Afantasia: por que muitas pessoas não conseguem visualizar imagens mentais? | CNN Brasil
Pesquisando sobre o tema levou neurocientistas a abrir uma janela para a consciência humana
Em 1880, o polímata britânico Sir Francis Galton — primo de Charles Darwin — enviou questionários para centenas de cientistas, pedindo que fechassem os olhos, tentassem visualizar a mesa onde haviam tomado café da manhã naquele dia e descrevessem a cena em detalhes.
Para a surpresa do multiespecialista, muitos de seus colegas afirmaram que não viam absolutamente nada. Eles relataram que a ideia de "ver" algo na mente era impossível. Embora Galton tenha provado estatisticamente que essa ausência de imagens mentais existia, a ciência acabou negligenciando a descoberta por mais de um século.
O fenômeno só veio a despertar novamente a atenção clínica em 2010, quando o neurologista Adam Zeman atendeu um paciente registrado na literatura médica como "Paciente MX". Era um homem de 65 anos que havia perdido, de repente, a capacidade de mentalizar imagens após uma cirurgia cardíaca.
O divulgador científico Carl Zimmer escreveu uma reportagem sobre o artigo publicado por Zeman. Após a repercussão da matéria no The New York Times, o médico começou a receber dezenas de e-mails de pessoas do mundo todo dizendo: "Eu nasci exatamente como esse homem! Eu nunca vi imagens na mente, achei que fosse assim com todo mundo!".
Foi somente ao constatar que havia uma comunidade global imensa compartilhando essa condição invisível, que Zeman percebeu a necessidade de batizá-la. Em 2015, ele juntou os radicais gregos e criou o termo "afantasia", dando finalmente uma identidade e um conceito formal a essas pessoas.
Desafiando os limites da consciência visual
Durante décadas, neurocientistas acreditaram que a imaginação visual se resumia a uma forma de "visão ao contrário": em vez de começar de fora para dentro — luz refletindo no objeto, entrando pelos olhos, viajando até o córtex visual primário e subindo para o cérebro — o processo se daria de dentro para fora, com as áreas superiores enviando memórias de volta ao córtex visual.
Estudos mais recentes começaram a desafiar essa visão. Em pesquisas conduzidas a partir de 2023 pelo neurocientista Joel Pearson, da University of New South Wales, na Austrália, exames de neuroimagem mostraram que, embora pessoas com afantasia apresentem representações no córtex visual primário, elas são distintas das de quem imagina normalmente.
Comparando padrões durante percepção real e tentativas de imaginação, a equipe descobriu que, em pessoas com afantasia, um algoritmo de aprendizado de máquina não conseguiu decodificar o que estava sendo representado no córtex visual. "É como se o cérebro estivesse fazendo o cálculo, mas pulasse a etapa final de mostrar o resultado na tela", afirma Pearson em um comunicado.
Em outra linha de pesquisa, divulgada em 2024, a neurocientista Giulia Cabbai, da University College London, investigou se o cérebro poderia formar representações visuais automaticamente. Em seu estudo, participantes ouviram sons — como latidos — que normalmente evocam imagens mentais.
O grande achado de Cabbai foi a existência de representações visuais inconscientes no córtex visual de pessoas com afantasia — a imagem existe no cérebro, mas não chega à consciência.
Contudo, quando solicitados a imaginar ativamente, nenhuma representação se mostrou detectável, revelando que a afantasia compromete dois mecanismos distintos: o acesso consciente e a produção voluntária de imagens.
O que a afantasia revela sobre o consciente e o inconsciente
Um dos avanços mais importantes nessa área surgiu em 2025, quando o neurocientista Jianghao Liu, do Paris Brain Institute, utilizou ressonância magnética funcional de alta resolução para comparar pessoas com e sem afantasia durante tarefas de imaginação visual. Os resultados revelaram conectividade reduzida entre áreas visuais e regiões frontais.
Um ponto importante dessa rede é o chamado fusiform imagery node, uma área do córtex que foi identificada por se ativar consistentemente durante tarefas de imaginação visual em pessoas saudáveis. Ele não foi descoberto por anatomia, mas por neuroimagem funcional — por ser ativado de forma repetida em uma tarefa específica.
O que os estudos sugerem é que essa região atua como um hub obrigatório: mesmo quando lesões cerebrais dispersas rompem sua conexão com o restante da rede, a imaginação consciente se apaga, o que lhe confere um papel causal, não apenas correlacional.
Que 3% a 4% das pessoas no mundo não consigam formar imagens mentais transforma a afantasia em mais do que uma curiosidade neurológica: ela se torna uma ferramenta real para estudar a consciência humana. Nesse sentido, o fusiform imagery node aparece como parte de uma chave capaz de separar o consciente do inconsciente.
O fato de que representações visuais podem existir abaixo desse nó — inconscientes, detectáveis por algoritmo, mas não pela pessoa — sugere que ele não só processa imagens, mas participa ativamente do processo pelo qual uma representação se torna consciente. Se é um interruptor ou apenas um ponto onde todos os fios se cruzam permanece assunto obrigatório para futuras pesquisas.
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
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Specific Findings from the Article (5)
"o neurologista Adam Zeman"
Named expert, key researcher in the field.
Named source"o neurocientista Joel Pearson, da University of New South Wales, na Austrália"
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Named expert with institutional affiliation.
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Named expert with institutional affiliation.
Named source"O divulgador científico Carl Zimmer escreveu uma reportagem sobre o artigo publicado por Zeman."
Mentions a science communicator's reporting on the research.
Secondary sourcePerspective Balance
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The article presents a scientific consensus view on aphantasia but does not explore alternative theories or significant counterarguments within the field.
Specific Findings from the Article (2)
"Estudos mais recentes começaram a desafiar essa visão."
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Balance indicator"O fenômeno só veio a despertar novamente a atenção clínica em 2010"
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One sidedContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
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Specific Findings from the Article (3)
"Em 1880, o polímata britânico Sir Francis Galton — primo de Charles Darwin — enviou questionários para centenas de cientistas"
Provides historical context dating back to the 19th century.
Background"Que 3% a 4% das pessoas no mundo não consigam formar imagens mentais"
Provides a global prevalence statistic.
Statistic"o fusiform imagery node aparece como parte de uma chave capaz de separar o consciente do inconsciente."
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Context indicatorLanguage Neutrality
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Specific Findings from the Article (2)
"Pesquisando sobre o tema levou neurocientistas a abrir uma janela para a consciência humana"
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Specific Findings from the Article (1)
""É como se o cérebro estivesse fazendo o cálculo, mas pulasse a etapa final de mostrar o resultado na tela", afirma Pearson em um comunicado."
Quote is clearly attributed to expert Joel Pearson.
Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
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The article presents a logically consistent narrative, moving from historical discovery to modern research without contradictions.
Specific Findings from the Article (1)
"após uma cirurgia cardíaca."
Mentions a cardiac surgery as a preceding event for Patient MX's condition, but does not claim it as the definitive cause, avoiding an unsupported causal claim.
Unsupported causeCore Claims & Their Sources
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"Aphantasia is a neurological condition where people cannot form conscious mental images, affecting 3-4% of the population."
Source: Synthesis of research cited from neurologist Adam Zeman and prevalence statistic. Named secondary
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"Recent neuroscience research suggests aphantasia involves a disruption in connectivity between visual and frontal brain regions, particularly involving the 'fusiform imagery node'."
Source: Research from neurocientists Joel Pearson, Giulia Cabbai, and Jianghao Liu, as cited in the article. Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (6)
-
P1
"Sir Francis Galton conducted questionnaires on mental imagery in 1880."
Factual -
P2
"Neurologist Adam Zeman coined the term 'aphantasia' in 2015."
Factual -
P3
"Neuroimaging studies show distinct cortical representations in people with aphantasia."
Factual -
P4
"The fusiform imagery node is consistently activated during visual imagination tasks in people without aphantasia."
Factual -
P5
"Reduced connectivity between visual and frontal regions causes impaired conscious visual imagination (aphantasia)"
Causal -
P6
"The fusiform imagery node acts as a hub causes necessary for conscious visual imagery"
Causal
Claim Relationships Graph
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=== Propositions === P1 [factual]: Sir Francis Galton conducted questionnaires on mental imagery in 1880. P2 [factual]: Neurologist Adam Zeman coined the term 'aphantasia' in 2015. P3 [factual]: Neuroimaging studies show distinct cortical representations in people with aphantasia. P4 [factual]: The fusiform imagery node is consistently activated during visual imagination tasks in people without aphantasia. P5 [causal]: Reduced connectivity between visual and frontal regions causes impaired conscious visual imagination (aphantasia) P6 [causal]: The fusiform imagery node acts as a hub causes necessary for conscious visual imagery === Causal Graph === reduced connectivity between visual and frontal regions -> impaired conscious visual imagination aphantasia the fusiform imagery node acts as a hub -> necessary for conscious visual imagery
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.