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Cidades pequenas são as mais violentas de SP; veja quais

ultimosegundo.ig.com.br By Pedro Boaventura 2026-03-19 2016 words
A falta de segurança é um assunto recorrente na região metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Uma das regiões mais importantes - geográfica e economicamente - de São Paulo, com 3 milhões de habitantes, tem um histórico de violência e de crimes hediondos ligados ao tráfico de drogas e às maiores facções do país.

E apesar de grandes centros urbanos, como São José dos Campos (727 mil habitantes) e Taubaté (322 mil habitantes), as cidades mais perigosas para viver têm menos de 100 mil habitantes. Entre elas, nos últimos anos, Lorena e Cruzeiro se revezam no topo da lista dos lugares com os piores índices.

Eixo Rio-São Paulo e eixo da violência

Conhecido pelo que ficou conhecido como ''turismo da fé'', em Aparecida e Cachoeira Paulista, e por ser polo industrial e de tecnologia, berço da Embraer e do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o Vale do Paraíba fica às margens da Via Dutra, ligação das duas maiores cidades brasileiras - Sao Paulo e Rio de Janeiro.

Na Dutra existem acessos diretos para áreas de serra (Campos do Jordão) e para o Litoral Norte (Ubatuba, Caraguatatuba e São Sebastião). Pela rodovia circula cerca de metade do PIB (total da produção de riquezas) do Brasil.

Toda essa ''ostentação'' econômica convive com dados alarmantes de violência. Um dos marcos para a piora dos índices foi o surgimento da facção Primeiro Comando da Capital, o PCC, em um presídio de Taubaté, na década de 1990.

Ranking da violência tem duas cidades que sempre aparecem

Atualmente, a região tem os números mais preocupantes na área da segurança pública de São Paulo, alguns maiores até que os da capital (veja ranking abaixo), onde a taxa de homicídios ficou em 4,6..

Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), Lorena, em primeiro no ranking, e Cruzeiro, em terceiro, tiveram as maiores taxas de assassinatos em 2025, além de Ubatuba, que não aparecia entre as 10 primeiras antes do ano passado..

O cálculo é feito com base no número de mortes a cada 100 mil habitantes.

Lorena (84,5 mil habitantes) - 27 homicídios; taxa 31,84Ubatuba (92,9 mil habitantes) - 25 homicídios; taxa 26,91Cruzeiro (74,9 mil habitantes) - 18 homicídios; taxa 24,03

Nos anos anteriores, Lorena e Cruzeiro também estavam entre as primeiras.

Em 2024, Lorena teve taxa de 23,58, com 20 homicídios registrados. Foi o terceiro maior número de São Paulo. No mesmo ano, Cruzeiro teve a maior taxa - 30,71 - com 23 assassinatos.

Um ano antes, Cruzeiro já era a cidade paulista mais violenta do estado, com 28 homicídios e taxa de 37,38. Lorena apareceu em seguida, contabilizando 27 homicídios e taxa de 31,84 naquele ano.

Furtos e roubos também preocupam

Os moradores das cidades mais violentas sentem no dia a dia a piora do cenário. Uma prova disso está nos números de furtos e roubos.

Em 2023 (453), 2024 (523) e 2025 (551), Lorena teve mais de um furto por dia.

O crime de roubo foi registrado 97 vezes em 2025, 155 em 2024 e 127 em 2023.

Em Cruzeiro, a quantidade de furtos também se manteve acima de 400 por ano. Foram 677 em 2023, 559 em 2024 e 492 no ano passado. Nesses mesmos anos, os roubos chegaram a 113 (2023), 50 (2024) e 65 em 2025.

Outro dado que chama a atenção é o de crime de lesão corporal nas duas cidades.

Ano passado, em Lorena, foram registradas 302 ocorrências. Em 2024 e 2023, a marca era de 258 e 259, respectivamente.

Em Cruzeiro nesses mesmos anos, foram 303, 273 e 280, respectivamente.

Rota de fuga do tráfico

Os números não são coincidência. Lorena e Cruzeiro estão próximas das divisas com Minas Gerais e Rio de Janeiro. A localização é uma das razões para os índices estarem elevados, já que ela favorece a criminalidade na região, por ser rota de três estados, os mais populosos do país.

Para o coronel aposentado da Polícia Militar, Eduardo Stanelis, a violência nessas cidades é fruto de fatores geográficos e sociais específicos, como a disputa de território entre facções criminosas, virtualização e monitoramento de rivais.

"O Vale do Paraíba é o principal corredor logístico entre São Paulo e Rio de Janeiro, pela Rodovia Presidente Dutra. Em Lorena e Cruzeiro existe uma guerra de facções (PCC vs. grupos rivais ou dissidências locais, inclusive com a presença do Comando Vermelho e outros grupos interestaduais), que buscam controlar o escoamento de drogas e armas entre os dois estados. Recentemente, notou-se em Cruzeiro e Lorena o uso de redes sociais para marcar execuções. Criminosos publicam listas de "inimigos" e monitoram as vítimas digitalmente, o que acelera o ciclo de vinganças e assassinatos."

Ainda para o coronel, a vulnerabilidade social e a participação de jovens no crime acabam sendo outro fator para os altos índices em Cruzeiro e Lorena.

"Muitos bairros periféricos nessas cidades sofrem com a pobreza, a falta de infraestrutura e de oportunidades de trabalho. Sem a presença do Estado, jovens são facilmente cooptados pelo tráfico, resultando em soldados do crime que acabam sendo as principais vítimas dos homicídios", ressalta.

Guerra entre bandidos interfere no dia a dia da população

Há quem diga que as mortes decorrentes da briga pelo tráfico de drogas não afetam a vida dos moradores de maneira geral, e que elas não representam os números de violência de uma cidade por envolveram geralmente pessoas que já cometem crimes.

O professor e doutor em Sociologia e ex-secretário adjunto de Segurança Pública de Minas Gerais, Luís Flávio Sapori, discorda.

"As mortes ligadas ao tráfico de drogas geram um ciclo e é óbvio que são impactantes e afetam a vida de todo mundo. Achar que a guerra fica entre os traficantes é um erro de interpretação, um erro de como lidar com a violência pública."

Ainda de acordo com Sapori, as mortes ligadas ao tráfico de drogas explicam a maioria das mortes do Brasil nos últimos 20 anos.

"Obviamente que afeta. São homicídios derivados de grupos de facções, de grupos de jovens ligados ao tráfico, e isso explica a maioria das mortes no Brasil nos últimos 20 anos."

Estado e prefeituras respondem sobre ações contra a violência

O iG perguntou ao governo estadual se há ações em andamento para tornar a região segura.

A SSP informou para a reportagem que, em um contexto geral, os números de homicídios dolosos estão diminuindo em todo o estado, inclusive na região de Lorena, cidade que demanda o maior número de acoes por estar repetidamente entre as mais violentas.

"A Secretaria da Segurança Pública informa que o enfrentamento aos crimes contra a vida é tratado como prioridade permanente e integra o programa SP Vida, que realiza a análise contínua de todas as ocorrências de homicídio doloso para subsidiar ações operacionais, investigativas e de prevenção. Os dados consolidados de 2025 mostram que o Estado de São Paulo registrou, pelo terceiro ano consecutivo, o menor número de homicídios dolosos da sua série histórica, com 2.438 casos, o que representa uma redução de 3,1% em relação a 2024. No interior do estado, a queda foi ainda mais expressiva, de 7,9%, e a Seccional de Guaratinguetá, responsável pela região de Lorena, apresentou redução de 16,6% no número de homicídios dolosos, com 14 casos a menos"..

Ainda de acordo com a SSP, ao longo de 2025, houve prisão e apreensão de 353 infratores e retirada de 41 armas de fogo de circulação em Lorena.

O iG também questionou as prefeituras
de Lorena e de Cruzeiro a respeito dos números e de políticas públicas para acabar com o crescimento da violência.

Lorena informou que acompanha com atenção os dados sobre os índices de homicídios e reforça a importância do trabalho das polícias Civil e Militar, esperando a intensificação das investigações, o fortalecimento das ações de inteligência, o policiamento ostensivo permanente e a realização de operações direcionadas às áreas com maior incidência criminal, de forma a coibir a violência e responsabilizar os autores dos crimes.

Além disso, afirmou que tem contratou de 15 novos agentes de segurança e um projeto para ampliação do Centro de Operações Integradas (COI).

A prefeitura de Cruzeiro informou que os índices de criminalidade vêm apresentando queda. Na comparação entre 2021 e 2025, por exemplo, a redução nos casos de homicídio ultrapassa 57%.

O governo municipal garantiu que tem investido na ampliação do centro de operações, passando de 94 para 748 equipamentos instalados em pontos estratégicos. E que o órgão conta com ações de prevenção primária, com investimentos em iluminação pública, lazer, assistência social e geração de emprego.

O que pode ser feito para reduzir a insegurança nas pequenas cidades

Para o coronel Eduardo, existem muitas ações que podem ajudar a melhorar esses números e que só com o envolvimento de toda a sociedade será possível melhorar a situação de forma satisfatória

"As possíveis soluções passam pelas ações de inteligência, visando a desarticulação financeira das facções e monitoramento de redes sociais para antecipar execuções e outras ações criminosas. Também aumentar o efetivo da Força Tática e do BAEP (Batalhão de Ações Especiais) na região, com foco em ações mais fortes em bares, locais de aglomeração e lugares estatisticamente relevantes''.

O envolvimento dos órgãos públicos é fundamental, tanto em recuperação de sistemas urbanos, quanto em ações sociais.

"Outra questão importante é criar um sistema de urbanística de segurança pública, envolvendo ações das prefeituras, com investimento em melhoria da iluminação pública, recuperação de áreas urbanas degradadas, onde o crime se estabelece. Também a instalação de câmeras de monitoramento, orientações de segurança arquitetônica para engenheiros e arquitetos, escolas em tempo integral e centros de juventude"..

Na avaliação de Sapori, duas estratégias são fundamentais a curto prazo: presença da Polícia Militar e identificação dos líderes do tráfico na região.

"Eles devem ser punidos, se não forem estão fomentando um circulo. Duas estratégias são fundamentais, primeiro e a presença da Polícia Militar. Com a PM presente e marcando uma presença constante, ela sufoca o comercio de drogas. Assim eles deixam uma mensagem que não vão tolerar esses homicídios, e a mensagem tem que ser clara. Outro ponto importante é investigar pra identificar as principais lideranças da região. Após a identificação é preciso processar e punir, e fazer isso ao mesmo tempo. A curto prazo são as melhores maneiras: repressão qualificada e presença ostensiva, só assim pra diminuir a impunidade e os números da violência."

Assassinatos nem sempre estão ligados a facções

A violência muitas vezes não tem relação direta com a criminalidade. É o caso do feminicídio.

Em Lorena, um caso emblemático só fez piorar a sensação de insegurança que paira sobre a cidade há anos.

No ano de 2024, a jovem Elda Fortes, de 29 anos, que era técnica de enfermagem na maternidade da Santa Casa, foi morta após ser espancada pelo ex-namorado dentro de casa.

O caso ganhou grande repercussão e mobilizou pessoas nas redes sociais em busca do homem que a matou, pois ele fugiu, mas foi preso dois meses depois.

A mãe de Elda, Valéria Fortes, busca forças para poder ajudar outras mulheres.

"Eu não quero que ninguém esqueça, pela minha filha e pelas outras mulheres. Aconteceu debaixo do meu nariz, na minha casa. Enquanto eu estiver viva e com força, eu vou falar sobre isso. A gente não pode deixar esquecer."

Morando na cidade que sempre figura entre as mais violentas, Valéria passou a atuar como Secretária de Políticas para a Mulher em Lorena, em um gesto de grande simbolismo.

Para ela, os números da violência na cidade não refletem o medo das mulheres, que deve ser tratado como um problema distinto, e muito grave.

"São violências diferentes. Não é essa violência que está matando a mulher. A violência que mata a mulher é disfarçada de amor e de carinho e não está ligada a bandidos. A questão da segurança da mulher é muito séria e está muito escancarada. Não é uma violência que vem de facção, ele não é pobre, não é rico, é qualquer um. Hoje em dia, matam por bobeira, dívidas pequenas, namoradas, parece que não têm razão para matar, matam por vontade de matar e a maioria aqui em Lorena são garotos".

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