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Viajar é, cada vez menos, um ato de liberdade - revista piauí

piaui.uol.com.br · Daniel Bergamasco; Mariana Aldrigui · 2026-04-08 · 1,219 words
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Source Quality 3
Perspective Balance 4
Contextual Depth 4
Language Neutrality 5
Transparency 4
Logical Coherence 5
Article
Turistas passeiam em Veneza, em 1954, com a ponte Rialto ao fundo Charles Hewitt/ Picture Post/ Hulton Archive/ Getty Images

Viajar é, cada vez menos, um ato de liberdade

O turismo contemporâneo entre a ampliação de ilusões e o endurecimento de restrições

Durante muito tempo, o turismo foi associado à ideia de liberdade. Viajar significava escolher o destino, o que ver, como experimentar o mundo. Um exercício de autonomia individual – com as restrições, claro, do bolso de cada um. Essa imagem, no entanto, não explica bem o turismo contemporâneo.

Hoje, o ato de viajar é governado por três fatores que raramente aparecem juntos no debate público: o desejo individual, a mediação digital e a geopolítica. Quando combinados, fica mais claro o que está acontecendo com o turismo global. Ele bateu recorde em 2025 — 1,5 bilhão de visitas internacionais, segundo a ONU — mas nunca foi tão regulado, filtrado e, de certa forma, antecipado.

Vamos começar pelo indivíduo. Ainda existe a ideia de que viajar nos transforma — que amplia horizontes, nos torna mais tolerantes, mais interessantes. Essa crença vem de longe. Mark Twain escreveu que "viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e as mentes limitadas".

Na prática, acontece muitas vezes o oposto. A filósofa Agnes Callard, num ensaio na revista The New Yorker, coloca isso de um jeito meio desconfortável: o turista já sabe, antes de partir, o que será quando voltar. "Viajar é um bumerangue", escreve. "É algo que te devolve exatamente ao lugar de onde você partiu." Viajamos para confirmar o que já esperávamos, não para desfazer expectativas. A viagem, assim, não rompe com o cotidiano, ela só o reproduz em outro cenário.

Soma-se a isso a proliferação dos algoritmos, cada vez mais treinados e afiados. Destinos já não são descobertos, e sim sugeridos. Experiências não são vividas espontaneamente, mas antecipadas, roteirizadas e, acima de tudo, registradas. O que antes se vivia para depois compartilhar, hoje se vive (quase que somente) para compartilhar.

Um exemplo: a Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma. Uma joia barroca do século XVII, com afrescos sublimes no teto. Ela se tornou famosa recentemente não pelo valor artístico ou histórico, mas em razão de um espelho estrategicamente posicionado para selfies de tirar o fôlego. Depois que vídeos de influenciadores inundaram o TikTok, milhares de pessoas passaram a fazer fila — de até uma hora de espera, pagando 1 euro cada um — sem sequer olhar para a obra de Andrea Pozzo no teto acima de suas cabeças. O destino virou cenário; o turista, produtor de conteúdo. (O gestor da igreja, aliás, é um talento do marketing e da arrecadação.)

E não é só ali. Em Roma, passagens medievais que ninguém conhecia viraram atrações lotadas depois de um único vídeo viral no Instagram. Museus antes vazios passaram a ter filas na porta graças a influenciadores. Poderia ser uma boa notícia, mas a lógica se repete: a experiência passa a depender menos do que se sente e mais do que se pode mostrar/ postar/ exibir.

Só que mesmo esse turista — guiado por desejos e algoritmos — não é plenamente livre.

A geopolítica está aí, cada vez mais, para determinar quem pode viajar, para onde e a que custo. Quando Donald Trump intensificou as operações militares no Caribe, as reservas turísticas em Trinidad e Tobago despencaram — um efeito colateral de uma política que nada tinha a ver com turismo. Já quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, milhares de voos foram cancelados; o Irã danificou o Aeroporto Internacional de Dubai no contra-ataque. Resultado: o Oriente Médio passou a perder pelo menos 600 milhões de dólares por dia em receita turística, segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC).

A América Latina, é verdade, não sente o impacto direto desses conflitos da mesma forma que Europa ou Oriente Médio. A região depende menos do Golfo como corredor de voos, e as rotas Norte-Sul — como Brasil-Estados Unidos — seguem relativamente estáveis. Os viajantes latino-americanos, aliás, continuam querendo viajar e os Estados Unidos seguem no topo da lista de destinos desejados. Mas há um efeito indireto que não pode ser ignorado: o custo. Quando o preço do combustível sobe, quando o seguro de viagem encarece ou o câmbio desanda, o bolso aperta. Então o crescimento desacelera. Com frequência, o viajante simplesmente troca o destino internacional por algo mais perto de casa.

A Rússia é outro caso. Aquela ideia de que a queda da União Soviética trouxe como dividendo a liberdade de circular pelo mundo? Pois bem, essa liberdade foi progressivamente restringida pela política externa russa. Em 2024, o número de vistos emitidos para cidadãos russos na Zona Schengen da União Europeia caiu 90% em relação a 2019. Os destinos de férias dos russos mudaram completamente: Alemanha, Estônia e Finlândia sumiram do mapa; Egito, Vietnã, Emirados Árabes Unidos e Tailândia entraram no lugar.

E os Estados Unidos? Antes o maior destino do mundo em total de receita, viram o turismo internacional recuar 6% em 2025 — isso num momento em que o resto do planeta vivia um boom. (Só o Brasil cresceu 37% em chegadas internacionais em 2025.) O país de Trump fez por merecer: uma pesquisa com viajantes globais mostrou que a proporção dos que não se sentem bem-vindos no país mais que dobrou em um ano, e a recusa em visitá-lo quase triplicou.

A China mostra o outro lado do poder estatal: o controle sobre quem sai. Funcionários de agências governamentais e universidades públicas, por exemplo, precisam entregar o passaporte. Os demais têm os roteiros monitorados. Em meio a tensões com o Japão, o governo chinês desencorajou viagens ao arquipélago — resultado: as chegadas de turistas chineses ao Japão caíram 45% em dezembro de 2025. O Estado, aqui, não proíbe formalmente, só desencoraja. Mas o efeito acaba sendo o mesmo.

No fim das contas, o que temos é um turismo condicionado. Nunca houve tanta vontade de viajar. Mas também nunca houve tantos filtros — explícitos ou invisíveis — regulando esse movimento. O recorde de viagens internacionais em 2025 é real, só que ele convive com espaços aéreos fechados, rotas mais longas e caras, vistos negados, e destinos inteiros simplesmente varridos do mapa por decisões tomadas a milhares de quilômetros de distância.

Nesse contexto, o turismo funciona como um termômetro do mundo contemporâneo. Ele mostra quem pode circular, quem é barrado, quais destinos estão em alta e quais se tornam melhor evitar — não por falta de atrativos, mas por causa da deterioração de uma imagem ou da lógica implacável de um algoritmo.

E não para por aí: revela também múltiplas disputas. Disputa por visibilidade (mediada por plataformas digitais). Disputa por acesso (regulada por Estados). Disputa por significado, essa vivida — ou encenada — por cada viajante.

Diante disso, a pergunta central muda. Já não é só decidir para onde viajar. É entender quem, de fato, controla essa decisão.

O viajante, que acredita escolher?

O algoritmo, que sugere e organiza?

Ou o Estado, que permite — ou impede — o deslocamento?

A resposta está no cruzamento das três questões. O turismo contemporâneo já não é uma expressão de liberdade individual. É o produto de um sistema complicado, em que desejo, tecnologia e política se entrelaçam, e a ilusão de autonomia talvez seja o item mais bem-acabado do pacote.

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Source Quality
Perspective
Context
Neutrality
Transparency
Logic
Source Quality 3/5
3/5 Score

Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety

Summary

Adequate named sources and data references, but lacks primary sources or direct interviews.

Findings 4

"Mark Twain escreveu que "viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e as mentes limitadas"."

Named historical figure cited.

Named source

"A filósofa Agnes Callard, num ensaio na revista The New Yorker, coloca isso de um jeito meio desconfortável"

Named expert philosopher cited from another publication.

Named source

"1,5 bilhão de visitas internacionais, segundo a ONU"

Data attributed to UN organization.

Tertiary source

"segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC)"

Economic data attributed to industry organization.

Tertiary source
Perspective Balance 4/5
4/5 Score

Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation

Summary

Clear acknowledgment of different viewpoints and factors influencing tourism.

Findings 3

"Durante muito tempo, o turismo foi associado à ideia de liberdade. Viajar significava escolher o destino, o que ver, como experimentar o mundo. Um exercício de autonomia individual – com as restriç..."

Acknowledges traditional view then presents contemporary counterpoint.

Balance indicator

"Na prática, acontece muitas vezes o oposto."

Presents contrasting perspective to common belief about travel.

Balance indicator

"Poderia ser uma boa notícia, mas a lógica se repete"

Acknowledges potential positive interpretation before presenting critical view.

Balance indicator
Contextual Depth 4/5
4/5 Score

Background information, statistics, comprehensiveness of coverage

Summary

Good context with historical references, statistical data, and multiple regional examples.

Findings 4

"Durante muito tempo, o turismo foi associado à ideia de liberdade."

Provides historical context about tourism's traditional meaning.

Background

"1,5 bilhão de visitas internacionais, segundo a ONU"

Provides specific global tourism data.

Statistic

"Em 2024, o número de vistos emitidos para cidadãos russos na Zona Schengen da União Europeia caiu 90% em relação a 2019."

Provides specific geopolitical context with data.

Context indicator

"as chegadas de turistas chineses ao Japão caíram 45% em dezembro de 2025."

Provides specific data point about China-Japan tourism.

Statistic
Language Neutrality 5/5
5/5 Score

Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language

Summary

Completely neutral, factual language throughout with no sensationalism.

Findings 3

"O turismo contemporâneo entre a ampliação de ilusões e o endurecimento de restrições"

Neutral descriptive subtitle.

Neutral language

"Hoje, o ato de viajar é governado por três fatores que raramente aparecem juntos no debate público"

Analytical, non-sensational language.

Neutral language

"A resposta está no cruzamento das três questões."

Balanced, analytical conclusion.

Neutral language
Transparency 4/5
4/5 Score

Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution

Summary

Author and date present, good quote attribution, but no methodology disclosure.

Findings 2

"Mark Twain escreveu que "viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e as mentes limitadas"."

Quote properly attributed to source.

Quote attribution

"A filósofa Agnes Callard, num ensaio na revista The New Yorker"

Secondary source properly attributed.

Quote attribution
Logical Coherence 5/5
5/5 Score

Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation

Summary

No logical issues detected; argument flows coherently from premise to conclusion.

Core Claims

"Contemporary tourism is increasingly less an act of individual freedom due to digital mediation and geopolitics."

Analysis supported by cited experts (Mark Twain, Agnes Callard) and data from organizations (UN, WTTC) Named secondary

"Tourism now involves three intersecting factors: individual desire, digital mediation, and geopolitics."

Analytical framework presented by authors without specific attribution Unattributed

"Geopolitical factors increasingly determine who can travel where and at what cost."

Supported by data on Russian visas, China-Japan tourism, and US tourism decline Named secondary

Logic Model Inspector

Consistent

Extracted Propositions (8)

  • P1

    "Global tourism reached record 1.5 billion international visits in 2025"

    Factual
  • P2

    "Russian visas to EU Schengen zone fell 90% in 2024 compared to 2019"

    Factual
  • P3

    "Chinese tourist arrivals to Japan fell 45% in December 2025"

    Factual
  • P4

    "US international tourism declined 6% in 2025 while Brazil grew 37%"

    Factual
  • P5

    "Digital algorithms suggest destinations rather than allowing discovery causes tourism becomes less spontaneous"

    Causal
  • P6

    "Geopolitical conflicts cause flight cancellations and tourism revenue losses causes Middle East loses $600M daily"

    Causal
  • P7

    "Chinese government discourages travel to Japan during tensions causes Chinese tourist arrivals to Japan decline"

    Causal
  • P8

    "US policies make travelers feel unwelcome causes international tourism to US declines"

    Causal

Claim Relationships Graph

Contradiction
Causal
Temporal
View Formal Logic Representation
=== Propositions ===
P1 [factual]: Global tourism reached record 1.5 billion international visits in 2025
P2 [factual]: Russian visas to EU Schengen zone fell 90% in 2024 compared to 2019
P3 [factual]: Chinese tourist arrivals to Japan fell 45% in December 2025
P4 [factual]: US international tourism declined 6% in 2025 while Brazil grew 37%
P5 [causal]: Digital algorithms suggest destinations rather than allowing discovery causes tourism becomes less spontaneous
P6 [causal]: Geopolitical conflicts cause flight cancellations and tourism revenue losses causes Middle East loses $600M daily
P7 [causal]: Chinese government discourages travel to Japan during tensions causes Chinese tourist arrivals to Japan decline
P8 [causal]: US policies make travelers feel unwelcome causes international tourism to US declines

=== Causal Graph ===
digital algorithms suggest destinations rather than allowing discovery -> tourism becomes less spontaneous
geopolitical conflicts cause flight cancellations and tourism revenue losses -> middle east loses 600m daily
chinese government discourages travel to japan during tensions -> chinese tourist arrivals to japan decline
us policies make travelers feel unwelcome -> international tourism to us declines

All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.

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