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Ensino superior: escola pública da Capital celebra 68 aprovações

opovo.com.br By Mateus Brisa; Mateus-Brisa 2026-03-15 1457 words
Escola pública de Fortaleza celebra 68 aprovações no ensino superior em 2026

Resumo

Estudantes e gestão destacam a importância de políticas como a Lei de Cotas e o Passe Livre para garantir o ingresso e a permanência no ensino superior.

Relatos de alunos como José Daniel, aprovado na UFC e na Uece, e Clarisse Mikaele, aprovada na Uece e no IFCE, ilustram o esforço de conciliar o estágio técnico com a preparação para o vestibular.

O resultado é atribuído a um trabalho conjunto entre famílias, professores e Estado, focado em criar um ambiente acolhedor e de incentivo à capacidade estudantil.

Quando o assunto é educação, "acreditar" vai além do verbo: é palavra de ordem. É o que acreditam concludentes e representantes da Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Darcy Ribeiro, no bairro Conjunto Esperança, em Fortaleza, que celebrou neste sábado, 14, as 68 aprovações em Instituições do Ensino Superior (IES) no ciclo 2025–2026.

A escola funciona em tempo integral e fornece ao corpo discente, ao longo do Ensino Médio, acompanhamento e preparação para o ingresso na universidade. No processo, políticas públicas federais e estaduais colaboram para a permanência e o incentivo.

Segundo a diretora da escola, Maria Queiroz, os estudantes são supervisionados por representantes da Secretaria da Educação do Ceará (Seduc), além dos docentes, com visitas rotineiras e diagnóstico de deficiências. "A gente senta, analisa os aspectos e elabora estratégias", explica.

Entre as estratégias estão laboratórios, clubes de leitura e momentos de descanso na grade para outras atividades. "Além disso, a grande questão é abraçar as políticas públicas, acreditando que elas têm um propósito".

"A palavra maior é acreditar. Quando acreditamos, caminhamos juntos", reflete. "E não é uma coisa extraordinária, é uma coisa do dia a dia. Acreditar no aluno e fazê-lo acreditar ser possível. Esse é o desafio".

Maria enfatiza que, neste ano, a escola conquistou 15 aprovações no vestibular da Universidade Estadual do Ceará (Uece); no ciclo anterior, foram apenas três. Ao todo, foram 180 aprovações em três anos em diferentes IES. Confira os infográficos a seguir.

Um dos estudantes aprovados na Uece é José Daniel, de 18 anos. Ele passou em Medicina Veterinária na instituição estadual e também em Engenharia de Alimentos na Universidade Federal do Ceará (UFC). O estudante lembra que a caminhada até aqui "foi árdua, mas muito boa".

"Sempre quis ser médico veterinário. Então, quando entrei na Darcy Ribeiro, escolhi o curso de Agroindústria, por ser o que mais se aproximava", conta. "Com o decorrer do tempo, me desenvolvi. Quando chegamos ao 3º ano, recebemos muito apoio. A escola me deu muita certeza".

Mas, foi também no último ano de Ensino Médio que Daniel mais "pensou em desistir", lembra o jovem, "porque é cansativo", visto que é no 3º ano que os alunos são encaminhados para o mercado de trabalho.

"É quando temos estágio. Eu acordava às 4h50 da manhã para trabalhar. Então, foi muito cansativo estudar à tarde depois de meio dia de trabalho."

"No meu último dia de estágio, minha coordenadora, a Yara, foi me visitar e, quando estávamos voltando, passamos por dentro do campus da Uece, para cortar caminho. E eu nunca tinha entrado lá, foi a primeira vez. A gente passou pelo hospital universitário e a Yara falou assim: 'ó, Daniel, um dia tu vai estagiar aí'. E eu respondi: 'Deus lhe abençoe'. E, de fato, eu passei"

José Daniel, 18, estudante aprovado na Uece e na UFC

Daniel, que é morador do bairro Novo Mondubim, "não imaginava" que obteria a aprovação na Uece, porque seu foco era a UFC. "Eu achava que não conseguiria passar", justifica. "A prova é muito focada e específica. Quando eu vi meu nome da lista de aprovados, pensei: 'meu Deus do céu'".

O estudante concorda com a diretora da escola quanto à importância das políticas públicas na trajetória estudantil, citando a Lei de Cotas. "Ela garante e muito o nosso acesso. É histórica. Eu passei, inclusive, pela cota de pardos".

"Ver que hoje em dia a gente tem essa garantia, digamos assim, de que vão ter negros, pobres e PCDs na universidade… É maravilhoso saber disso".

Para o futuro, José Daniel espera "fazer a diferença", porque, em sua visão, há poucos profissionais de Medicina Veterinária que atendem emergências no interior do Ceará. "Não como tem na Grande Fortaleza", pontua.

Assim, tutores de animais domésticos "ficam de mãos atadas". Apaixonado pelos animais desde pequeno, o jovem "era daqueles que queriam trazer todo tipo de bicho para dentro de casa". Hoje, ele conta cuidar de galinhas e de um hamster. "Cachorro e gato não pode, meu pai não deixa", brinca.

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'Tem que persistir'

Como toda escola profissionalizante, a grade da EEEP Darcy Ribeiro alia a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a aprendizados relativos a cursos alçados no mercado de trabalho. A escola tem quatro turmas de 3º ano, uma para cada curso: Construção Civil, Agroindústria, Nutrição e Saneamento.

São atendidos estudantes de Alto Alegre, Bom Jardim, Conjunto Esperança, Siqueira, outros bairros da região e até de Caucaia, na Região Metropolitana (RMF), a partir de seleção no início do Ensino Médio.

O eixo profissional da instituição "tem um peso", aponta a diretora Maria Queiroz, "porque os estudantes têm um norte do curso superior. Muitos alunos de Nutrição em universidades trabalharam na área a partir daqui".

"E muitos também não querem", complementa. "Ano passado, teve um aluno que era do âmbito de Construção Civil e acabou escolhendo cursar Psicologia. Serve para se identificar ou não se identificar, também".

A estudante Clarisse Mikaele, 18, é reflexo desse complemento profissional. Sua trajetória em Agrimensura, curso agora extinto na escola, será continuada no Ensino Superior. Ela passou em Ciências Contábeis na Uece e Estradas no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).

"Já estou inserida no mercado de trabalho, então posso dar continuidade", argumenta. "Quero me encaminhar bem profissionalmente, porque essa aprovação é só o começo. No futuro, quero fazer Engenharia Civil também. Estudo é uma grande oportunidade, abre portas para a gente".

Pelo valor dado à educação, a primeira reação de Clarisse, ao saber de sua aprovação, "foi de felicidade" e "ligar logo para minha mãe". Entre lágrimas, a jovem relata o "sentimento de gratidão" pelo apoio e incentivo recebidos, "porque a gente cresce numa perspectiva diferente".

"Na minha família, por exemplo, ninguém tem Ensino Superior. E a gente consegue. Isso é muito legal. É chocante quando você vê pessoas que não têm essa perspectiva, onde a gente vive. Aqui na escola, os professores falavam muito que a gente tem que ocupar esses espaços, porque são para a gente".

Por isso, mesmo tendo se despedido da rotina escolar há pouco tempo, Clarisse pontua seu carinho "muito grande" pela instituição, pois "foi um lugar que realmente me acolheu e esteve comigo no processo".

"Às vezes, a gente sente que tem lugares mais confortáveis para a gente. É muito mais fácil não correr atrás do seu sonho. Mas a gente não pode perder as esperanças, parar de buscar o que a gente merece. Digo para as pessoas não desistirem, mesmo quando a gente sente que não vai dar certo, que não somos capazes, ou que está muito difícil. Tem que persistir, sabe?"

Clarisse Mikaele, 18, estudante aprovada na Uece e no IFCE

Histórias como as de José Daniel e Clarisse Mikaele refletem o "trabalho em equipe, coletivo" que define o ensino público, segundo Maria Queiroz. "É tudo conjunto. São as famílias, a Seduc, as políticas públicas federais, os professores. Muitas pessoas acreditando. É um trabalho de mutia responsabilidade, mas é maravilhoso".

Para que o "conjunto" funcione, acrescenta ela, é preciso integração. "Se a cozinha está funcionando bem, se a limpeza dos banheiros está boa, se os alunos têm papel toalha no banheiro... tudo isso gera autoestima. Por isso falamos em ambiente acolhedor. Buscamos sempre pensar nesse ponto".

A ideia é reforçada por Vitória Maria Cunha, coordenadora da Superintendência das Escolas Estaduais de Fortaleza (Sefor) III, encarregada pela EEEP Darcy Ribeiro. Na visão dela, "o aluno precisa se sentir parte da comunidade".

"O Ceará é referência na educação e há um conjunto de figuras que tem dialogado. E todos são importantes. A integração com a família, os funcionários, isso fortalece muito. Nos faz avançar", analisa ela.

Neste cenário, a política pública se faz "fundamental", diz Vitória. "Para que o aluno tenha acesso à escola, o Passe Livre importa. A segurança alimentar dá a ele a condição de permanecer. As cotas dão a condição para ingressar na universidade. São várias políticas que levam os alunos a acreditar no sonho".

"Não é só meritocracia. Ele precisa de todo esse caminhar.
Não é nada isolado, é coletivo. Quando esses jovens têm apoio, eles têm condição de acreditar que podem ter um projeto grande de vida", conclui a profissional.

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