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Trabalhadores da JBS nos EUA entram em greve contra salários baixos e insalubridade

operamundi.uol.com.br By Luciana Rosa 2026-03-17 810 words
Trabalhadores da JBS nos EUA entram em greve contra salários baixos e condições inseguras

Cerca de 3,8 mil funcionários paralisaram na unidade de Colorado, uma das maiores plantas da empresa no país, devido a riscos e aumento abaixo da inflação

Milhares de trabalhadores de um frigorífico da empresa brasileira JBS, uma das maiores processadoras de carne do mundo, iniciaram uma greve no estado do Colorado, nos Estados Unidos, em meio a acusações de práticas trabalhistas injustas, baixos salários e condições de trabalho inseguras.

A paralisação começou nesta semana na unidade da Swift Beef Co., em Greeley, uma das maiores plantas de abate do país, e envolve cerca de 3.800 trabalhadores sindicalizados, que cruzaram os braços após votação quase unânime.

Segundo o sindicato United Food and Commercial Workers (UFCW), 99% dos trabalhadores votaram a favor da greve, e mais de 2.600 já estavam nos piquetes nas primeiras horas do movimento.

Impasse nas negociações

A greve, que teve início na manhã desta segunda-feira, ocorre após meses de negociações fracassadas entre sindicato e empresa.

Em carta enviada ao departamento de recursos humanos da JBS, a presidente do UFCW Local 7, Kim Cordova, afirma que as partes se reuniram mais de duas dezenas de vezes desde maio de 2025, sem chegar a um acordo.

No documento, ela acusa a empresa de ignorar propostas e de não demonstrar interesse real em encerrar o impasse: "a empresa deixou claro que não tinha intenção de chegar a um acordo negociado", escreveu.

Cordova conta que o sindicato chegou a reduzir significativamente suas demandas, cortando pela metade a diferença econômica entre as partes e abrindo mão de pontos defendidos por meses, na tentativa de viabilizar um acordo.

Ainda assim, ela afirma que a resposta da empresa foi limitada e não avançou nos principais pontos econômicos.

O documento também eleva o tom ao acusar a JBS de tentar pressionar trabalhadores a abandonar o sindicato.

Segundo Cordova, a empresa teria conduzido uma campanha para desmobilizar a greve, incluindo ameaças de demissão.

Salários e custo de vida no centro do conflito

O estopim da paralisação foi a proposta salarial apresentada pela JBS USA, considerada insuficiente pelos trabalhadores.

De acordo com o sindicato, a empresa ofereceu aumentos anuais inferiores a 2%, abaixo da inflação no estado do Colorado.

A reivindicação inclui não apenas reajustes, mas contratos que levem em conta o alto custo de vida na região.

'Não valorizam os trabalhadores'

Funcionários que protestavam na madrugada desta segunda (16/03) em frente ao frigorífico relatam frustração com a falta de avanços.

"Eles não valorizam realmente os trabalhadores, e somos nós que ajudamos a gerar todo o lucro", afirmou Letícia Avalos, representante sindical ao sinal local da CBS.

Outro trabalhador resumiu o sentimento: "os funcionários dedicam seus dias a essa empresa, e muitos sentem que isso foi um tapa na cara".

Condições de trabalho e denúncias

Além dos salários, a segurança no ambiente de trabalho é um dos principais pontos de tensão.

Relatos indicam problemas com equipamentos: "às vezes eles não fornecem facas afiadas… elas voltam sem condições adequadas de uso", disse uma funcionária.

O sindicato afirma que os trabalhadores exercem algumas das funções mais perigosas do país e denuncia cobranças de até US$ 1.100 (cerca de R$ 5.500) por equipamentos de proteção.

Na carta, Cordova também critica a política da empresa de cobrar trabalhadores por equipamentos perdidos:

A prática, segundo ela, funciona como "um curativo pequeno para um problema muito maior".

A mobilização deve ganhar força nos próximos dias. O sindicato convocou um ato público para esta terça-feira (17/03), no Promontory Park, em Greeley, em apoio aos trabalhadores em greve.

O movimento também vem recebendo apoio político. O senador pelo Colorado, John Hickenlooper, afirmou que "o direito à negociação coletiva é a forma como os trabalhadores conquistam acordos justos" e declarou estar ao lado dos funcionários da JBS.

Além disso, até acionistas da empresa têm demonstrado apoio aos trabalhadores, participando dos piquetes ao lado de membros do sindicato – um sinal, segundo organizadores, de que a disputa ultrapassa a questão salarial e envolve demandas mais amplas por condições justas de trabalho.

Histórico de controvérsias e concentração de poder

A JBS, controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, também aparece no centro de críticas estruturais à indústria global da carne. No livro Raw Deal: Hidden Corruption, Corporate Greed, and the Fight for the Future of Meat, a jornalista Chloe Sorvino descreve a empresa brasileira como uma das forças dominantes, e controversas, do setor, ao lado de gigantes como Tyson, Cargill e Smithfield, que juntas controlam mais de 80% do mercado de carne bovina nos Estados Unidos.

A obra aponta que a expansão da JBS foi acompanhada por denúncias de corrupção, práticas anticompetitivas e problemas ambientais e trabalhistas. Segundo Sorvino, os principais acionistas da companhia, os irmãos Batista, ampliaram suas fortunas em meio a esse processo, consolidando o controle sobre uma parcela significativa do mercado global.

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