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Influência de facções na política cresce no CE; veja lista

opovo.com.br By Marcelo Bloc; Marcelo-Bloc 2026-03-13 1612 words
Prisões em Morada Nova ampliam casos de influência de facções criminosa na política do Ceará

Nesta semana, uma operação da Polícia Federal (PF) prendeu cinco vereadores do município de Morada Nova, município distante 116 quilômetros de Fortaleza, no âmbito de operação para desarticular organização criminosa com atuação no Vale do Jaguaribe. Foram cumpridos 16 mandados de prisão preventiva. A operação ampliou o horizonte de casos em que se investiga envolvimento de facções criminosas na política do Ceará.

Em julho de 2025, O POVO+ publicou uma reportagem seriada tratando da relação entre facções e a política no Estado. Àquela altura, havia registros de pelo menos 12 municípios cearenses com suspeitas de atuação, com casos que incluíam investigações por coação a eleitores, financiamento ilícito de campanhas, extorsões a candidatos e ameaças a adversários políticos.

O mote era o preocupante salto na atuação de grupos criminosos nas eleições de 2024, em relação ao pleito de 2020. Além das 12 cidades cearenses, havia, à época, dois prefeitos presos. Braguinha (PSB), de Santa Quitéria, e Luan Dantas (PP), de Potiretama. Ambos os municípios tiveram eleições suplementares. Santa Quitéria foi às urnas em outubro de 2025 e elegeu Joel Barroso (PSB), filho de Braguinha.

Já em Potiretama, a Justiça retirou do caso a acusação de envolvimento do prefeito com facção. Cassado em outro caso, foi preciso realizar uma nova eleição, que ocorreu no último dia 1º de março e o prefeito interino Cleverlandio Bezerra, também do PP, foi derrotado pela petista Solange Campelo, que era vice de Luan Dantas na chapa cassada, mas rompeu com ele. À época da cassação, apenas Luan ficou inelegível.

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Demais municípios

Outros municípios cearenses presenciaram casos de investigações de facções envolvidas com política no Ceará em 2024.

Acarape:

Operação deflagrada na antivéspera da eleição (2024) visou desarticular supostos esquema de compra de votos, que contaria ainda com a participação de membros de uma facção criminosa. Foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão na cidade, sendo apreendidos valores em dinheiro vivo, além de diversos extratos de Pix e títulos eleitorais.

A ação dos suspeitos envolvia pagamento de valores em dinheiro a eleitores e retenção de documento eleitoral para beneficiar determinadas candidaturas. A operação foi uma parceria da PF com o Gaeco/MPE e a Polícia Civil do Ceará.

Canindé

Dias antes da eleição de outubro de 2024, o MPE realizou operação no município de Canindé contra uma vereadora investigada por compra de votos. Durante o cumprimento de mandados, foram apreendidos cerca de R$ 76 mil em espécie, uma máquina de contar dinheiro, um caderno com nomes de eleitores e valores associados, além de armas de fogo e munições.

Segundo o MP, a suspeita é de que a parlamentar vinha distribuindo recursos financeiros para angariar votos, prática enquadrada como captação ilícita de sufrágio. Os investigadores apuram ainda o possível envolvimento de uma facção criminosa com atuação na região, que teria prestado apoio logístico à campanha da vereadora e de outros aliados políticos locais.

Caucaia

Em maio de 2025, a Polícia Civil prendeu mais de 40 pessoas por envolvimento em ameaças e tentativas de interferência na eleição de Caucaia. Ao todo, 98 foram denunciadas. Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSPDS), o inquérito foi concluído e encaminhado à Justiça. A investigação apontou que um grupo criminoso atuava para intimidar eleitores e extorquir candidatos.

Quase todos os postulantes à Prefeitura — entre eles Waldemir Catanho (PT), Naumi Amorim (PSD) e Emília Pessoa (PSDB) — sofreram ameaças diretas.

Fortaleza

Na Capital, candidatos a vereador denunciaram ameaças do crime organizado. Márcio Cruz (PCdoB) chegou a registrar boletim de ocorrência após ser ameaçado por membros do Comando Vermelho, sendo forçado a mudar o local de seu comitê de campanha. Em setembro e outubro de 2024, dois casos distintos de compra de votos resultaram em prisões em flagrante. Os acusados tinham ligação com o Comando Vermelho.

Em dezembro de 2025, o suplente de vereador Júnior Aquino (Avante) foi alvo de operação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e, em janeiro de 2026, o TRE-CE manteve sua cassação por abuso de poder.

Iguatu

Logo após o pleito de 2024, foi deflagrada a Operação Integridade, com participação da Polícia Federal e da Polícia Civil do Ceará, com objetivo de investigar tentativas de manipulação eleitoral com o apoio de facções criminosas. Durante as investigações, uma advogada foi presa temporariamente, suspeita de intermediar valores entre uma campanha e um dos líderes do Comando Vermelho em Iguatu.

Posteriormente, a Justiça concedeu à investigada o direito de cumprir a prisão em regime domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica. Em abril de 2025, um suplente de vereador foi afastado da Câmara por suposto envolvimento com facção criminosa e abuso de poder econômico nas eleições de 2024.

Há ainda o caso do prefeito eleito, Roberto Filho (PSDB), e do vice, Antônio Ferreira de Souza, conhecido como Francisco das Frutas. Em julho de 2025, a Justiça Eleitoral decidiu cassá-los e declará-los inelegíveis por oito anos, por supostas práticas de abuso de poder econômico e captação ilícita de sufrágio. Segundo os autos, há indícios de que a chapa buscou "contratar os serviços" de uma organização criminosa para obter vantagens eleitorais. Em dezembro de 2025, a dupla escapou de cassação após empate inédito em julgamento no TRE-CE.

Graça

A Polícia Civil abriu investigação contra uma candidatura após denúncias de que grupos criminosos estariam proibindo a entrada de um candidato a prefeito em determinados locais da cidade, durante a eleição de outubro de 2024.

Jijoca de Jericoacoara

A Justiça chegou a suspender eventos de campanha de 2024 por dois dias após mensagens de Whatsapp e redes sociais tentarem coagir o então candidato Márcio Aldigueri (PSD), irmão do presidente da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), deputado estadual Romeu Aldigueri (PSB). Um homem foi preso.

Martinópole

Suspeita de envolvimento de facção criminosa durante o período eleitoral de 2024. No início de outubro, o Ministério Públicos Eleitoral (MPE) pediu à PF que investigasse um vereador por suspeita de integrar facção e de compra de votos.

A denúncia anônima que iniciou a investigação cita ainda uma mulher que teria relação com o parlamentar, sendo o casal líderes do tráfico na região e integrantes do Comando Vermelho. O nome do vereador não foi revelado.

Sobral

A candidata à Prefeitura e ex-governadora do Ceará, Izolda Cela (PSB), foi alvo de ameaças durante a campanha de 2024. Um homem com vínculos com facção foi preso em flagrante após postar vídeos intimidatórios contra ela. Em maio de 2025, o homem foi condenado a mais de oito anos de prisão.

Também houve denúncias de cobrança de até R$ 60 mil por parte de facções para permitir campanhas em bairros. Eventos diversos durante o período eleitoral foram interrompidos por queimas de fogos, usadas como forma de intimidação.

Tamboril

No início de outubro de 2024, a Secretaria de Segurança de Tamboril recebeu denúncias anônimas de que supostos integrantes de facção criminosa estariam abordando moradores de um distrito. Os dois acusados afirmavam integrar facção criminosa, questionavam sobre as preferências políticas dos eleitores na eleição para prefeito da cidade e apontavam estarem "fechados" com um candidato.

Surgimento de novos casos

Nesta semana, operação da Polícia Federal prendeu cinco vereadores do município de Morada Nova, incluindo o presidente da Câmara, que teriam campanhas financiadas por facção criminosa. Segundo a PF, um agiota de facção financiava vereadores em troca de dinheiro e cargos.

Em outubro de 2025, O POVO publicou reportagem explicando que a Prefeitura de Icó é acusada de ter contratos milionários com preso por chefiar facção.

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Autoridades admitem força das facções e pregam combate

Segundo o promotor de justiça Adriano Saraiva, nome do Ministério Público Estadual (MPCE) à frente das operações que combatem a ação das facções criminosas no Ceará, investigações em andamento apontam que mais de 50 políticos no Ceará estariam envolvidos com facções criminosas.

Em fevereiro de 2026, pouco após assumir o cargo, o Procurador Geral de Justiça do Ceará, Herbet Santos, afirmou que "não tem como negar" que há infiltração das organizações em algumas prefeituras cearenses, seja no Executivo municipal ou nas câmaras municipais.

Segundo ele, um dos focos do Ministério Público do Ceará (MPCE) seria atacar o "coração financeiro" das organizações criminosas: "No que diz respeito à asfixia, o que a gente chama de asfixia financeira. A gente ataca exatamente a área central da facção. É onde eles conseguem adquirir as drogas, onde conseguem adquirir mais do que drogas, os armamentos", frisou à época.

O governador Elmano de Freitas (PT) tem endurecido o discurso contra facções no Estado. Ele se disse ansioso pela aprovação de leis antifacção, que endureçam penas e mudem forma que a lei enquadra bandidos dessa estirpe. O petista já defendeu o artigo penal pelo qual a Polícia não precisa de denúncia da vítima para agir contra algum integrante de organização criminosa que ameace expulsar um comerciante ou residente da sua localização.

"Hoje, o cidadão que é de facção e ameaça uma pessoa para sair da casa, ou ameaça um comerciante, eu hoje tenho que fazer uma combinação do crime de ameaça, que só pode ir pra frente se a vítima denunciar. E evidentemente que muitas pessoas têm medo de denunciar porque têm medo de uma represália do crime organizado", disse o governador em novembro do ano passado

Ele defendeu que o faccionado não deve ser enquadrado como autor de simples ameaça. "O artigo penal diz que o sujeito que é de uma facção e ele ameaça alguém, a Polícia não precisa de que ninguém faça uma denúncia e ela pode imediatamente agir, ele ser preso. E a pena que está sendo apresentada é elevada, dificulta medida restritiva, favorece que nós tenhamos a condição de prender a pessoa e ele continuar preso".

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