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Sossego só depois: Como os 50+ planejam o futuro no trabalho

mais.opovo.com.br By Samuel Pimentel 2026-03-15 1863 words
Resumo

Economia prateada é o olhar do mercado para o consumo e necessidades do público que já passou dos 50 anos de idade.Atualmente, esse público movimenta R$ 1,8 trilhão em negócios no Brasil.Antes visto como público "premium" de alta escolaridade e renda, "lado B" mostra desigualdades quando analisados os 50+ das classes C & D.Aumento da expectativa de vida envolve mais anos dedicados ao trabalho, seja por prazer ou necessidades financeiras da família.

Atualmente, esse público movimenta R$ 1,8 trilhão em negócios no Brasil.

Antes visto como público "premium" de alta escolaridade e renda, "lado B" mostra desigualdades quando analisados os 50+ das classes C & D.

Aumento da expectativa de vida envolve mais anos dedicados ao trabalho, seja por prazer ou necessidades financeiras da família.

A economia prateada, que envolve o consumo do público 50+, movimento
u a bagatela de R$ 1,8 trilhão em negócios no Brasil, o equivalente a 24% de todo consumo privado do País.

A projeção é de que essa faixa etária represente 40% da população até 2044, o que per
mitirá com que sua participação no consumo seja ainda mais relevante, chegando a R$ 3,8 trilhões ou 35% do consumo domiciliar privado total do Brasil.

Os números são superlativos, mas há um processo de desigualdade de acesso envolvida: Os "jovens senhores" das classes C & D enfrentam desafios no descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar.

As informações fazem parte do estudo "Brasil Prateado", da data8. O "lado B" dessa geração prateada tem como perfil base as mulheres negras e trabalhadoras, que sustentam lares, cuidam de gerações, mas envelhecem com menos renda, saúde e proteção.

Conforme o estudo, 54,6% das pessoas 50+ de classe C/D são mulheres. Neste contexto, 43% dos 50+ afirmam que ajudam financeiramente filhos e netos.

Esperar pela aposentadoria? "Nem pensar". Para essa geração de 50+, somente a previdência pública não tem sido suficiente para dar conta das responsabilidades. Segundo os dados, apenas 33,8% têm no aposento a principal fonte de renda.

Quando o
termo "Silver Economy" foi popularizado nos Estados Unidos na década de 2000, o olhar que havia sobre esse público é de que ele seria altamente escolarizado, de altíssima renda e consumidores de produtos "premium". Adriana de Queiroz, sócia da data8 e coordenadora do estudo, diz que não é bem assim.

"Esse lad
o B da velhice tem um rosto feminino, negro e trabalhador, que ajuda financeiramente os filhos e netos e são sustento para toda essa economia. Esse brasileiro não se aposenta, ele se reinventa", aponta.

Neste contexto, empreender se torna solução. O dilema aqui deixa de ser a crise da idade, de se sentir útil, mas a necessidade. "Esse 50+ não empreende por causa de propósito, mas por precisar colocar dinheiro em casa. É o seu sustento, dos filhos e netos, uma responsabilidade muito grande".

Empreender na "melhor idade" tem se tornado tendência no Brasil. Segundo levantamento do Serviço Brasileiro e Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2012 e 2024, o número de donos de pequenos negócios com 60 anos ou mais cresceu 53%.

A pesquisa destaca também que esse empreendedorismo sênior se destaca por esse grupo estar mais escolarizado e diverso, com maior participação de mulheres e negros. Ao todo, são 4,3 milhões de sêniores donos de negócios, um recorde.

Uma desses empreendedores é Bete Carneiro, que no auge de seus 54 anos é proprietária da Bete Criações (@betecriacoes1 no Instagram), comércio de artigos para presentes, como cestas personalizadas artesanais, produzidas por ela mesma.

Ela conta que a loja é além de um trabalho, mas sua identidade. "Modéstia à parte, as cestas são bem bonitas, bem sortidas e sempre vende bem", diz orgulhosa do trabalho.

Bete faz parte dos 41% dos 50+ que vivem do trabalho autônomo para obter sua renda. Hoje, a empreendedora mora numa casa com a filha, o genro e dois netos, e diz que nem pensa em se aposentar.

Sobre futuro, não tem planos muito bem definidos. O sonho é acumular um pé-de-meia e diminuir o ritmo de trabalho, pois reconhece que, além de prazer, o trabalho é muito importante na composição da renda familiar junto da filha e do genro. Enquanto isso, já planeja as vendas para o Dia das Mães e Dia dos Namorados já celebrando os resultados do Dia da Mulher.

"O fim de ano foi razoável, já os meses de janeiro e fevereiro foram mais apertados. Mas, graças a Deus, o começo de março já está sendo bom. Eu produzi bastante cesta para o Dia da Mulher", ressalta.

Além de creche para filhos, empresas vão oferecer benefícios aos pais dos colaboradores

Na medida em que a pirâmide etária do Brasil "envelhecer", o mercado de trabalho deve passar por transformações. A avaliação é de Adriana Queiroz, pesquisadora na temática da Longevidade e comportamento da população 50 .

Para atrair talentos, as empresas se diferenciarão por meio dos benefícios ofertados. Se no atual contexto são bastante valorizados os auxílios para custos com creche, escola e afastamentos prolongados para pais acompanharem os filhos, num futuro próximo o cenário deve ser alterado.

Adriana avalia que os benefícios devem focar no bem-estar dos pais dos colaboradores. Isso ocorrerá em meio a uma sociedade que terá menos filhos, passará mais tempo na casa dos pais e viverá mais.

Assim, benefícios que envolvam cuidados diários, acompanhamentos e até cuidados paliativos dentro de um plano de saúde que tenham os pais dos trabalhadores devem ser vistos como diferenciais.

"Precisamos olhar primeiramente para os trabalhadores 50 , como incluí-los e como desenvolver uma cultura multigeracional. E, em contrapartida, se teremos 40% da população com 50 anos ou mais, precisamos olhar também para como apoiar todos os colaboradores, inclusive os que deixam os pais em casa para trabalhar", pontua.

A relação entre saúde e trabalho já possui gargalos atuais importantes. O estudo "Brasil Prateado", da data8, aponta que, para a maioria dos 50 brasileiros, que pertencem às classes C e D, a saúde preventiva fica em segundo plano, principalmente por motivos financeiros.

O equivalente a 42,5% dos 50 neste recorte de renda nunca tiveram planos de saúde. A renda média mensal dos 50 das classes C e D chega a R$ 1.600, enquanto a das classes A e B alcança R$ 7.800. Ou seja, a maior parte dos trabalhadores chegam próximo do fim da carreira no mercado de trabalho sem segurança financeira.

Por outro lado, dados do IBGE apontam que essa população nunca esteve tão presente no mercado de trabalho, com 1 em
cada 4 pessoas idosas (60 ) estando ocupada em 2024.

O desafio fica por conta da alta informalidade, com 46,5% atuando sem vínculo formal. A baixa remuneração também é um problema, especialmente no Ceará, em que o rendimento mensal médio dos idosos é de R$ 2.053, o segundo menor valor entre os estados, somente à frente do Maranhão.

Empreendedor 50 precisa de organização e formação para não desperdiçar as reservas de uma vida

O avanço do empreendedorismo no público 50 requer um planejamento para que as economias de uma vida inteira não sejam perdidas em caso de fracasso do projeto.

A avaliação é da economista e colunista do O POVO , Desirée Mota, que lembra que cerca de 60% das empresas no Brasil fecham após cinco anos de atividade, de acordo com o IBGE.

Por isso, defende que os 50 que estão saindo do mercado de trabalho, seja por aposentadoria ou mesmo para realizar o sonho de empreender, busquem o auxílio necessário para ter o resultado sonhado e impedir que a idealização se torne um pesadelo.

Um plano de negócios bem definido, alguma experiência no ramo que pretende seguir e muita parcimônia na hora de alocar os recursos que possui são parte da receita para o sucesso, destaca a economista.

Desirée destaca que esse movimento é natural para o atual contexto de sociedade que estamos vivendo e será cada vez mais comum ver negócios liderados por sêniores, com destaque especial para as mulheres.

"Eu observo que as mulheres se preocupam com a estabilidade financeira logo no primeiro momento, na sua juventude, vão galgando na carreira, mas vai ter o dia de parar de trabalhar e se aposentar".

E complementa: "A aposentadoria não precisa ser um fim, ela é um meio, eu diria. As pessoas vão para uma transição de carreira dentro de uma perspectiva mais colaborativa, também visando uma causa social, de impacto para aquele novo negócio".

Corre, nada, dança e viaja: O vigor de quem completou 60 anos e nem pensa em aposentadoria

Chegar aos 60 anos no auge da vida profissional e da pessoal é um privilégio para poucos. E a secret
ária executiva Morgana Bezerra tem o prazer de dizer que essa é a sua realidade.

Feliz no trabalho que exerce há 30 anos, ela nem pensa em aposentadoria. Nos horários livres, orgulha-se da disposição para correr, nadar, dançar e viajar. No meio de tudo isso, vai cultivando novas amizades e colecionando memórias com os netos.

"Eu trabalho na Unimed Fortaleza há 30 anos. Entrei como digitadora e hoje sou secretária executiva da Presidência. Então, eu considero que cresci profissionalmente aqui e agora não considero que vir trabalhar todo dia como um peso, muito pelo contrário, o meu trabalho eu considero até um hobby", aponta.

Cargo de confiança, Morgana é responsável pelo comitê eleitoral que a cada quatro anos define novas diretorias para a organização.

Amante das corridas, diz que já viajou para diversas cidades do Brasil para participar de competições. Ama esportes e confessa que a única coisa que a impede de ser uma triatleta é que ainda possui certo medo de pedalar uma bicicleta nas ruas.

Para chegar aos 60 anos tão bem, diz que se preparou psicologicamente e também financeiramente. Hoje, Morgana mora sozinha e é assídua frequentadora de forrós e pagodes por conta do amor pela dança.

Na saúde, diz estar perfeita, nunca tendo precisado de reposição hormonal e mantendo idas periódicas ao nutricionista, endocrinologista, ginecologista e psicólogo.

Na relação com os netos, de 10 e 12 anos, diz que se tornou a "avó descolada", que os acompanha em jogos de futebol e que eles dizem que ela seria a cantora caso montassem uma banda.

"Um dia minha filha perguntou o que meu neto lembrava da comida da avó. Ele disse que não, que a avó pedia no iFood", conta bem humorada ao se descrever como artista da própria vida.

Brasil é protagonista no processo de envelhecimento da população

Até 2044, a faixa etária 50+ representará 40% da população total do Brasil;

Atualmente, cerca de 59 milhões de brasileiros são 50+, o equivalente a 27% da população;

A França demorou 120 anos para sair de 10% para 20% da população com mais de 65 anos. No Brasil, vamos chegar a esse número em 20 anos;

Até 2050, a cada 10 latino-a
mericanos, 3 terão mais de 60 anos;

A população 50+ cresce 3% ao ano no mundo, chegando a quase 2 bilhões de pessoas;

A população 50+ movimenta um mercado consumidor de US$ 22 trilhões no mundo;

No Brasil, a economia prateada representou R$ 1,8 trilhão do consumo privado total.Fonte: ONU, 2024/ BID, 2023/ UN World Population Prospects 2017/ Oxford Economics

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