dizer, promíscuo, entre esse componente importante, público e notório que é faccionado lá na região com os vereadores".

O caso, segundo Daniel Ramos, reforça uma preocupação das autoridades com a infiltração de facções criminosas no processo eleitoral. Ele ressalta que o tema já vem sendo monitorado por instituições eleitorais e policiais após alertas feitos durante o último pleito.

"Nas últimas eleições existia uma preocupação muito grande dessa influência das facções criminosas embrenharem nesse lado político, e nos últimos tempos nós visualizamos que isso realmente tem ocorrido", relatou o delegado da PF e supervisor da Ficco/CE.

O que dizem as defesas?

Por nota enviada ao O POVO, a defesa de Gleide Rabelo negou "veementemente" as acusações sobre a vereadora, "ressaltando que confia plenamente no devido processo legal e na correta apuração dos fatos pelas autoridades competentes". Informou também que ainda não teve "acesso integral" aos autos do procedimento.

"Assim que for garantido o acesso completo ao processo, a defesa adotará todas as medidas jurídicas cabíveis para esclarecer os fatos, demonstrar a verdade e resguardar os direitos fundamentais da Sra. Gleide Rabelo, especialmente aqueles assegurados pela Constituição Federal, como o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência, ressaltando que a vereadora estará a disposição das autoridades competentes e da justiça", escreveu.

Já a defesa de Hilmar Sérgio, feita pelo advogado Fernandes Neto, informou que o vereador "manifesta surpresa diante da decisão judicial e declara não ter qualquer vínculo com organizações criminosas".

"Servidor público e militante político há quase 30 anos, residente de Morada Nova durante toda a vida, espera ter acesso aos autos para comprovar sua inocência. Confia na Justiça divina e na Justiça dos Homens", complementa.

Marco Rico disse nas redes sociais disse estar "à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos". "Esclareço que as informações sobre a existência de mandado de prisão contra minha pessoa não são verdadeiras", alegou.

A reportagem não localizou a defesa de Régis Rumão.

O que é a Ficco/CE?

No Ceará, a Ficco reúne órgãos de segurança pública das esferas federal e estadual que atuam conjuntamente no enfrentamento a organizações criminosas.

A estrutura é formada pela Polícia Federal, Polícia Civil, Polícia Militar, Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização do Ceará, Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado e pela Perícia Forense.

A atuação integrada permite o compartilhamento de informações, recursos de inteligência e estratégias operacionais entre as instituições, com o objetivo de ampliar a capacidade de investigação e repressão a crimes como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outras atividades ligadas ao crime organizado.

"A ideia da Ficco é justamente esta: nós atacarmos, além de prender, o fluxo financeiro para que a gente possa asfixiar essas facções nessa área", contextualizou Ramos.

Leia notas na íntegra

Gleide Rabelo (PT)

"A defesa técnica da vereadora Gleide Rabelo, por intermédio de seu advogado regularmente constituído, João Batista, vem a público esclarecer que tomou conhecimento da prisão de sua cliente, a tendo acompanhado nos atos deste dia, junto à Polícia Federal.

Desde já, a defesa nega veementemente as acusações que vêm sendo imputadas à Vereadora Gleide Rabelo, ressaltando que confia plenamente no devido processo legal e na correta apuração dos fatos pelas autoridades competentes.

Cumpre registrar, entretanto, que até o presente momento a defesa não teve acesso integral aos autos do procedimento, circunstância que impede uma manifestação mais aprofundada acerca do conteúdo das acusações e dos elementos que teriam embasado a medida adotada.

Assim que for garantido o acesso completo ao processo, a defesa adotará todas as medidas jurídicas cabíveis para esclarecer os fatos, demonstrar a verdade e resguardar os direitos fundamentais da Sra. Gleide Rabelo, especialmente aqueles assegurados pela Constituição Federal, como o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência, ressaltando que a vereadora estará a disposição das autoridades competentes e da justiça.

Por fim, a defesa reitera sua confiança na Justiça e reforça que qualquer juízo definitivo somente pode ser realizado após a devida análise dos autos e o regular desenvolvimento do processo".

Marco Bica

"Fui surpreendido, na manhã de hoje, com a citação do meu nome em uma operação da Polícia. Esclareço que as informações sobre a existência de mandado de prisão contra minha pessoa não são verdadeiras. Confio plenamente na Justiça e no esclarecimento dos fatos e sei que a verdade prevalecerá.

Para preservar a Superintendência de Obras Hidráulicas do Ceará (Sohidra) e garantir a tranquilidade das investigações, tomei a decisão de me afastar do cargo de superintendente enquanto os fatos são apurados.

Reitero que estou à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos e confio que a Justiça será feita".

Hilmar Sérgio (PT)

"O Vereador Hilmar Sérgio manifesta surpresa diante da decisão judicial e declara não ter qualquer vínculo com organizações criminosas. Servidor público e militante político há quase 30 anos, residente de Morada Nova durante toda a vida, espera ter acesso aos autos para comprovar sua inocência. Confia na Justiça divina e na Justiça dos Homens. Fernandes Neto (advogado)".

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