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Asfaltamento da BR-319, o primeiro atropelo da ‘lei da devastação’

apublica.org · Giovana Girardi · 2026-04-16 · 1,138 words
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Source Quality 4
Perspective Balance 3
Contextual Depth 4
Language Neutrality 3
Transparency 5
Logical Coherence 5
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Eram favas contadas. O enfraquecimento do licenciamento ambiental no Brasil tinha alguns interesses muito claros por trás. Um deles era facilitar o asfaltamento de um trecho da BR-319, que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), que corta uma das regiões mais preservadas da Amazônia. Trechos incluídos na nova lei foram redigidos sob medida para facilitar a obra polêmica por seu potencial de elevar o desmatamento no entorno.

Pois passados dois meses que a Lei Geral do Licenciamento Ambiental entrou em vigor, o governo federal deu o pontapé para iniciar a pavimentação. A decisão não só contraria nota técnica do Ministério do Meio Ambiente, que mostra os riscos da obra inclusive para as metas climáticas do país, como se vale também de um dos dispositivos da lei que tinha sido vetado pelo presidente Lula. Como o veto acabou derrubado pelo Congresso, os setores do governo interessados na obra não perderam tempo.

O Ministério dos Transportes e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) publicaram na segunda-feira (13) quatro editais abrindo licitação para contratar a empresa que fará as obras de pavimentação.

Conforme muito bem explicado em reportagem de O Globo desta terça-feira (14), a medida se vale de um dispositivo previsto no artigo 8º, inciso 7º, da Lei Geral do Licenciamento, que prevê que não precisam de licenciamento ambiental empreendimentos com "serviços e obras direcionados à manutenção e ao melhoramento da infraestrutura em instalações pré-existentes ou em faixas de domínio e de servidão, incluídas rodovias anteriormente pavimentadas e dragagens de manutenção".

A premissa é que como a BR-319 foi construída originalmente nos anos 1970 e foi pavimentada – o chamado "trecho do meio" acabou sendo abandonado, tomado pela vegetação com o passar dos anos e hoje é basicamente uma estrada de terra esburacada –, a obra agora entraria nesse critério de "melhoramento" de "rodovias anteriormente pavimentadas".

Mas não é tão simples assim. Não é como consertar um asfalto que cedeu em uma rodovia consolidada que corta áreas urbanas. A BR-319 inteira tem quase 900 km. Os primeiros 200, a partir de Porto Velho, estão com asfalto, e os últimos 250, já chegando em Manaus, também. Mas tem o tal "trecho do meio", de mais de 300 km, que é uma buraqueira só, de terra, que vira um atoleiro sem condições de tráfego no período de chuva.

Ou seja, não vai bastar passar uma mão de asfalto por cima. É necessário basicamente reconstruir a rodovia.

E isso, no entendimento do Ibama, que é o órgão licenciador, tem impacto potencial, demanda estudo de impacto ambiental (EIA) e precisa passar por um processo de três fases de licença. A análise da obra começou a ser feita há mais de dez anos, sempre sob muitos questionamentos. Só que no finzinho da gestão Bolsonaro, atropelando todos os pareceres contrários, uma licença-prévia (LP) foi concedida.

Se, por um lado, para os moradores da região, para quem precisa trafegar pela estrada, o asfaltamento é uma necessidade real, por outro, uma obra sem os devidos cuidados e controles pode impulsionar uma nova onda de desmatamento na Amazônia, comprometendo a produção de chuvas e a regulação climática. Para muitos especialistas, pode ser a pá de cal a decretar o chamado ponto de não retorno da Amazônia, o colapso.

É justamente esses riscos que um processo de licenciamento ambiental bem feito pode tentar evitar, ao estabelecer, por exemplo, condicionantes – como a criação de áreas protegidas –, que podem exercer um papel extra de proteção contra o desmatamento.

O Dnit e o Ministério dos Transportes, ao lançarem mão do dispositivo da lei geral do licenciamento, tentam tratorar esse processo, como afirma Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima. Lembrando que o asfaltamento da BR-319 já é sujeito de um processo de licenciamento junto ao Ibama.

O OC anunciou nesta quinta-feira (16) que vai entrar com uma Ação Civil Pública pedindo a anulação dos editais do Dnit. O entendimento é que eles violam a Constituição Federal e princípios do Direito Ambiental e do Direito Administrativo, além de representarem um enorme risco ao controle do desmatamento na Amazônia.

"A Constituição estabelece que empreendimentos pot
encialmente causadores de significativo impacto ambiental precisam de EIA. E o EIA só existe no âmbito de licenciamento. Nesse processo da 319, o Ibama, que é a autoridade licenciadora, considerou esse asfaltamento como de significativo impacto, portanto, pediu o EIA", explica Suely. Ou seja – todo o trâmite do licenciamento, em três fases, precisa ser seguido até o fim. Não dá para considerar que a obra pode agora pegar o fast track com base em uma interpretação da nova lei.

"Interpretar o inciso 7º do artigo 8º da Lei Geral do Licenciamento de forma isolada pode parecer que o asfaltamento da BR-319 tá enquadrado na não sujeição do licenciamento, mas a interpretação em direito é sistêmica. Se tem um dispositivo na Constituição sobre o tema, é ele que vale, não importa o que diz a lei geral. Fora que não cabe ao Dnit dizer que se trata de um 'melhoramento'. É a autoridade licenciadora que tem de qualificar cada empreendimento. Nesse caso, é o Ibama", continua.

O próprio processo anterior de licenciamento, porém, está sob contestação. A licença-prévia (LP), que é a primeira fase do processo, concedida no governo Bolsonaro, está sendo questionada na Justiça desde janeiro de 2024 pelo próprio Observatório do Clima, que alerta que o Ibama de Bolsonaro desconsiderou as análises do corpo técnico do Ibama que pediam mais cuidado com a obra.

De acordo, mais uma vez, com Suely, os técnicos do órgão ambiental tinham alertado para os riscos de desmatamento. De fato, só a concessão da LP em 2022 já tinha feito o desmatamento especulativo no entorno da BR-319 dobrar.

"Mesmo com as análises do Ibama terem alertado para o problema, foi concedida a licença-prévia sem condicionantes que garantam realmente o controle do desmatamento. Foi dado um atestado de viabilidade sem que essa viabilidade estivesse comprovada no processo", diz a especialista – ela mesma uma ex-presidente do Ibama.

Quer dizer, o lic
enciamento, em si, já estava paralisado. E agora os órgãos de transporte do governo federal tentam passar por cima disso e fazer a obra sem licenciamento nenhum. É o típico caso para validar os principais temores de cientistas e ambientalistas que, não à toa, tinham apelidado o projeto de lei de "PL da devastação". Exemplifica tanto as brechas que foram criadas pela lei como dá uma ideia de como vão chover casos de judicialização daqui para frente.

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Source Quality
Perspective
Context
Neutrality
Transparency
Logic
Source Quality 4/5
4/5 Score

Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety

Summary

Good use of named expert sources and official documents, but relies heavily on one expert and cites another media report.

Findings 4

"Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima"

Named expert source with clear credentials.

Named source

"sta – ela mesma uma ex-presidente do Ibama. Quer dizer, o lic"

Expert source with relevant institutional background.

Named source

"Conforme muito bem explicado em reportagem de O Globo desta terça-feira (14)"

Cites another media outlet as a source.

Tertiary source

"O Ministério dos Transportes e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) publicaram na segunda-feira (13) quatro editais"

References official government documents (editais).

Primary source
Perspective Balance 3/5
3/5 Score

Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation

Summary

Acknowledges the road's necessity for locals but heavily emphasizes environmental risks and legal opposition.

Findings 3

"Se, por um lado, para os moradores da região, para quem precisa trafegar pela estrada, o asfaltamento é uma necessidade real, por outro, uma obra sem os devidos cuidados e controles pode impulsiona..."

Explicitly presents two sides of the issue.

Balance indicator

"É o típico caso para validar os principais temores de cientistas e ambientalistas que, não à toa, tinham apelidado o projeto de lei de "PL da dev"

Framing strongly aligns with environmentalist perspective.

One sided

"O entendimento é que eles violam a Constituição Federal e princípios do Direito Ambiental"

Presents only the legal challenge perspective.

One sided
Contextual Depth 4/5
4/5 Score

Background information, statistics, comprehensiveness of coverage

Summary

Provides substantial historical, legal, and environmental context with specific data.

Findings 4

"a BR-319 foi construída originalmente nos anos 1970"

Provides historical background.

Background

"A BR-319 inteira tem quase 900 km. Os primeiros 200, a partir de Porto Velho, estã"

Provides specific geographical data.

Statistic

"passados dois meses que a Lei Geral do Licenciamento Ambiental entrou em vigor"

Provides temporal context for the policy action.

Context indicator

"só a concessão da LP em 2022 já tinha feito o desmatamento especulativo no entorno da BR-319 dobrar"

Provides data on environmental impact.

Statistic
Language Neutrality 3/5
3/5 Score

Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language

Summary

Mostly factual but uses several loaded terms framing the project negatively.

Findings 3

"tentam tratorar esse processo"

Uses metaphor of 'bulldozing' the process.

Sensationalist

"pode ser a pá de cal a decretar o chamado ponto de não retorno da Amazônia, o colapso"

Uses dramatic language ('final nail', 'collapse').

Sensationalist

"A análise da obra começou a ser feita há mais de dez anos, sempre sob muitos questionamentos."

Factual reporting of timeline.

Neutral language
Transparency 5/5
5/5 Score

Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution

Summary

Full author attribution, date, clear quote attribution, and methodology of citing documents.

Findings 2

"mazônia. "A Constituição estabelece que empreendimentos pot"

Quotes clearly attributed to source.

Quote attribution

"publicaram na segunda-feira (13) quatro editais"

References specific official documents as evidence.

Methodology
Logical Coherence 5/5
5/5 Score

Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation

Summary

No logical inconsistencies detected; arguments are sequentially built.

Logic Issues

Contradiction · high

Conflicting values for 'the': 319 vs 13

"Heuristic: Values conflict between P1 and P2"

Core Claims

"The government is using a loophole in the new environmental licensing law to bypass proper licensing for paving the BR-319 highway."

Analysis by Suely Araújo and reference to official government editais. Named secondary

"This paving project poses significant risks of increased deforestation in the Amazon."

Expert analysis by Suely Araújo and reference to Ibama technical reports. Named secondary

Logic Model Inspector

Inconsistencies Found

Extracted Propositions (6)

  • P1

    "The BR-319 highway was originally built in the 1970s."

    Factual In contradiction
  • P2

    "The Ministry of Transport and DNIT published four bidding notices on Monday (13th)."

    Factual In contradiction
  • P3

    "The Observatório do Clima will file a Public Civil Action to annul the DNIT notices."

    Factual
  • P4

    "Weakening environmental licensing causes facilitated paving of BR-319"

    Causal
  • P5

    "Paving without proper controls causes could boost deforestation wave"

    Causal
  • P6

    "Granting preliminary license in 2022 causes speculative deforestation around BR-319 doubled"

    Causal

Claim Relationships Graph

Contradiction
Causal
Temporal

Detected Contradictions (1)

  • 1
    Involved propositions: P1 P2

    Conflicting values for 'the': 319 vs 13

    Show formal proof
    Heuristic: Values conflict between P1 and P2
View Formal Logic Representation
=== Propositions ===
P1 [factual]: The BR-319 highway was originally built in the 1970s.
P2 [factual]: The Ministry of Transport and DNIT published four bidding notices on Monday (13th).
P3 [factual]: The Observatório do Clima will file a Public Civil Action to annul the DNIT notices.
P4 [causal]: Weakening environmental licensing causes facilitated paving of BR-319
P5 [causal]: Paving without proper controls causes could boost deforestation wave
P6 [causal]: Granting preliminary license in 2022 causes speculative deforestation around BR-319 doubled

=== Constraints ===
P1 contradicts P2
  Note: Conflicting values for 'the': 319 vs 13

=== Causal Graph ===
weakening environmental licensing -> facilitated paving of br319
paving without proper controls -> could boost deforestation wave
granting preliminary license in 2022 -> speculative deforestation around br319 doubled

=== Detected Contradictions ===
UNSAT: P1 AND P2
  Proof: Heuristic: Values conflict between P1 and P2

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