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O Bestiário Liberal da Economia Brasileira, por Henrique Morrone

jornalggn.com.br By Henrique Morrone 2026-03-17 972 words
O Bestiário Liberal da Economia Brasileira:um guia de criaturas do mercado

por Henrique Morrone

Toda economia tem suas criaturas.Algumas sobrevivem à luz do dia. Outras vivem melhor nas sombras — nos relatórios técnicos, nos corredores de bancos centrais ou nas colunas de opinião que prometem explicar o mundo com algumas pinceladas e gráficos bem amarrados.

O liberalismo econômico brasileiro, por exemplo, possui um zoológico particularmente interessante. Não se trata de fauna nativa, é verdade. Muitas espécies chegaram por importação intelectual, cuidadosamente aclimatadas ao clima tropical das nossas instituições. Ainda assim, adaptaram-se com admirável eficiência.

Comecemos pelo Mercado Onisciente.

Trata-se de um animal de clima temperado, tímido, que se adaptou de forma esplêndida ao Brasil. Ninguém jamais o viu diretamente, mas todos afirmam que existe. O Mercado sente medo, entusiasmo, nervosismo e esperança. Às vezes acorda otimista. Outras vezes irrita-se facilmente e reage aos solavancos, como se tivesse um sistema nervoso ligado às telas das corretoras.

Em sua forma zoológica mais conhecida, comporta-se como uma coruja financeira: observa tudo do alto das torres de vidro, aparentemente capaz de enxergar movimentos invisíveis ao restante da economia. Desconectado de afetos, move-se segundo uma razão supostamente incontida.

Economistas observam seus humores com a atenção de ornitólogos diante de uma ave rara. Quando o Mercado se agita, relatórios são prontamente regurgitados do forno para explicar o motivo da agitação.

Nem sempre o motivo é claro. Mas a explicação costuma aparecer antes do almoço — e quase sempre confirma o que já se pensava antes do café.

Logo ao lado habita o Investidor Nervoso.

Esse animal vive em permanente estado de alerta e tensão. Pequenos ruídos institucionais — uma declaração espontânea, uma votação incerta ou uma entrevista mal calibrada — são suficientes para fazê-lo saltar da cadeira e correr em direção à saída.

Curiosamente, o Investidor Nervoso costuma ser apresentado como criatura sensível e sofisticada, capaz de captar sinais invisíveis da economia.

Na prática, porém, reage como um animal assustado. Lembra uma lebre financeira: corre primeiro e pergunta depois. A pergunta, quando vem, costuma aparecer no relatório do dia seguinte.

Há também o Ajuste Fiscal Permanente.

Diferentemente de outras criaturas, ele nunca sai de cena. Está sempre alinhado.

A cada ano reaparece vestido para gala. Sempre sedutor. Em seu desfile, gráficos são exibidos em apresentações cuidadosamente preparadas, enquanto projeções fiscais desfilam com a elegância de quem promete ordem ao ecossistema econômico.

Sua presença é considerada essencial para manter o ecossistema em equilíbrio.

Nas proximidades vive o Choque de Confiança.

É uma espécie migratória. Segundo seus observadores mais otimistas, basta anunciar reformas, reduzir gastos e transmitir sinais corretos aos mercados para que ele apareça no horizonte trazendo investimentos, crescimento e prosperidade.

No bestiário econômico, costuma comportar-se como um camaleão institucional: muda de forma conforme o ambiente político, mas está sempre prestes a se materializar no próximo trimestre.

O Choque de Confiança costuma ser aguardado com expectativa.

Curiosamente, sua chegada definitiva está sempre prevista para o próximo trimestre.

No mesmo habitat encontramos o Heroico Empreendedor.

Essa criatura é frequentemente descrita como a força vital da economia. Dotado de coragem, criatividade e espírito inovador, ele desperta cedo, enfrenta burocracias hostis e transforma sonhos em realidade — ao menos nas apresentações de slides.

É a transpiração e a inspiração do sistema — ao menos nas narrativas empresariais.

No plano zoológico, lembra um pavão empresarial: abre suas penas em apresentações repletas de gráficos ascendentes, narrativas de superação e projeções otimistas.

Menos comentado é o fato de que o Heroico Empreendedor costuma prosperar melhor quando encontra, pelo caminho, infraestrutura pública, crédito acessível, estabilidade institucional, consumidores com renda e, não raro, generosos subsídios.

Mas essas condições aparecem raramente nas histórias oficiais. O herói prefere parecer desimpedido.

Talvez por isso o Estado Ineficiente esteja sempre por perto.

O Estado Ineficiente é caricaturicamente descrito nos debates econômicos como uma criatura avantajada e letárgica, uma espécie de jabuti administrativo que avança a passos lentos entre regulações e carimbos.

Nos relatos mais populares, ele desempenha papel importante: funciona como predador simbólico, responsável por justificar quase todas as dificuldades do sistema.

Quando algo dá errado, o jabuti costuma aparecer na narrativa com impressionante pontualidade.

Se algo dá certo, sua presença tende a desaparecer discretamente — como um figurante que já cumpriu seu papel na cena.

Por fim, existe o Equilíbrio Natural da Economia.

Essa criatura é a mais elegante — e também a mais temerosa do bestiário. Segundo seus observadores mais dedicados, ela surge espontaneamente sempre que os demais animais são deixados em paz. Interferências excessivas — regulações, políticas industriais, planejamento econômico — podem assustá-la e fazê-la desaparecer.

No imaginário econômico, comporta-se como um cervo tímido da harmonia dos mercados: raramente visto diretamente, mas sempre descrito com grande convicção por aqueles que juram ter avistado seus rastros.

Por isso recomenda-se cautela.

Intervenções devem ser mínimas, cirúrgicas, quase invisíveis.

O problema é que, enquanto aguardamos a aparição do Equilíbrio Natural, outras criaturas continuam circulando livremente pelo ecossistema: crises financeiras, gargalos produtivos, desigualdades persistentes e cidades que crescem de maneira curiosamente seletiva.

Essas espécies raramente aparecem nos manuais.

Talvez porque, ao contrário das criaturas elegantes do bestiário liberal, elas não tenham o hábito de respeitar modelos teóricos muito bem comportados.

A economia real, afinal, raramente leu os manuais que explicam como ela deveria se comportar.

Enquanto isso, no zoológico das ideias econômicas, o Mercado continua agitado, o Investidor permanece nervoso, o Empreendedor abre novamente suas penas e o Equilíbrio Natural segue sendo aguardado com paciência científica — sempre previsto para aparecer no próximo trimestre.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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