Finança e capital – CartaCapital
Finança e capital
Na incessante busca de dinheiro, o capitalismo excita esperanças de enriquecimento e solapa as realidades da "economia real"
Reconhecido pelos senhores dos mercados depois da crise financeira de 2008, o economista keynesiano Hyman Minsky, falecido em 1996, escreveu, em 1992, um artigo intitulado "Schumpeter and Finance". O artigo narra a temporada de Minsky em Harvard na companhia de Paolo Sylos-Labini, então jovem economista italiano, mais tarde referência no mundo acadêmico ao escrever o clássico Oligopólio e Progresso Técnico.
Os dois chegaram em Harvard para a temporada 1948–1949. Labini aportou em Harvard depois de algum tempo em Chicago. "Como completei minha graduação em Chicago, Labini e eu compartilhamos nossas opiniões sobre Chicago e Harvard em animada discussão." Minsky graduou-se em Matemática em 1941. Do mestrado (1947) ao Ph.D. (1954), foi supervisionado por Schumpeter, Wassily Leontief e Alvin Hansen. Schumpeter morreu em janeiro de 1950.
Os alunos da pós-graduação de Harvard, em sua maioria, desdenharam as palestras de Schumpeter. Consideravam Schumpeter ultrapassado. Juntar-se a ele no estudo de economia seria considerado diletantismo. Na era da formalização matemática, o modelo de Schumpeter não era tratável.
A visão de Schumpeter concebe as economias capitalistas como sistemas em evolução, sistemas que existem em seu movimento histórico em resposta a fatores endógenos. As sociedades são bestas evolutivas que não podem ser congeladas no tempo e reduzidas a fórmulas matemáticas estáticas. "Nenhuma doutrina, nenhuma visão que reduza a economia ao estudo da sustentação de equilíbrio pode ter uma relevância duradoura." Schumpeter lançou uma mensagem: "A história não leva ao fim da história".
Na Teoria do Desenvolvimento Econômico, Schumpeter chamou o banqueiro/financiador de ephor das economias de mercado. O ephor era um magistrado de Esparta que vigiava as atitudes e as decisões dos reis. Em Schumpeter é a estrutura bancária de uma economia capitalista que controla e delineia o que pode ser financiado, e somente o que é financiado entra no reino do possível. Em nenhuma instância da evolução desse organismo complexo a mudança e o empreendedorismo são mais evidentes do que nos bancos e nas finanças.
Mas atenção, crentes nos mercados eficientes, em um sistema evolutivo o poder e a eficácia do ephor são endogenamente determinados. É indispensável perscrutar como a busca do lucro por empresários, banqueiros e gestores de portfólios promove a evolução das estruturas financeiras.
Joseph Schumpeter chamou a teoria que estuda a engrenagem financeira do capitalismo de Teoria Creditícia da Moeda e não Teoria Monetária do Crédito. Não se trata de uma troca de palavras, mas de uma transposição semântica. A expressão Creditícia da Moeda pretende subordinar a circulação monetária às relações credor-devedor, o que atribui ao portador dos títulos de dívida o direito de "apropriação" e, no caso de inadimplemento, de "expropriação" dos fluxos de rendimentos futuros ou do valor do estoque de capital existente ou em formação.
Para Schumpeter, assim como para Keynes e Karl Marx, a economia em que vivemos ou tentamos sobreviver não é uma economia simples de intercâmbio de mercadorias. É uma economia mercantil, monetária e capitalista. Nela as decisões de produção envolvem inexoravelmente a antecipação de dinheiro agora para receber mais depois.
A mobilização de recursos reais, bens de capital, terra e trabalhadores depende de adiantamento de liquidez e assunção de dívidas. Para que o crescimento seja possível, disse Schumpeter, o estoque de crédito deve crescer além do requerido para a operação corrente da economia capitalista.
Tentaram, sem sucesso, conter o espírito dinheirista e liberar a boa alma do dinheiro circulante
Tentaram, sem sucesso, conter o espírito dinheirista e liberar a boa alma do dinheiro circulante
O economista italiano Riccardo Bellofiore estabeleceu uma instigante distinção entre Dinheiro e Moeda. Dinheiro, diz ele, é a forma geral da riqueza, poder de adquirir os elementos indispensáveis à produção de mercadorias: trabalhadores assalariados, equipamentos e materiais. No capitalismo, o Dinheiro, uma vez atirado à circulação por quem dispõe de patrimônio rentável para acessar o crédito, cria a Moeda, o fluxo monetário que paga salários, fornecedores e credores.
Sem a passagem da Potência ao Ato, diria Aristóteles, ou seja, sem a precipitação do Dinheiro no mercado com o propósito de gerar mais Dinheiro, a Moeda não gira e a economia patina. Se patina, as mercadorias não circulam, os ativos reais e financeiros avaliados "dinheiristicamente" nos balanços de bancos, empresas e famílias padecem o risco de "perder valor", porque os mercados exigem sua "marcação em Dinheiro". O Dinheiro de Crédito, antes riqueza potencial, circula como Moeda e reaparece nos balanços como Dinheiro-Riqueza realizado, mensurado e escriturado.
O grande economista austríaco antecipou as peripécias fáusticas dos que se entregam ao Demônio Dinheirista. Schumpeter compreendeu que o Demônio invadiu a carcaça de Fausto com dois Ânimos: o Espírito inquieto do mercado de capitais para ações, títulos, hipotecas, imóveis e terrenos e a boa Alma do 'Dinheiro circulante' no setor de mercadorias, emprego e renda. Seguiu Marx, que, no Capítulo 30 do III volume de O Capital intitulado "Capital-monetário e capital real", faz uma distinção entre o 1) "o crédito, cujo volume aumenta com o crescente valor da produção", e 2) "a infinitude do capital monetário – um fenômeno que ocorre ao lado da produção industrial". Da mesma forma, Keynes escreveu sobre os desencontros entre o "Dinheiro na circulação financeira" e o "Dinheiro na circulação industrial".
A dita "financeirização" não é uma deformação do capitalismo, mas um "aperfeiçoamento" de sua natureza. Na incessante busca da "perfeição", ou seja, na busca de dinheiro a partir do dinheiro, o capitalismo excita esperanças de enriquecimento e solapa as ilusórias realidades da "economia real".
O mundo das finanças viveu uma relativa calmaria nas três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Há quem sustente que a escassez de episódios críticos deve ser atribuída, em boa medida, às políticas de "repressão financeira". Nascidos da Grande Depressão, esses controles impuseram a separação entre os bancos comerciais e os demais intermediários financeiros, direcionamento do crédito, tetos para as taxas de juro e restrições ao livre movimento de capitais entre as praças de negócios de moedas distintas. Tentaram disciplinar o Espírito Dinheirista para dar curso à Boa Alma Moedeira. O Espírito escapou. •
Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título 'Finança e capital'
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Relies on historical economic texts and theorists as secondary/tertiary sources; no primary sources or contemporary named experts interviewed.
Specific Findings from the Article (3)
"Reconhecido pelos senhores dos mercados depois da crise financeira de 2008, o economista keynesiano Hyman Minsky"
Cites a historical economist's work as a source.
Secondary source"Joseph Schumpeter chamou a teoria que estuda a engrenagem financeira do capitalismo de Teoria Creditícia da Moeda"
References economic theory from a historical figure.
Secondary source"O economista italiano Riccardo Bellofiore estabeleceu uma instigante distinção entre Dinheiro e Moeda."
Cites a contemporary economist's conceptual framework.
Secondary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
Presents a single, critical perspective on financialization and capitalism without exploring counterarguments.
Specific Findings from the Article (2)
"Na incessante busca de dinheiro, o capitalismo excita esperanças de enriquecimento e solapa as realidades da "economia real""
Article frames capitalism negatively without presenting opposing views.
One sided"ção" não é uma deformação do capitalismo, mas um "aperfeiçoamento" de sua natureza. Na incessante busca da "perfe"
Presents financialization as an inherent, negative trait without alternative perspectives.
One sidedContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides substantial historical and theoretical context, referencing multiple economists and concepts.
Specific Findings from the Article (3)
"Os dois chegaram em Harvard para a temporada 1948–1949."
Provides historical background on economists' academic timelines.
Background"O mundo das finanças viveu uma relativa calmaria nas três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial."
Offers historical context about financial periods.
Context indicator"Na Teoria do Desenvolvimento Econômico, Schumpeter chamou o banqueiro/financiador de ephor das economias de mercado."
Explains a theoretical concept with historical reference.
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Uses some loaded and metaphorical language, but primarily within an analytical, academic tone.
Specific Findings from the Article (3)
"cimento e solapa as ilusórias realidades da "economia real""
Uses negatively loaded language ('solapa' - undermines) and dismissive quotes.
Sensationalist"O grande economista austríaco antecipou as peripécias fáusticas dos que se entregam ao Demônio Dinheirista."
Employs dramatic, metaphorical language ('Demônio Dinheirista' - Money Devil).
Sensationalist"Schumpeter compreendeu que o Demônio invadiu a carcaça de Fausto com dois Ânimos"
Continues metaphorical analysis but in a descriptive, theoretical context.
Neutral languageTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Clear author attribution, publication date, and source citations for quotes and concepts.
Specific Findings from the Article (1)
"o economista keynesiano Hyman Minsky, falecido em 1996, escreveu, em 1992, um artigo intitulado "Schumpeter and Finance"."
Attributes a specific work to an economist.
Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical inconsistencies detected; presents a coherent theoretical argument about finance and capitalism.
Core Claims & Their Sources
-
"Financialization is not a deformation but an 'aperfeiçoamento' (perfection/refinement) of capitalism's nature, which in its incessant pursuit of money undermines the 'real economy'."
Source: Argument built on citations and interpretations of economic theorists like Schumpeter, Minsky, Bellofiore, Marx, and Keynes. Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (5)
-
P1
"Hyman Minsky wrote an article titled 'Schumpeter and Finance' in 1992."
Factual -
P2
"Schumpeter died in January 1950."
Factual -
P3
"The world of finance experienced relative calm in the three decades following WWII."
Factual -
P4
"For growth to be possible, the stock of credit must grow causes beyond what is required for the current operation of the capitalist economy."
Causal -
P5
"Without money being thrown into circulation to generate more causes money, the economy stalls and assets risk losing value."
Causal
Claim Relationships Graph
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=== Propositions === P1 [factual]: Hyman Minsky wrote an article titled 'Schumpeter and Finance' in 1992. P2 [factual]: Schumpeter died in January 1950. P3 [factual]: The world of finance experienced relative calm in the three decades following WWII. P4 [causal]: For growth to be possible, the stock of credit must grow causes beyond what is required for the current operation of the capitalist economy. P5 [causal]: Without money being thrown into circulation to generate more causes money, the economy stalls and assets risk losing value. === Causal Graph === for growth to be possible the stock of credit must grow -> beyond what is required for the current operation of the capitalist economy without money being thrown into circulation to generate more -> money the economy stalls and assets risk losing value
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.