Sites clonados, IA e anúncios: como funciona a máquina de desinformação que lucra com cliques • Lupa
A operação de disseminação de notícias falsas — do tipo de conteúdo fraudulento às estratégias de monetização com anúncios do Google Ads nos sites — se assemelha a um dos casos mais emblemáticos da desinformação nos últimos 10 anos. Na campanha eleitoral dos Estados Unidos em 2016, jovens da Macedônia utilizavam notícias falsas pró-Trump para atrair audiência a sites e, deste modo, arrecadar milhões de dólares com anúncios do Google.
A atuação do grupo revelou não um apoio político e ideológico a Trump, mas uma estratégia de ganhos financeiros a partir da desordem informacional. O lucro com a "fábrica de fake news" chegou a possibilitar que um jovem de 18 anos abandonasse a escola, segundo reportou a revista Wired em 2017.
O esquema que agora atinge o público brasileiro tem diferenças em relação ao operado pelos jovens macedônios, mas pode ter impactos semelhantes na percepção dos fatos e no debate público.
Uso intensivo de IA
Das imagens nos anúncios no Facebook aos textos publicados nos sites, todo o conteúdo disseminado pela rede apresenta indícios de uso em larga escala de inteligência artificial (IA). Nos textos, a tecnologia foi observada em testes feitos nos detectores GPTZero e Justdone. O detector de IA da Hive Moderation também aponta presença de tecnologia em imagens publicadas nos sites.
As características da operação se assemelham ao que pesquisadores de diferentes universidades do mundo chamaram de "enxames maliciosos de IA" em um artigo na revista Science em janeiro. Segundo a publicação, grandes modelos de linguagem (LLM) e agentes autônomos proporcionam a criação de campanhas de influência em uma escala sem precedentes, devido à capacidade exponencial de produzir conteúdos.
De acordo com os acadêmicos, a conjunção de tecnologias disponíveis pode criar agentes de IA que mantêm identidades e memória e atuam de modo coordenado para atingir objetivos em comum. Essas IAs têm a capacidade de variar o tom e o conteúdo e de se adaptar em tempo real a tendências de engajamento, além de operarem em diversas plataformas de modo simultâneo. Isso tudo sob mínima supervisão humana, acrescentam.
Embora os sites e perfis analisados pela Lupa possam não estar sendo operados por agentes de IA, a escala e o tipo de conteúdo disseminado se assemelham à operação descrita no artigo. Segundo os pesquisadores, as consequências das informações falsas, enganosas e sensacionalistas operadas pelos enxames de IA podem gerar uma espécie de efeito letárgico, que causa um desengajamento no debate público.
Sites clonados têm mesmo visual e compartilham conteúdos enganosos
Além de os sites compartilharem o mesmo layout — que simula portais jornalísticos — e o mesmo padrão de publicação, com repetição de temas e um alto volume de postagens, há outras características que revelam a atuação em conjunto das páginas.
Nos seis portais que foram ao ar em 24 de outubro de 2025, as primeiras publicações foram em inglês e sobre economia. Em um segundo momento, passaram a ser feitas em francês e a falar sobre destinos turísticos na França. Só depois é que os conteúdos passam a ser publicados em português, com foco no público brasileiro. O único site que publicou em português desde o início foi ao ar em 1 de janeiro de 2026.
Todos os sites mapeados contam com os serviços de infraestrutura e segurança digital da empresa norte-americana Cloudflare, que permitem ocultar de registros públicos as informações sobre responsáveis pelo domínio. O serviço é legítimo e utilizado por empresas idôneas, mas, ao mesmo tempo, favorece a ocultação da identidade de grupos desinformadores, fraudadores ou golpistas.
A Lupa entrou em contato com a Cloudflare e compartilhou com a empresa os sete domínios (sites) mencionados na matéria. A companhia foi questionada se estava ciente da disseminação de desinformações pelos sites e se aplica algum tipo de política de combate a conteúdos fraudulentos. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno. Em caso de resposta, a matéria será atualizada.
Monetização de cliques
A monetização da operação acontece através dos espaços de publicidade digital, presente nos sete sites de notícias falsas identificados pela Lupa. Todos exibem anúncios de empresas conhecidas — BYD, Adobe, Quinto Andar, Nestlé, Amazon e Google, por exemplo —, pagos via Google Ads ou via Criteo. Também foi constatada a presença de empresas locais, sempre em anúncios direcionados para o público brasileiro.
A presença destas marcas não implica qualquer relação delas com a disseminação de notícias falsas. Isto porque os anúncios funcionam como uma espécie de leilão, baseado no quanto foi pago e na relevância para quem os vê. Em outras palavras, as marcas pagam para aparecer para um público específico, mas não sabem, de antemão, em quais sites poderão aparecer.
Além de anúncios pop-up que surgem em tela inteira — às vezes em vídeo — antes mesmo de o site ser carregado, a Lupa observou que os sites podem exibir até sete banners de anúncio por página. De acordo com a calculadora do Google AdSense, estima-se que um site de notícias com 100 mil visualizações mensais arrecade cerca de US$ 1 mil (equivalente a R$ 5,3 mil) por ano.
Mas os ganhos da rede de desinformação podem estar muito acima disso. Com cerca de 1,8 milhão de seguidores no Facebook — distribuídos em quase 50 perfis que disseminam seus conteúdos — os sites podem alcançar um público bem maior. Além disso, todas as sete páginas web são monetizadas com anúncios.
Para a diretora de pesquisa e operações do InternetLab Heloísa Massaro, há indícios importantes de que essa operação usa uma estratégia caça-cliques em busca de ganhos econômicos, e não necessariamente com o objetivo de gerar caos ou desordem informacional.
Partindo desse diagnóstico [de que se trata de uma operação que visa o lucro], surgem dois questionamentos: em primeiro lugar, a existência de uma estrutura de publicidade digital que, de alguma forma, cria incentivos para a produção desse tipo de conteúdo. Essa primeira dimensão levanta, inclusive, a discussão sobre a necessidade de salvaguardas, como a criação de listas de sites impedidos de exibir publicidade ou outro tipo de medida. Em segundo lugar, vem a responsabilidade do próprio mercado publicitário e das marcas anunciantes. Existe um desafio, porque nem sempre as marcas têm controle sobre onde seus anúncios serão exibidos, mas esta é uma questão para o mercado de publicidade".Heloísa Massaro, diretora de pesquisa e operações do InternetLab
Partindo desse diagnóstico [de que se trata de uma operação que visa o lucro], surgem dois questionamentos: em primeiro lugar, a existência de uma estrutura de publicidade digital que, de alguma forma, cria incentivos para a produção desse tipo de conteúdo. Essa primeira dimensão levanta, inclusive, a discussão sobre a necessidade de salvaguardas, como a criação de listas de sites impedidos de exibir publicidade ou outro tipo de medida. Em segundo lugar, vem a responsabilidade do próprio mercado publicitário e das marcas anunciantes. Existe um desafio, porque nem sempre as marcas têm controle sobre onde seus anúncios serão exibidos, mas esta é uma questão para o mercado de publicidade".
Políticas de publicidade vedam desinformação
A política para editores do Google, que prevê regras para quem monetiza seus conteúdos via Google Ads, diz não permitir "declarações falsas, descrições enganosas ou [que] ocultem informações sobre o editor, o criador do conteúdo, a finalidade do conteúdo ou o conteúdo em si".
A política também não permite conteúdo que "faça afirmações comprovadamente falsas e que possa prejudicar de forma significativa a participação ou a confiança no processo eleitoral ou democrático" ou que "engane os usuários com a utilização de mídias manipuladas sobre política, questões sociais ou assuntos de interesse público".
As diretrizes para publishers parceiros da Criteo também têm restrições a conteúdos enganosos. A empresa informa que os sites que exibem anúncios não devem conter, entre outras características, "conteúdo chocante, ofensivo ou fraudulento", o que inclui, segundo a própria diretriz, sites que "incluem o uso deliberado de declarações fraudulentas, factualmente incorretas ou enganosas com a finalidade de atrair tráfego (ou seja, isca de cliques)" e "conteúdos ou sites gerados apenas com a finalidade de gerar receitas publicitárias".
A reportagem entrou em contato com o Google e com a Criteo e apresentou às empresas a lista de sites de notícias falsas que veiculam propagandas por meio de suas plataformas de anúncio. Nenhuma das empresas respondeu até o fechamento da reportagem. Em caso de retorno, a matéria será atualizada.
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Good mix of named expert sources, academic references, and investigative findings, though lacking direct primary sources from the disinformation network.
Specific Findings from the Article (4)
"Heloísa Massaro, diretora de pesquisa e operações do InternetLab"
Named expert source with clear credentials quoted directly.
Named source"Segundo a publicação, grandes modelos de linguagem (LLM) e agentes autônomos proporcionam a criação de campanhas de influência"
Cites academic research from Science journal.
Secondary source"segundo reportou a revista Wired em 2017"
References established media outlet.
Secondary source"De acordo com os acadêmicos"
References unnamed academic experts.
Expert sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
Article acknowledges multiple perspectives including disinformation operators, advertising platforms, and researchers, though focuses on investigative findings.
Specific Findings from the Article (3)
"A presença destas marcas não implica qualquer relação delas com a disseminação de notícias falsas"
Acknowledges alternative perspective about advertiser responsibility.
Balance indicator"Existe um desafio, porque nem sempre as marcas têm controle sobre onde seus anúncios serão exibidos"
Presents complexity in the advertising ecosystem.
Balance indicator"O serviço é legítimo e utilizado por empresas idôneas, mas, ao mesmo tempo, favorece a ocultação"
Balanced view of Cloudflare's services.
Balance indicatorContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Comprehensive context including historical comparison, technical analysis, financial models, and policy frameworks.
Specific Findings from the Article (4)
"Na campanha eleitoral dos Estados Unidos em 2016, jovens da Macedônia utilizavam notícias falsas pró-Trump"
Provides historical context and precedent.
Background"Com cerca de 1,8 milhão de seguidores no Facebook — distribuídos em quase 50 perfis"
Quantifies reach and scale.
Statistic"um site de notícias com 100 mil visualizações mensais arrecade cerca de US$ 1 mil (equivalente a R$ 5,3 mil) por ano"
Provides financial context with conversion.
Statistic"Nos seis portais que foram ao ar em 24 de outubro de 2025, as primeiras publicações foram em inglês e sobre economia"
Detailed timeline and operational patterns.
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Consistently neutral, factual language throughout with no sensationalist or politically loaded terms.
Specific Findings from the Article (3)
"A operação de disseminação de notícias falsas"
Neutral descriptive language.
Neutral language"Das imagens nos anúncios no Facebook aos textos publicados nos sites"
Factual, observational language.
Neutral language"A Lupa entrou em contato com a Cloudflare e compartilhou com a empresa os sete domínios"
Neutral reporting of investigative actions.
Neutral languageTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Full attribution, clear methodology disclosure, date stamp, and transparency about investigation limits.
Specific Findings from the Article (3)
"Nos textos, a tecnologia foi observada em testes feitos nos detectores GPTZero e Justdone"
Discloses testing methodology.
Methodology"Heloísa Massaro, diretora de pesquisa e operações do InternetLab"
Clear attribution of expert quote.
Quote attribution"Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno. Em caso de resposta, a matéria será atualizada"
Transparent about investigation status.
MethodologyLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical inconsistencies detected; article maintains clear, consistent narrative throughout.
Logic Issues Detected
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Contradiction (high)
Conflicting values for 'the': 1.8 vs 24
"Heuristic: Values conflict between P3 and P5"
Core Claims & Their Sources
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"A disinformation network targeting Brazilian audiences uses cloned sites, AI-generated content, and digital advertising for financial gain."
Source: Lupa's investigative findings, expert analysis from Heloísa Massaro, and academic references Named secondary
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"The operation resembles historical disinformation campaigns but with AI scaling and coordinated swarm tactics."
Source: Academic research cited from Science journal and historical reference to 2016 Macedonian operation Named secondary
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"Major advertising platforms' policies prohibit disinformation, but enforcement challenges exist."
Source: Direct quotes from Google and Criteo policies, investigative outreach to companies Named secondary
Logic Model Inspector
Inconsistencies FoundExtracted Propositions (8)
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P1
"Seven fake news sites were identified targeting Brazilian audiences"
Factual -
P2
"The sites use Cloudflare services to hide domain ownership information"
Factual -
P3
"The network has approximately 1.8 million Facebook followers across nearly 50 profiles"
Factual In contradiction -
P4
"All seven websites are monetized with ads from major companies via Google Ads or Criteo"
Factual -
P5
"The sites went live starting October 24, 2025, with content initially in English and French before switching to Portuguese"
Factual In contradiction -
P6
"Digital advertising infrastructure creates incentives for causes producing disinformation content for financial gain"
Causal -
P7
"AI swarm technology enables unprecedented scale in causes influence campaigns due to exponential content production capacity"
Causal -
P8
"False and misleading information operated by AI swarms can generate a lethargic effect that causes disengagement from public debate"
Causal
Claim Relationships Graph
Detected Contradictions (1)
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: Seven fake news sites were identified targeting Brazilian audiences P2 [factual]: The sites use Cloudflare services to hide domain ownership information P3 [factual]: The network has approximately 1.8 million Facebook followers across nearly 50 profiles P4 [factual]: All seven websites are monetized with ads from major companies via Google Ads or Criteo P5 [factual]: The sites went live starting October 24, 2025, with content initially in English and French before switching to Portuguese P6 [causal]: Digital advertising infrastructure creates incentives for causes producing disinformation content for financial gain P7 [causal]: AI swarm technology enables unprecedented scale in causes influence campaigns due to exponential content production capacity P8 [causal]: False and misleading information operated by AI swarms can generate a lethargic effect that causes disengagement from public debate === Constraints === P3 contradicts P5 Note: Conflicting values for 'the': 1.8 vs 24 === Causal Graph === digital advertising infrastructure creates incentives for -> producing disinformation content for financial gain ai swarm technology enables unprecedented scale in -> influence campaigns due to exponential content production capacity false and misleading information operated by ai swarms can generate a lethargic effect that -> disengagement from public debate === Detected Contradictions === UNSAT: P3 AND P5 Proof: Heuristic: Values conflict between P3 and P5