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'É marmelada', grita público, em cinemas, após derrota de 'O Agente Secreto' no Oscar

www1.folha.uol.com.br By Bruno Ghetti 2026-03-15 1476 words
No segundo ano consecutivo em que o Brasil teve presença marcante no Oscar, o clima geral foi de decepção entre o público assistiu à cerimônia de entrega da estatueta no lugar mais propício possível —salas de cinema em várias cidades do país, como São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, onde "O Agente Secreto" foi rodado.

No Cinema São Luiz, na capital pernambucana, a plateia —tanto de dentro da sala, como a que acompanhava a transmissão na área externa— criticou, sob gritos de "é marmelada", a vitória do norueguês "Valor Sentimental" na categoria de melhor filme internacional, desbancando "O Agente Secreto".

O mesmo aconteceu nas salas do Estação NET Rio e do NET Botafogo, apesar do clima geral de festa. Os tradicionais pontos de encontro da cinefilia na zona sul carioca, deram um tempo na programação normal para exibir na tela a festa ao vivo, direto de Hollywood. O grupo estima que cerca de 2.000 pessoas participaram do evento.

Já em São Paulo, no Espaço Petrobras, no centro da cidade, o clima de Copa do Mundo, a apreensão e o ornar da bandeira brasileira tomavam conta da sala paulistana, atenta a cada palavra da transmissão. A perda da categoria, dada como a mais certa para o Brasil, surpreendeu os presentes.

No centro do Recife, não faltou frevo, apesar de o Brasil ter saído da cerimônia sem estatuetas. Em frente ao Cinema São Luiz, bonecos gigantes de Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura e Tânia Maria participaram da festa.

Após a derrota de Wagner Moura na categoria de melhor ator para Michael B. Jordan, de "Pecadores", parte do público foi embora. Também foi vaiado "Marty Supreme", estrelado por Timothée Chalamet, e aplaudido "Pecadores" em todos os momentos em que o filme não disputava com "O Agente Secreto".

Na rua da Aurora, em frente ao Cinema São Luiz, foi montada uma estrutura com telão, pernas cabeludas e tapete vermelho. Na sala de cinema estiveram os atores Kaiony Venâncio, Hermila Guedes e Albert Tenorio, entre outros participantes do filme.

Da mesma forma, em São Paulo, alguns espectadores celebraram a vitória de Jordan e vaiaram Leonardo DiCaprio, além de Chalamet, durante a apresentação dos indicados.

No início da noite, a expectativa para a premiação era perceptível logo na porta do Espaço Petrobras. Aqueles que conseguiram algum dos 614 ingressos para acessar uma das três salas do cinema no centro de São Paulo formavam fila para adentrar o espaço.

Adornado com referências ao brasileiro "O Agente Secreto", o cinema recebeu os espectadores com músicas de Gal Costa a Jorge Ben e vende a R$ 30 os drinks "Perna Cabeluda", que mistura rum, chá mate e limão, "Pitombeira", feito com cachaça, soda maracujá e limão, e o "Dona Sebastiana", com gim, soda morango ou acerola e limão. Um balão em formato de tubarão e sombrinhas de frevo decoram o local.

O clima de festa reverberou também na moda, uma vez que a equipe do local veste camisas retrô do "Trio de Ferro" —Sport, Náutico e Santa—, times de Recife, onde o filme é ambientado. Dentre os espectadores, há camisas da Seleção brasileira e ecobags em quantidade.

Por volta das 21h, a sala 1 entrou em polvorosa com a entrada de Wagner Moura como um dos apresentadores na categoria inédita de direção de elenco. Os gritos, porém, deram lugar ao silêncio com a perda da estatueta para "Uma Batalha Após a Outra".

Perto das 23h, o clima continuou a esfriar após os espectadores se decepcionarem com a derrota na categoria fotografia. Os gritos e palmas de empolgação e as vaias aos concorrentes precederam a decepção após o brasileiro Adolpho Veloso, de "Sonhos de Trem", perder para Autumn Durald, de "Pecadores".

A categoria que trouxe empolgação ao público, dentre as que o Brasil não está concorrendo, foi a de roteiro original. A vitória de "Pecadores", um dos favoritos da noite, gerou gritos e palmas da plateia do Espaço Petrobras, quase como se o vencedor Ryan Coogler tivesse dupla nacionalidade.

Chamaram atenção também os aplausos para o vencedor do documentário de curta-metragem "Quartos Vazios" após o discurso emocionado do diretor, que levou ao palco uma das mães de uma criança vítima de um tiroteio em escola nos Estados Unidos, temática do filme.

Nos cinemas cariocas, as entradas foram distribuídas gratuitamente, no esquema de senhas por ordem de chegada. O próprio saguão do cinema também contou com atividades abertas ao público. Ainda no meio da tarde, houve um concurso de sósias do ator Wagner Moura —no ano passado, o grupo Estação já havia promovido disputas semelhantes, mas para escolher a pessoa mais parecida com Selton Mello e a então indicada a melhor atriz, Fernanda Torres, ambos do elenco de "Ainda Estou Aqui".

O vencedor foi o especialista em sustentabilidade Vinicius Ferreira, 45, que se não é exatamente um "gêmeo" de Moura, poderia passar por um irmão —ou talvez primo— do ator.

"Eu vim para essa grande diversão, para brincar", diz Ferreira, que na época da série "Narcos", em 2015, se caracterizou como o personagem no Carnaval. "Ele participou de uns 30 blocos naquele ano", diz o pequeno Ernesto, o filho de Ferreira, que veio dar uma força para o pai.

"Minha mulher falou que ia ter essa exibição do Oscar e o concurso, então eu disse "Vou lá que é meu", diverte-se. "Ganhar essa estatueta é importante. Mas só de estarmos lá, já somos campeões".

Outro concorrente, o estudante de biblioteconomia Artur Correia, 19, também veio por conta do Carnaval, quando criou uma fantasia que homenageava "O. Agente Secreto". "Tinha até um tubarãozinho e uma perna. A fantasia fez sucesso, então eu vim disputar", diz.

Para ver a cerimônia, Artur apareceu vestido com a camiseta do Pitombeira, que era de longe a vestimenta mais comum entre os presentes no evento. "O filme tinha que ganhar em todas as categorias que concorre. É um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos."

Depois houve transmissão do tapete vermelho, em uma tela de LED inserida especialmente para a ocasião. Enquanto a cerimônia em si não começava, houve quiz interativo com distribuição de brindes e apostas em um bolão. Muito animado, o público reagia com um misto de descontração e torcida, sobretudo quando as indicações envolvendo brasileiros eram anunciadas.

O estudante de cinema Gabriel de Barros, 17, foi enrolado em uma bandeira do Brasil e levou até uma vuvuzela para torcer. "É empolgante ver a gente representado no Oscar", disse. "Como é a área em que a gente trabalha, eu e meus amigos viemos para apoiar esses profissionais."

Durante a transmissão, o público se mostrou por vezes bastante efusivo, sobretudo diante das menções a "Pecadores" e "Guerreiras do K-Pop". Mas houve também vaias, como quando o apresentador Conan O'Brien fez menção às falas recentes de Timothée Chalamet sobre o desinteresse do público diante de ópera e balé. "Fora, fora!", gritaram. O filme "Marty Supreme", aliás, era claramente o menos apreciado pelo público entre os concorrentes.

Mas o foco mesmo da plateia era sobre as indicações brasileiras. Quando Wagner Moura subiu ao palco como um dos apresentadores do prêmio de melhor direção de elenco, houve aplausos e gritaria.

Mas, quando o envelope foi aberto, e foi anunciado que o vencedor era "Uma Batalha Após a Outra", e não o trabalho do carioca Gabriel Domingues, por "O Agente Secreto", a decepção generalizada foi indisfarçável.

Na premiação de melhor direção de fotografia, em que Adolpho Veloso disputava pelo seu trabalho em "Sonhos de Trem", mais uma vez houve uma grande euforia. Mas, quando o brasileiro foi preterido e ficou sem o prêmio, o clima foi de lamentação.

Na categoria que poderia colocar o Brasil como campeão pelo segundo ano consecutivo, melhor filme internacional, foi provavelmente o momento de maior agitação. Bastou o anúncio do norueguês "Valor Sentimental" como vencedor para que fossem ouvidas uma profusão de lamúrias, vaias e as acusações de "marmelada".

Em um dos pontos altos da noite para os brasileiros, chegou a vez de Wagner Moura disputar na categoria de melhor ator, e a torcida soava claramente favorável a sua premiação, embora sem a mesma crença de que a estatueta de fato seria entregue para ele. Chamaram atenção as vaias a Timothée Chalamet quando ele foi anunciado um dos concorrentes.

E quando o ator Adrien Brody anunciou que o vencedor era Michael B. Jordan, o público mais uma vez mostrou decepção, ainda que Moura não fosse favorito ao prêmio.

No último prêmio da noite, melhor filme, grande parte do público apenas assistiu com atenção, sem grande expectativa. E mesmo com o anúncio final de que "Uma Batalha Após a Outra" tinha ganhado o Oscar, ainda assim as pessoas festejaram – nem tanto a premiação em si, mas o saldo geral para o Brasil. Afinal, pela segunda vez seguida uma presença brasileira tão impactante na mais popular das premiações de cinema é vista, em si, como motivo para orgulho e festa.

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