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Quem controlar o discurso da segurança terá vantagem na eleição

theintercept.com/brasil By Cecília Olliveira 2026-01-30 500 words
O problema não é apenas a política de segurança que se pratica, mas a forma como se fala sobre ela. A esquerda insiste em subestimar este elemento. Enquanto a direita simplifica o discurso, promete punição imediata e transforma medo em resposta pronta, grande parte da esquerda segue falando de violência como se estivesse em um seminário, distante da exaustão cotidiana de quem vive cercado por ela.

Uma amiga resumiu a conversa quando comentávamos uma pesquisa do Instituto Genial/Quaest, divulgada logo após a chacina policial nos complexos da Penha e do Alemão, no fim de 2025: "Eles estão cansados de serem comparados com bandidos". A família dela mora na Cidade de Deus. Está cansada de acordar todo dia sabendo que, para o resto da cidade, o CEP pesa mais do que qualquer outra coisa.

A pesquisa mostrava que mais de 60% dos moradores do estado do Rio de Janeiro aprovavam a megaoperação que deixou mais de 120 mortos. Uma operação que não prendeu o traficante mais procurado do estado, não desmontou estruturas criminosas e não alterou o controle territorial. Ainda assim, foi bem avaliada. Não porque tenha funcionado, mas porque pareceu funcionar.

Dias depois, outro levantamento ajudou a entender melhor esse cenário. Uma pesquisa de opinião encomendada pelo ICL Notícias revelou que boa parte dos brasileiros aceita a ideia de punir um inocente em nome do combate ao crime. Não como exceção, não como dilema extremo, mas como lógica aceitável. É um dado brutal. Porque ele não fala apenas de segurança pública. Fala do quanto a democracia brasileira está disposta a ceder quando o medo entra em cena.

Quando alguém aceita que um inocente pague o preço da política de segurança, está dizendo algo muito concreto: que algumas vidas são descartáveis. Que errar "para mais" é aceitável. Que a presunção de inocência pode ser relativizada se o alvo estiver no lugar certo — ou errado — do mapa social.

Essa lógica ajuda a explicar o paradoxo aparente revelado pela pesquisa da Quaest. Ao mesmo tempo em que aprovam operações letais, muitos dizem se sentir menos seguros depois delas. Não há contradição aqui. Há coerência. O que está sendo avaliado positivamente não é o efeito real da política, mas o gesto punitivo, a demonstração de força, a ideia de que o Estado está "fazendo alguma coisa", ainda que isso custe vidas que nunca entram na conta.

O que essas pesquisas revelam não diz respeito apenas a uma operação policial ou a um estado específico, mas à forma como o medo vem reorganizando a política brasileira. Quando a punição de inocentes passa a ser socialmente aceita, princípios básicos da democracia deixam de ser limite e viram obstáculo. Operações letais não precisam produzir resultados concretos para serem aprovadas — basta parecerem duras. É assim que a violência se converte em ativo político, orienta escolhas eleitorais e redefine o debate público, às vésperas das eleições. O que hoje se aplica às favelas já ultrapassou seus territórios e passou a operar no centro da democracia brasileira.

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