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Sites clonados, IA e anúncios: como funciona a máquina de desinformação que lucra com cliques • Lupa

agencialupa.org By João Pedro Capobianco 2026-03-17 1413 words
Esta é a segunda parte de uma reportagem investigativa da Lupa sobre a rede de desinformação que espalha conteúdos falsos voltados ao público brasileiro. Leia aqui a primeira parte

A operação de disseminação de notícias falsas — do tipo de conteúdo fraudulento às estratégias de monetização com anúncios do Google Ads nos sites — se assemelha a um dos casos mais emblemáticos da desinformação nos últimos 10 anos. Na campanha eleitoral dos Estados Unidos em 2016, jovens da Macedônia utilizavam notícias falsas pró-Trump para atrair audiência a sites e, deste modo, arrecadar milhões de dólares com anúncios do Google.

A atuação do grupo revelou não um apoio político e ideológico a Trump, mas uma estratégia de ganhos financeiros a partir da desordem informacional. O lucro com a "fábrica de fake news" chegou a possibilitar que um jovem de 18 anos abandonasse a escola, segundo reportou a revista Wired em 2017.

O esquema que agora atinge o público brasileiro tem diferenças em relação ao operado pelos jovens macedônios, mas pode ter impactos semelhantes na percepção dos fatos e no debate público.

Uso intensivo de IA

Das imagens nos anúncios no Facebook aos textos publicados nos sites, todo o conteúdo disseminado pela rede apresenta indícios de uso em larga escala de inteligência artificial (IA). Nos textos, a tecnologia foi observada em testes feitos nos detectores GPTZero e Justdone. O detector de IA da Hive Moderation também aponta presença de tecnologia em imagens publicadas nos sites.

As características da operação se assemelham ao que pesquisadores de diferentes universidades do mundo chamaram de "enxames maliciosos de IA" em um artigo na revista Science em janeiro. Segundo a publicação, grandes modelos de linguagem (LLM) e agentes autônomos proporcionam a criação de campanhas de influência em uma escala sem precedentes, devido à capacidade exponencial de produzir conteúdos.

De acordo com os acadêmicos, a conjunção de tecnologias disponíveis pode criar agentes de IA que mantêm identidades e memória e atuam de modo coordenado para atingir objetivos em comum. Essas IAs têm a capacidade de variar o tom e o conteúdo e de se adaptar em tempo real a tendências de engajamento, além de operarem em diversas plataformas de modo simultâneo. Isso tudo sob mínima supervisão humana, acrescentam.

Embora os sites e perfis analisados pela Lupa possam não estar sendo operados por agentes de IA, a escala e o tipo de conteúdo disseminado se assemelham à operação descrita no artigo. Segundo os pesquisadores, as consequências das informações falsas, enganosas e sensacionalistas operadas pelos enxames de IA podem gerar uma espécie de efeito letárgico, que causa um desengajamento no debate público.

Sites clonados têm mesmo visual e compartilham conteúdos enganosos

Além de os sites compartilharem o mesmo layout — que simula portais jornalísticos — e o mesmo padrão de publicação, com repetição de temas e um alto volume de postagens, há outras características que revelam a atuação em conjunto das páginas.

Nos seis portais que foram ao ar em 24 de outubro de 2025, as primeiras publicações foram em inglês e sobre economia. Em um segundo momento, passaram a ser feitas em francês e a falar sobre destinos turísticos na França. Só depois é que os conteúdos passam a ser publicados em português, com foco no público brasileiro. O único site que publicou em português desde o início foi ao ar em 1 de janeiro de 2026.

Todos os sites mapeados contam com os serviços de infraestrutura e segurança digital da empresa norte-americana Cloudflare, que permitem ocultar de registros públicos as informações sobre responsáveis pelo domínio. O serviço é legítimo e utilizado por empresas idôneas, mas, ao mesmo tempo, favorece a ocultação da identidade de grupos desinformadores, fraudadores ou golpistas.

A Lupa entrou em contato com a Cloudflare e compartilhou com a empresa os sete domínios (sites) mencionados na matéria. A companhia foi questionada se estava ciente da disseminação de desinformações pelos sites e se aplica algum tipo de política de combate a conteúdos fraudulentos. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno. Em caso de resposta, a matéria será atualizada.

Monetização de cliques

A monetização da operação acontece através dos espaços de publicidade digital, presente nos sete sites de notícias falsas identificados pela Lupa. Todos exibem anúncios de empresas conhecidas — BYD, Adobe, Quinto Andar, Nestlé, Amazon e Google, por exemplo —, pagos via Google Ads ou via Criteo. Também foi constatada a presença de empresas locais, sempre em anúncios direcionados para o público brasileiro.

A presença destas marcas não implica qualquer relação delas com a disseminação de notícias falsas. Isto porque os anúncios funcionam como uma espécie de leilão, baseado no quanto foi pago e na relevância para quem os vê. Em outras palavras, as marcas pagam para aparecer para um público específico, mas não sabem, de antemão, em quais sites poderão aparecer.

Além de anúncios pop-up que surgem em tela inteira — às vezes em vídeo — antes mesmo de o site ser carregado, a Lupa observou que os sites podem exibir até sete banners de anúncio por página. De acordo com a calculadora do Google AdSense, estima-se que um site de notícias com 100 mil visualizações mensais arrecade cerca de US$ 1 mil (equivalente a R$ 5,3 mil) por ano.

Mas os ganhos da rede de desinformação podem estar muito acima disso. Com cerca de 1,8 milhão de seguidores no Facebook — distribuídos em quase 50 perfis que disseminam seus conteúdos — os sites podem alcançar um público bem maior. Além disso, todas as sete páginas web são monetizadas com anúncios.

Para a diretora de pesquisa e operações do InternetLab Heloísa Massaro, há indícios importantes de que essa operação usa uma estratégia caça-cliques em busca de ganhos econômicos, e não necessariamente com o objetivo de gerar caos ou desordem informacional.

Partindo desse diagnóstico [de que se trata de uma operação que visa o lucro], surgem dois questionamentos: em primeiro lugar, a existência de uma estrutura de publicidade digital que, de alguma forma, cria incentivos para a produção desse tipo de conteúdo. Essa primeira dimensão levanta, inclusive, a discussão sobre a necessidade de salvaguardas, como a criação de listas de sites impedidos de exibir publicidade ou outro tipo de medida. Em segundo lugar, vem a responsabilidade do próprio mercado publicitário e das marcas anunciantes. Existe um desafio, porque nem sempre as marcas têm controle sobre onde seus anúncios serão exibidos, mas esta é uma questão para o mercado de publicidade".Heloísa Massaro, diretora de pesquisa e operações do InternetLab

Partindo desse diagnóstico [de que se trata de uma operação que visa o lucro], surgem dois questionamentos: em primeiro lugar, a existência de uma estrutura de publicidade digital que, de alguma forma, cria incentivos para a produção desse tipo de conteúdo. Essa primeira dimensão levanta, inclusive, a discussão sobre a necessidade de salvaguardas, como a criação de listas de sites impedidos de exibir publicidade ou outro tipo de medida. Em segundo lugar, vem a responsabilidade do próprio mercado publicitário e das marcas anunciantes. Existe um desafio, porque nem sempre as marcas têm controle sobre onde seus anúncios serão exibidos, mas esta é uma questão para o mercado de publicidade".

Políticas de publicidade vedam desinformação

A política para editores do Google, que prevê regras para quem monetiza seus conteúdos via Google Ads, diz não permitir "declarações falsas, descrições enganosas ou [que] ocultem informações sobre o editor, o criador do conteúdo, a finalidade do conteúdo ou o conteúdo em si".

A política também não permite conteúdo que "faça afirmações comprovadamente falsas e que possa prejudicar de forma significativa a participação ou a confiança no processo eleitoral ou democrático" ou que "engane os usuários com a utilização de mídias manipuladas sobre política, questões sociais ou assuntos de interesse público".

As diretrizes para publishers parceiros da Criteo também têm restrições a conteúdos enganosos. A empresa informa que os sites que exibem anúncios não devem conter, entre outras características, "conteúdo chocante, ofensivo ou fraudulento", o que inclui, segundo a própria diretriz, sites que "incluem o uso deliberado de declarações fraudulentas, factualmente incorretas ou enganosas com a finalidade de atrair tráfego (ou seja, isca de cliques)" e "conteúdos ou sites gerados apenas com a finalidade de gerar receitas publicitárias".

A reportagem entrou em contato com o Google e com a Criteo e apresentou às empresas a lista de sites de notícias falsas que veiculam propagandas por meio de suas plataformas de anúncio. Nenhuma das empresas respondeu até o fechamento da reportagem. Em caso de retorno, a matéria será atualizada.

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