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O dia de Gonzaga - revista piauí

piaui.uol.com.br · Guilherme Henrique; Thales Guaracy · 2026-04-19 · 8,094 words
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Tomás Antônio Gonzaga foi mártir esquecido da Inconfidência Mineira Ilustração: João Pinheiro

O dia de Gonzaga

O verdadeiro mártir da Inconfidência Mineira foi o povo brasileiro

Na madrugada de 18 de maio de 1789, um mensageiro de
rosto encoberto bateu à porta de um sobrado alugado em frente ao Largo de Coimbra, em Vila Rica de Ouro Preto, de cujas janelas se avista do outro lado a Igreja de São Francisco. Avisou o morador, Tomás Antônio Gonzaga, poeta e ouvidor da capitania de Minas Gerais, que tinham sido presos no Rio de Janeiro o alferes Joaquim José da Silva Xavier e o coronel Silvério dos Reis. Recomendou-lhe a fuga imediata.

Como líder da conspiração republicanista em andamento, da qual era o mentor intelectual, Gonzaga tinha razões para levar o conselho a sério. Sua decisão naquela manhã marcou seu próprio destino e, indiretamente, o do Brasil. O poeta tinha três opções: fugir, como sugeria o mensageiro; enfrentar a situação, como se propunham os inconfidentes republicanistas; ou não fazer nada.

Estava em jogo encarar de frente a monarquia absolutista portuguesa, que proibia na colônia qualquer iniciativa de autonomia, incluindo a criação de universidades, tipografias e qualquer tipo de indústria, quando na Inglaterra a industrialização já avançava a passos largos, criando uma riqueza motora do desenvolvimento.

Havia outras nações lutando para se libertar das amarras do passado. Treze anos antes, um grupo de treze colônias na América do Norte já tinha declarado independência do Império Britânico, começando uma guerra que levaria à fundação dos Estados Unidos da América. Estava em curso ainda uma revolução na França, da qual Gonzaga tinha notícia por correspondentes. Lá, os inconfidentes haviam pedido apoio militar e econômico a Thomas Jefferson, então representante diplomático dos Estados Unidos em Paris.

Gonzaga sabia que o mundo estava se movendo e
aquele era um momento chave para o progresso. Ele sabia também que deixar as coisas como estavam seria jogar as capitanias de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, sede do vice-reinado, pontas de lança de toda a colônia brasileira, em uma inércia com graves consequências para o futuro.

Das três opções à sua frente, naquela madrugada, porém, escolheu a terceira: não fazer nada.

O movimento que visava separar de Portugal as
capitanias de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, transformando-as em uma só república, era uma possibilidade real. Em meados do século, a comarca de Vila Rica era a maior povoação do Brasil, mesmo localizada numa região de difícil acesso, no meio da Serra do Espinhaço, a mais de 400 km do Rio de Janeiro. A comarca tinha 79 mil habitantes, sem contar os indígenas cristãos, enquanto Salvador contava com 46 mil pessoas, e o Rio de Janeiro, 39 mil. Até Nova York era menos povoada que a cidade mineira: viviam lá 33 mil pessoas.

Mais importante, a conspiração envolvia uma parcela expressiva da elite colonial, a começar pelo próprio Gonzaga. Segundo homem na hierarquia da capitania, ficava atrás apenas do recém-empossado governador, o português Luís Antônio Furtado de Castro do Rio de Mendonça, visconde de Barbacena. Entre os inconfidentes, Gonzaga estava cotado para ser o primeiro chefe de Estado da futura república, à frente possivelmente de um triunvirato que governaria até a superação de uma provável reação de Portugal.

Junto com ele, estavam eminentes "coronéis" – fazendeiros autorizados pela Coroa a ter suas próprias milícias –, sacerdotes e oficiais de alta patente, incluindo o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do Regimento de Dragões de Vila Rica, mais graduado militar da comarca, chefe hierárquico do alferes Xavier.

O momento pedia coragem. A Derrama, cobrança de impostos que seria usada para obter apoio popular ao movimento, havia sido suspensa pelo governador, depois que Xavier tinha partido para o Rio de Janeiro com a missão de deflagrar o levante na capital do vice-reino, centro político e porto estratégico para a economia da futura república. Agora, acontecia a prisão dos dois inconfidentes, segundo aquele misterioso personagem cuja identidade jamais foi revelada.

Ouvida nos Autos
de Devassa, inquérito policial aberto para apurar as responsabilidades na conspiração tramada na capitania, Antônia da Costa, escrava do advogado e poeta Cláudio Manuel da Costa, descreveu o mensageiro misterioso como um "vulto que não se distinguiu se era homem ou mulher por vir rebuçado e com chapéu desabado na cabeça, carregado sobre os olhos". Identificado pelo escrivão nos autos como "O Embuçado", batera na janela da casa de Manuel da Costa, uma centena de metros ladeira abaixo, antes de ir à de Gonzaga. Como o advogado não se encontrava, deixou com a escrava o conselho de que o patrão queimasse seus papéis, antes de escapar.

Manuel da Costa, então com 60 anos, sofria de reumatismo e relutou em fugir. Gonzaga também. Agarrou-se à convicção de que não havia como provar sua participação na trama. Uma testemunha, José Veríssimo da Fonseca, afirmou mais tarde no inquérito ter-lhe perguntado se sabia quem era o "Embuçado". O ouvidor respondeu-lhe que não, imaginando ser "aviso de algum inimigo que queria que ele fugisse só para o fazer culpado de crime que não tinha".

Ao decidir ficar em casa, Gonzaga abriu mão de vez da república da qual seria líder. Em seu lugar, acabaria c
ondenado exemplarmente o alferes Xavier, conhecido como o Tiradentes – por ganhar um dinheiro extra com o boticão –, que se transformaria no futuro herói da conspiração fracassada.

Como consequência, nada mudaria na colônia sob o domínio da monarquia absolutista portuguesa e no seu regime de exploração extrativista e agrária, justo num momento em que se constituíam as potências do futuro – isto é, de hoje.

No dia 21 de abril, data do enforcamento de Tiradentes em 1792, o Brasil celebra oficialmente a figura representativa do espírito da Inconfidência Mineira – republicanista, ou antimonarquista, associado à independência e à liberdade. Não há um Dia de Gonzaga, ou seja, das razões que levaram à frustração do projeto político cuja ambição era lançar um pedaço pioneiro do Brasil no que se chama hoje de Primeiro Mundo. Em vez disso, o mentor intelectual e líder do movimento acabou mais conhecido nos livros escolares como expoente da poesia arcadiana, patrono da cadeira de número 36 da Academia Brasileira de Letras. Manuel da Costa também ganhou sua homenagem literária: é patrono da cadeira número 8.

A inversão de papéis, que criou um herói involuntário, transformado em símbolo de um movimento fracassado, no qual era apenas subalterno, enquanto preservava o aristocrata Gonzaga, que depois voltou a ficar rico e mundialmente famoso com o livro que terminou de escrever na prisão, colocou em segundo plano também as razões da conspiração. Ela juntou fazendeiros endividados a militares revoltosos e intelectuais desgostosos com um cenário que, previam, traria sequelas danosas a eles em particular, mas também a toda a colônia.

Não havia ainda uma ideia do Brasil, ou um sentimento propriamente nacionalista, entre os nascidos ou criados na colônia, que se consideravam apenas "portugueses do ultramar". Eles tinham, no entanto, consciência das restrições à economia, proibidos de fazer qualquer produto manufaturado, que se obrigavam a importar de Portugal, desde o sal até ferramentas. A exceção eram roupas feitas de "algodão grosseiro" para a "escravaria", de acordo com decreto da rainha Maria I, de 1785. Sabiam, também, que aumentava ano a ano o peso dos impostos (os "quintos dos infernos") e que a colônia ficava para trás, depois de ter sido vanguarda no século anterior, quando liderava o comércio internacional do açúcar. O Brasil ficava estagnado, enquanto o resto do mundo se movia rápido.

A república federalista – que as treze colônias americanas instituíram em 1776, logo no início da guerra de independência contra o Império Britânico – foi concebida para resolver tudo isso de uma vez. Ao falhar, cedendo ao atraso, comprometeu o futuro. A República só foi proclamada no Brasil um século depois da prisão dos inconfidentes, em 1889, ou seja, 73 anos depois da Argentina e 68 anos após o Peru.

Em 14 de julho de 1789, dois meses após Gonzaga e outros conspiradores terem ido para a cadeia, uma multidão invadiu a fortaleza da Bastilha, em Paris. Foram libertados sete presos, deflagrando a Revolução Francesa, que começou impondo a obediência do rei Luís XVI a uma Constituição popular.

Nas masmorras de Vila Rica e do Rio de Janeiro, nada.

"No início da colonização, era conveniente para o próprio monarca que os poderes locais gozassem de maior autonomia, com menor centralização", afirmou o historiador Luiz Alberto Ornellas Rezende, da Universidade de São Paulo (USP), em A Câmara Municipal de Vila Rica e a consolidação das elites locais (1711-1736). Nos 1700, porém, a situação mudou.

Para cortar as asas da elite local, a Coroa portuguesa destituiu e confiscou os bens dos antigos donatários e a partir de 1759 passou a nomear administradores portugueses para governar as capitanias. Visava retomar o controle da colônia e, sobretudo, assegurar a arrecadação de impostos, especialmente sobre o ouro extraído desde o início do século nas Minas Gerais. Portugal estava em reconstrução, depois de arcar com a guerra da separação da Espanha, no século anterior, e enfrentar um terremoto seguido de tsunami que praticamente destruiu Lisboa, em 1755.

Como resultado, o Brasil passou a arcar com a exploração econômica draconiana para pagar aquela conta. O sistema fiscal mudou várias vezes ao longo do século, fixando-se num pagamento mínimo anual sobre o ouro e contratos de exploração de serviços públicos por agentes privados que garantiam o Estado português contra o contrabando e a sonegação. Com a queda na produção do ouro, a "pensão" mínima exigida pelo Estado português, como era chamada, tornou-se escorchante.

Muitos fazendeiros e contratadores particulares de serviços públicos tornaram-se devedores crônicos da Coroa – entre eles o "coronel" Silvério dos Reis, que procurou o governador Barbacena para fazer um acordo que hoje em dia seria considerado "delação premiada": liberdade e perdão para suas dívidas, em troca da revelação da conspiração e da lista de participantes. Nos Autos da Devassa, é arrolado como a "testemunha número 1". Foi ele também que, no Rio de Janeiro, recebeu um pedido de ajuda de Tiradentes e assim pôde dedurar onde o alferes se encontrava – um armazém da Rua dos Latoeiros (depois Rua Gonçalves Dias), perto da sede do governo.

No dia seguinte à aparição do Embuçado, 23 de maio, pela manhã, Gonzaga foi acordado com a guarda à sua porta. Ali perto, Manuel da Costa também foi levado pelos esbirros. A "inconfidência" mineira originalmente não se referia a um movimento político, e sim ao crime tipificado na legislação portuguesa que indicava conspiração, ou algo que ainda não tinha sido colocado em prática – nesse caso, passava a "conjuração".

Gonzaga negou ter participado de qualquer trama em seu primeiro depoimento ao ouvidor de Sabará, José Caetano César Manitti, escrivão da Devassa, que o conhecia muito bem. Ambos tinham sido nomeados para a ouvidoria no mesmo dia e frequentavam os mesmos lugares. Declarou que se casaria na semana seguinte com Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, de maneira que não poderia lhe passar pela cabeça tramar uma conspiração bem naquele ponto, também pelo fato de que estava sendo oficialmente transferido de capitania. Lembrou que, no dia da visita do Embuçado, véspera de sua prisão, recebeu em casa um grupo de convidados à noite, entre os quais se encontravam Manuel da Costa, Francisco Gregório Pires Monteiro, intendente de Vila Rica, e o próprio escrivão Manitti.

Na ocasião, Manuel da Costa queixou-se de ter sido mencionado em uma "denúncia do Coronel Inácio José de Alvarenga e do Cônego Luiz Vieira da Silva". Gonzaga, anotou o escrivão, deu "menos preço" à possibilidade de serem presos e, "dando as razões por que parecia isto impossível, concluiu dizendo que quando eles saíssem, ia fazer uma ode, que tão sossegado ficava no seu espírito".

Enquanto se davam os primeiros depoimentos, outras prisões foram feitas, de forma seletiva. Mais tarde, chamou a atenção que alguns conspiradores demoraram a ser encarcerados, como o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, chefe do estado-maior do regimento da capitania, comandante das tropas imperiais de Minas Gerais.

O mesmo descaso se deu com Álvares Maciel, cunhado de Paula Freire, engenheiro de minas formado em Birmingham, na Inglaterra, que conheceu Barbacena no navio que trouxe o governador de Lisboa para a posse. Era preceptor dos filhos de Barbacena e morava com ele no Palácio da Cachoeira, nas proximidades de Vila Rica.

O próprio Barbacena se encontrava em xeque: ou tinha colaborado com os conspiradores, ou fora incompetente, por não desarmar a conspiração antes. Seu amigo João Rodrigues de Macedo, que explorava a Casa dos Reais Contratos, espécie de cartório de todos os negócios em Vila Rica, tinha um salão no segundo andar onde os conspiradores costumavam se reunir com o anfitrião, jogando cartas, em noitadas que por vezes iam até a três da manhã. Também não havia sido incomodado. Ao contrário, alugou o porão do casarão na Rua São José, conhecido como a Casa dos Contos, para colocar os inconfidentes presos, que já não cabiam todos na cadeia local.

No início, era Barbacena quem selecionava os presos a serem enviados ao Rio de Janeiro. Em 21 de maio de 1789, comunicou que estava despachando Gonzaga. Informava ao vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, seu tio, não ter oficialmente iniciado uma Devassa, sob a alegação de não "espalhar o pânico na Capitania" e assim dificultar a prisão de outros suspeitos. Só abriu a Devassa oficialmente em junho, quando chegaram do Rio de Janeiro duas companhias de infantaria, instaladas também na Casa dos Contos.

Para o vice-rei, já estava claro quem era o líder da conspiração. "A principal cabeça desta abominável maldade é Tomás Antônio Gonzaga, que acabou de exercer o cargo de Ouvidor de Vila Rica e se achava despachado [transferido] para a Relação da Bahia, unido a seus grandes amigos Inácio José de Alvarenga [Peixoto], que tendo sido Ouvidor em Rio das Mortes, é coronel de Auxiliares e grande devedor à Fazenda Real; e Carlos Correia de Toledo, vigário da Vila de São José del-Rei", escreveu o vice-rei a Martinho de Melo e Castro, secretário da Marinha e Ultramar, em Portugal.

Vasconcelos e Sousa não menciona Manuel da Costa. Uma semana depois de ter sido encarcerado "em segredo", o advogado foi interrogado. Seu depoimento, em 2 de julho de 1789, desapareceu. Surgiria pela mão de uma fonte não identificada 114 anos depois, em 1903, quando foi publicado pela editora Garnier como apêndice da sua obra poética.

No depoimento, Manuel da Costa negava ter participado do movimento, cujos integrantes chamava de "loucos". Confirmava ser amigo de Gonzaga, que sabia ter sido preso, conforme anotou o escrivão – "e, como o dito Des. Gonzaga tinha alguns inimigos bastante poderosos – e estes eram também os dele, Respondente, por consequência de amizade – era infalivelmente certo tentarem para logo compreendê-lo por sócio aprovador ou consentidor daquele atentado".

Apontou os principais participantes do levante, a começar por Gonzaga, de quem ouvira "conversar sobre a dita matéria" na casa dele. Afirmava que não havia qualquer sinal de que a conspiração se levava a cabo, exceto "pelo rumor que já havia excitado um alferes, por alcunha o Tiradentes, andando em casa de várias pessoas". Afirmou que considerava tudo aquilo "ridículo e digno de mofa", por considerar impossível que alguém pudesse "sair à luz e produzir tão escandalosos feitos".

No depoimento, Manuel da Costa sugere estar em confronto direto com o governador, "pelas imensas intrigas e calúnias" com que o teria "denegrido". Ouvira dos esbirros que o prenderam que, segundo o governador, havia sugerido que Barbacena sabia da conspiração, assim como o Regimento de Vila Rica, todos "responsáveis, senão coniventes, pois ouviram os ditos de Tiradentes e não tomaram quaisquer providências", conforme o pesquisador Tarquínio José Barbosa de Oliveira.

Manuel da Costa teria ainda dito a Gonzaga que Barbacena fizera bem em trazer a família toda ao Brasil, para que ela não sofresse retaliações em Portugal por ele se juntar à sublevação. Em seu depoimento, o advogado procurou fugir da responsabilidade por tais declarações, dizendo tratar-se de "gracejos". Seu testemunho foi juridicamente invalidado, sob a alegação de inadequações processuais, como a falta, no interrogatório, da formalidade dos juramentos aos "Santos Evangelhos", exigindo-se um novo depoimento "legal".

Não teve essa oportunidade. Dois dias depois de depor, na manhã do dia 4 de julho de 1789, sábado, foi encontrado morto num salão da Casa dos Contos, cuja janela dava para a rua. Conforme interpretado pelos legistas, o advogado teria se enforcado com o cordão do próprio sapato em uma "prateleira" com uma altura menor que a dele próprio.

Além daquele depoimento que terminou no suicídio conveniente de Manuel da Costa e da leniência com outros suspeitos, o vice-rei passou a queixar-se ao Conselho Ultramarino dos "embaraços opostos à sua atividade" pelo sobrinho, dificultando o trabalho dos "ministros" enviados por ele para acompanhar e fiscalizar a investigação. Reclamava também do atraso no envio de informações. "O governador de Minas, longe de concorrer para o acerto da diligência, com sinceridade usou de toda a indústria para demorar o mesmo ministro [o desembargador José Pedro Machado Coelho Torres] inutilmente e não lhe restou quaisquer auxílios e instruções que se podiam e que deviam prestar", escreveu Vasconcelos e Sousa ao secretário Melo e Castro.

Receou pelos outros presos em Vila Rica, que poderiam ter "a mesma triste consequência" do "réu Cláudio Manuel da Costa" – ou seja, apesar do que haviam assinado os legistas, entendia a morte do advogado como o que se chamaria hoje de "queima de arquivo".

No dia 20 de setembro, com a ordem do tio para que mandasse todos os que estavam sob custódia ao Rio de Janeiro, Barbacena reabriu o inquérito em Vila Rica, de maneira a criar um processo paralelo, que ele pudesse controlar, e confrontar o outro, se necessário. Pelo mesmo motivo, recusou-se a entregar os autos da Devassa de Vila Rica ao Rio de Janeiro, sob a alegação de que os remeteria diretamente a Melo e Castro, no Conselho Ultramarino.

Tomás Antônio Gonzaga foi mais cuidadoso em seu depoimento, provável razão pela qual saiu dele vivo. Há muito tempo ele e Manuel da Costa faziam inimigos, como o sargento José de Vasconcelos Parada e Sousa, cobrador das dívidas junto à Fazenda Real, que satirizavam nas Cartas chilenas, poema apócrifo cuja autoria era difícil de provar, mas não de deduzir. Aplicando-lhe o pseudônimo de Padela, denunciavam no poema seus "abusos e traficâncias".

Tais abusos por parte dos prepostos da Coroa eram o principal alvo da crítica dos inconfidentes. A tirania sustentava a corrupção de governantes e uma situação econômica inaceitável. Como todo o comércio devia ser feito exclusivamente com Portugal, seja para a importação de manufaturados como para a exportação, sobretudo de ouro, açúcar e fumo, os produtores dependiam dos preços afixados pelos oligopolistas, que ficavam com a maior parte do lucro.

Outras medidas asseguravam a dependência da colônia brasileira. Estava proibida a impressão de tabloides e livros. Só era possível estudar e obter uma especialização profissional em Portugal ou em outros países da Europa. Nesse século, havia doze instituições de ensino superior na América de colonização espanhola – nenhuma no Brasil.

Na prática, todos os habitantes não portugueses da colônia, como vassalos do rei, sujeitos a punição inclusive física por desobediência e dependentes em tudo do poder imperial, sem qualquer garantia legal, eram como escravos – e os escravos, escravos de escravos. Cartas do Tiradentes, por exemplo, mostram que ele tinha de pedir autorização à Coroa, em Lisboa, para abrir no Rio de Janeiro um simples armazém, comprar um terreno próximo do porto, ausentar-se da corporação militar e viajar a Portugal.

Por intermédio dos governadores portugueses, Portugal mantinha os vassalos sempre se esforçando à espera de receber algum privilégio como recompensa, especialmente na distribuição de sesmarias e contratos, em vez de sublevar-se. Quando surgiram movimentos revoltosos para defender os interesses locais, esbarraram na invasão de portugueses, que se tornaram mais fortes, inclusive numericamente.

Na primeira metade do século, cerca de 400 mil portugueses migraram para o Brasil, de acordo com o estudo demográfico da historiadora Maria Luíza Marcílio, da USP, no trabalho A população do Brasil colonial. Era cerca de um quarto da população de Portugal e três vezes mais que a população colonial no início do século. Incluídos os escravos africanos importados para a lavoura, os engenhos e o trabalho nas minas, a população colonial saltou de cerca de 500 mil habitantes em 1720 para mais de 1,5 milhão de pessoas em 1780, de acordo com as Estimativas de população para o Brasil, séculos XVIII e XIX, de Tarcísio Rodrigues Botelho, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Gente que migrou sobretudo para a corrida do ouro, sua presença aumentava a insatisfação dos locais, com a expulsão de muitos pioneiros paulistas da região das minas (a Guerra dos Emboabas), e o massacre e prisão dos senhores de engenho pernambucanos (a Guerra dos Mascates). Essa ocupação da colônia pelos portugueses trazia insatisfação a todos aqueles que se sentiam esquecidos pelo poder.

Era o caso do próprio Tiradentes, filho de português, pequeno proprietário de terras, sem sucesso no garimpo, que na corporação tinha sido promovido a chefe da patrulha do Caminho Novo, por onde passava o ouro rumo ao Rio de Janeiro. Queixava-se de nunca receber aumento de salário, enquanto colegas avançavam na carreira de modo para ele inexplicável.

Quando a produção de ouro na região das Minas começou a se esgotar, a partir da década de 1760, o sistema de cobrança anual de um mínimo garantido pago à Fazenda Real pelos garimpeiros, pago por meio das Câmaras das Vilas, tornou-se um fardo. A queda na atividade econômica levou contratadores de serviços públicos, como Joaquim de Macedo, que também deviam valores afixados, a não honrar também os pagamentos.

A Fazenda Real apertou os controles, visando sobretudo o contrabando. "Após 1760, com o declínio na extração de metais, somado à redução nas rendas régias em vários setores da economia colonial, a tônica centralista foi ampliada e se intentou uma racionalização administrativa muito mais eficaz, como alternativa para viabilizar a continuidade das práticas mercantilistas na Colônia", afirmou o relatório do Arquivo Nacional Fiscais e meirinhos: a administração no Brasil colonial, coordenado pela pesquisadora Graça Salgado.

A cobrança das dívidas atrasadas colocou contratadores e barões do garimpo, mesmo os portugueses, contra o sistema. Uma geração de filhos de senhores de engenho e altos funcionários que voltava de seus estudos na Europa contaminava-se pelas ideias iluministas, contestadoras dos regimes oriundos do feudalismo. Eram os "rábulas", ou "espíritos inquietos", como os definiu o ex-vice-rei do Brasil, Luís de Almeida Portugal Mascarenhas, marquês do Lavradio.

Por seu preparo intelectual e posição, o principal deles era Gonzaga.

Nascido em 1744 no Porto, o ex-ouvidor de Vila Rica vinha de uma família tradicional no direito. Filho do desembargador João Bernardo Gonzaga, brasileiro que vivia em Portugal, para onde foi trabalhar no Serviço Real, Tomás Antônio Gonzaga veio ao Brasil aos 8 anos de idade, em 1752. Estudou no colégio de jesuítas da Bahia e, em 1761, voltou a Portugal para estudar direito em Coimbra. Foi juiz de fora em Beja e nomeado ouvidor-geral de Vila Rica em 1782.

Como ouvidor, encarregava-se de fiscalizar a capitania. Ouvidores trabalhavam no regime de "residência" – mudavam para ouvir as queixas da população após a saída de um governante. O campo ficava mais aberto para a verificação de problemas da gestão anterior, como atraso na execução de ordens, obstrução da justiça e corrupção.

Em Vila Rica, Gonzaga aproximou-se por afinidade de Manuel da Costa, juiz medidor de terras na Câmara, e do coronel Inácio José de Alvarenga Peixoto. Formado em direito em Coimbra, ex-juiz em Sintra, Alvarenga Peixoto tinha sido ouvidor em Rio das Mortes, atual São João del-Rei, onde possuía terras com engenho de açúcar, moinhos e gado. Tinha a patente de coronel, como outros fazendeiros autorizados a formar milícia particular, cuja função oficialmente era estar disponível para a guarda imperial em caso de conflito.

A patente militar, contudo, não dava tanto prestígio quanto a poesia, cultivada em meio à fina flor da sociedade colonial como símbolo de ascensão social. Os poetas de Vila Rica mimetizavam as correntes literárias europeias, impregnando seus poemas com o bucolismo do campo, que se contrapunha ao rebuscamento do barroco. "Não eram sujeitos revoltosos, dotados de concepção burguesa e individualista; tampouco os versos que produziram expressariam o éthos aguerrido dos 'inconfidentes'", afirma o professor de cultura e literatura brasileira Jean Pierre Chauvin, da USP.

Os "árcades" identificavam-se como portugueses da "colônia ultramarina". Na poesia, seguiam os cânones gregos, conforme a norma culta europeia, assim como Pedro Antônio Correia Garção, Filinto Elísio, Bocage e outros poetas portugueses, seus contemporâneos. Alvarenga Peixoto, Basílio da Gama e Silva Alvarenga compuseram odes para a inauguração em 1775 da estátua equestre do rei José I, na Praça do Comércio, em Lisboa, como parte da restauração da Baixa após o terremoto de vinte anos antes, realizada em boa parte com a contribuição da colônia brasileira. No Brasil, foi Cláudio Manuel da Costa quem inaugurou o arcadismo, com suas Obras poéticas, de 1768, dizendo na introdução do livro que sua "pátria" era Mariana, onde nascera, cidade mineira que ele considerava um prolongamento natural de Portugal, lamentando não desfrutar das "delícias do Tejo, do Lima e do Mondego".

Contudo, os poetas árcades defendiam, quando necessário, os interesses da elite local contra os governantes atrabiliários, como nas Cartas chilenas, escritas entre 1786 e 1789, provavelmente por Gonzaga, sob o pseudônimo de Critilo, em parceria com Alvarenga Peixoto.

As missivas eram dirigidas a Manuel da Costa, identificado nos escritos como Doroteu. O Chile, na verdade, é um disfarce para a comarca de Vila Rica. O Fanfarrão Minésio é o governador Luís da Cunha Meneses – predecessor de Barbacena, responsável maior por "crimes e desordens aos milhares". As cartas destilam "certo mordente satírico em relação aos abusos dos tiranetes, aos juízes venais, ao clero fanático", nas palavras de Alfredo Bosi, na sua clássica História concisa da literatura brasileira.

"Que império pode um povo sustentar, que só se forma de nobres sem ofícios?", escreveu Critilo nas Cartas chilenas. Gonzaga não olhava de forma azeda apenas para a gestão dos "reinóis", como para a própria formação colonial brasileira, quando os luso-brasileiros promoveram o extermínio dos indígenas, sob o pretexto de que, mesmo sendo à "nossa semelhança enquanto aos corpos, não eram como nós enquanto às almas". Denunciava também a Fazenda Real, que executava somente as dívidas do "pobre, porque é pobre", enquanto o rico "vai pagando sem soldados à porta, com sossego".

Esse foi o ponto de convergência dos poetas com os empreendedores locais, endividados com o Fisco e afastados do poder por Barbacena. Estavam insatisfeitos também os sacerdotes, suspeitos de contrabando de ouro, proibidos de cobrar pelos serviços religiosos e de fazer negócios, com seus proventos reduzidos a um salário pago pelo Estado, assim como os militares de carreira, com promoções suspensas e soldos reduzidos.

Em 1788, quando o Conselho Ultramarino resolveu apertar a cobrança de impostos, o secretário Melo e Castro, na carta em que designava as tarefas de Barbacena, decidiu que uma delas seria cobrar também toda a dívida atrasada dos mineiros com a Coroa, calculada por ele em 582 arrobas de ouro – mais 40 marcos, 54 grãos e um quinto do metal, para mostrar a precisão do cálculo –, o que correspondia a cerca de 8,6 toneladas.

Ao dar plenos poderes para isto a Barbacena, um dos fundadores da Academia Real de Ciências de Lisboa, primo de sua esposa, Melo e Castro instigou os revoltosos. A reação formou-se em torno de Gonzaga e Manuel da Costa, os dois integrantes mais preparados para elaborar o arcabouço teórico-legal de uma república independente, que muitos viam como única saída daquela enrascada. A eles se juntaram o tenente-coronel Freire de Andrade e outros militares de alta patente, como Francisco Antônio de Oliveira Lopes, coronel do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Vila de São João del-Rei.

Parte da estratégia era difundir o boato de que a cobrança das dívidas seria distribuída entre todos, de maneira a jogar a população contra o governador. Depois de deflagrada a revolta, Gonzaga seria instalado como primeiro presidente, ou chefe de uma junta governativa, por um período de transição que estimavam entre dois e três anos. Em um de seus onze depoimentos, Tiradentes afirmou que Alvarenga Peixoto era quem defendia a junta, porque a república devia ter "várias cabeças, e um só corpo". Estava definido até o bispo: o padre Toledo Melo.

Para a Constituição republicana, os inconfidentes usavam como modelo o Recueil des loix constitutives des colonies angloises confédérées sous la dénomination d'États-Unis de l'Amérique Septentrionale, (Coletânea de leis constitutivas das colônias inglesas confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América Setentrional), uma tradução para o francês, clandestina (pois proibida na França), da Constituição de cada um dos treze estados americanos e do Ato da Independência escrito por Thomas Jefferson.

Este havia dito pessoalmente ao emissário dos inconfidentes que o procurara em Paris, um estudante de medicina em Montpellier sob o pseudônimo de Vendek, que os Estados Unidos não poderiam apoiar a sublevação em Vila Rica, por causa de um recente acordo comercial vantajoso com Portugal. Acrescentou, no entanto, que poderiam dar ajuda econômica e militar mais tarde, caso a instalação da república fosse consumada.

A sedição começaria com uma rebelião em Vila Rica, em fevereiro de 1789, quando os conspiradores calculavam que Barbacena decretaria a grande Derrama cobrando os impostos do ano, mais todos os impostos em atraso. Na carta-denúncia que Barbacena fez Silvério dos Reis escrever, datada de 5 de maio de 1789, ele afirma que Alvarenga Peixoto contava com "duzentos homens, chamados pés-rapados, prontos e armados", em sua fazenda no arraial da Campanha, no Sul da capitania de Minas. O padre Oliveira e Rolim dispunha de outros duzentos homens armados. Como especialista em mineração, Álvares Maciel seria o responsável pela produção da pólvora das forças sublevadas. A senha para o ataque à vila seria a distribuição de uma carta com a frase "a tal dia e tal hora é o meu batizado".

"Depois se cortaria a cabeça do Ouvidor atual, Pedro José Araújo [de Saldanha], seguindo-se a do escrivão da Junta Carlos José da Silva e a do Ajudante de Ordens Antônio Xavier de Resende, e que, se o Intendente Francisco Gregório Pires Bandeira não os quisesse seguir, que também se lhe cortaria a cabeça, sem embargo de ser ele, dito Antônio Gonzaga, muito amigo do dito Bandeira", escreveu o delator. Eliminada a resistência, a capital da futura república, de acordo com o que ele ouviu, seria instalada em São João del-Rei.

Em carta ao tio vice-rei, Barbacena afirmou que a conspiração descrita fazia sentido, por julgar Silvério dos Reis sem imaginação para inventá-la, e porque os citados lhe pareciam "os mais capazes e próprios que aqui conheço para tão grande maldade – e têm relações que fazem muito crível este conceito". Observou ainda que, por isso, Gonzaga vinha demorando para assumir na Bahia o novo posto para o qual tinha sido designado, a "pretexto" de estar prestes a se casar com Maria Dorotéia.

O governador disse ao tio preocupar-se com a presença na conspiração de oficiais do "único Regimento" de guardas. Lembrou que "as pessoas de alguma importância, ou maior representação nesta Capitania, são quase devedoras de tudo quanto possuem a S. Majestade; e só uma revolução destas pode ajustar as contas (no conceito delas), além da vaidade de liberdade, que é também a mania de quase todos". Anunciou ao vice-rei sua decisão de protelar a Derrama, enquanto esperava a resposta dele e meditava sobre o que fazer.

Ao saber do adiamento da Derrama, Gonzaga foi à casa do governador, aparentemente para cumprimentá-lo pela decisão, dizendo que, se fosse possível, levantaria para ele "uma estátua". Quando ficaram a sós, a pedido de Gonzaga, segundo o governador, o ouvidor teria dito considerar "a Capitania em tais circunstâncias que só lhe faltavam duas cabeças" – como a sugerir que podiam dividir o poder da nova república, dentro de um triunvirato, no caso de ocorrer a separação de Portugal. "Tornou ainda depois a procurar ocasião e dizer-me que esta Capitania devia estar na menina dos olhos do Ministério, porque era a que mais facilmente se podia levantar, ainda sem dependência de outras, tanto pela sua situação e defesa natural, como pelas suas produções e riqueza de letras", escreveu ao vice-Rei.

Era de estranhar que Barbacena não tivesse dado imediata ordem de prisão a Gonzaga naqueles encontros. Segundo o próprio governador, mantivera o que sabia em segredo, por cautela. Explicou em relatório de 11 de julho de 1789 ao Conselho Ultramarino que achou melhor "não mostrar qualquer reserva ou disfarce que me fizesse suspeitoso, nem receio que o animasse [a Antônio Gonzaga], nem dar ao mesmo tempo a confiança e ocasião que lhe facilitasse algum novo atentado, o que poderia precipitar o rompimento, em prejuízo da apreensão dos outros réus e talvez da segurança e tranquilidade do Estado".

Reforçou que esperava reforços do Rio de Janeiro: "Gente escolhida e os oficiais de confiança (ainda que por todo não chegue a um Regimento), e que venham logo municiados, porque S. Majestade não tem aqui de seu um só barril de pólvora." Sugeriu ainda ao vice-rei a prisão do Tiradentes no Rio de Janeiro.

A prisão de Tomás Antônio Gonzaga frustrou a insurreição e o casamento do ouvidor e poeta. Na solitária, escrevia versos para a noiva, que jamais veria novamente: Marília de Dirceu (como ele designou Maria Dorotéia de Seixas e a si mesmo), dividido em três partes (Lira, Prisão e Exílio), reflete o estado de espírito do poeta, para quem a lembrança dos "olhos belos" da amada eram o único analgésico naquela "cruel masmorra tenebrosa".

Em 3 de fevereiro de 1790, na acareação com Alvarenga Peixoto, admitiu ter discutido a Derrama com os amigos e afirmou que a suspensão daquela cobrança "era muito útil ao sossego público". Para ele, essa preocupação não fazia dele um conspirador, e sim "um ministro zeloso e que tem uma grande parte na Administração da Real Fazenda".

Em seu resumo da Devassa, o escrivão José Caetano César Manitti sustentou que as lideranças intelectuais da sublevação, conforme depoimentos testemunhais, eram em primeiro lugar Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Manuel da Costa, como autores da "legislação para o regimento da nova República". Detalhou que propunham estabelecer "sete parlamentos; que, passados três anos em que governariam o dito Des. Gonzaga e outros, seriam sucessivamente as eleições anuais; que tudo quanto se devesse à Fazenda Real ficaria perdoado; que o uso de cetins ou sedas seria permitido à ínfima plebe; que se levantaria da Casa da Moeda, pondo-se o ouro a 1.500 réis; que os diamantes [comércio exclusivo da Coroa] ficariam francos; que se transferiria a capital para […] São João del-Rei e que nesta [Vila Rica] se erigiria uma Universidade como em Coimbra".

No item IV (Das provas e culpas), Manitti indicou que o elemento mais atuante na propaganda da sedição, "sem contestação", era "aquele alferes Joaquim José da Silva Xavier", conforme os testemunhos dos réus e das testemunhas complementares. Em segundo lugar, elencou o tenente-coronel Francisco de Paula e o coronel Alvarenga Peixoto.

O inquérito foi remetido a Lisboa em 25 de fevereiro de 1790, pouco antes de o vice-rei, Luís de Vasconcelos e Sousa, ser substituído, em 9 de maio, por d. José Luís de Castro, conde de Resende. O desfecho se aproximava.

Ao todo, 34 réus foram a julgamento, no início de abril de 1792. A Alçada (defensoria pública) encarregou a Casa de Misericórdia, administradora de hospitais com uma equipe de voluntários, de indicar um advogado para os presos. José de Oliveira Fagundes, de 40 anos, formado em Coimbra, assumiu a causa. Alegou que as reuniões dos inconfidentes tinham existido, mas que as conversas não passavam de falatório inconsequente. Chamou Tiradentes, que havia atraído em seus depoimentos toda a responsabilidade pelo levante, de promotor "sem crédito" de um atentado "imaginário".

Apelou ainda à piedade de Maria I, que em Portugal já perdoara criminosos para não aumentar seu sentimento de culpa. Acreditava ser vítima de uma maldição que lhe levara filho e sobrinho, rogada sobre sua linhagem depois que seu pai, José I, imolou em praça pública a família Távora, suspeita de atentar contra sua vida. A rainha se inclinava ao perdão também por não querer perder o controle da elite colonial e sofrer o mesmo que Luís XVI, cuja coroa na monarquia constitucional tinha virado uma coleira de ouro. Ao reagir, iria para a guilhotina, três anos depois, em janeiro de 1793.

No julgamento, onze réus reunidos na Cadeia da Relação, no Rio de Janeiro, ouviram o Meirinho proclamar a sentença de morte – entre eles, Freire de Andrade, José Álvares Maciel, Salvador do Amaral Gurgel, Alvarenga Peixoto e Tiradentes. Oliveira Fagundes apresentou o recurso, que foi negado, e "embargos de misericórdia", para serem enviados à rainha, dizendo que os condenados poderiam ficar nas prisões "mais pestilentas" e ela permaneceria com a consciência tranquila. Esta última apelação também foi negada. "Matou, desta vez, a todos", observou o frei José de Jesus Maria do Desterro, encarregado de fazer o acompanhamento espiritual dos condenados.

Porém, em seguida o oficial leu outro documento, em que Maria I atropelava o tribunal local com nova sentença: dez dos onze condenados à morte teriam sua pena comutada em degredo perpétuo "para os lugares da África". Havia sido firmado pela rainha em Lisboa, cerca de um ano antes da conclusão do julgamento, e enviado junto com o novo vice-rei, Luís de Castro. "Levantaram-se os mortos", escreveu o frei Maria do Desterro.

Também seriam degredados outros vinte condenados, entre os quais Tomás Antônio Gonzaga. Somente Tiradentes foi sentenciado à forca e ao esquartejamento. O frei Anunciação Penaforte contou que, quando se aproximou do alferes, ele disse que "agora morreria cheio de prazer, pois não levava após si tantos infelizes a quem contaminara" – e lembrou que "sempre lhes pedira que fizessem dele, só, a vítima da lei".

Foi para a forca no dia seguinte, 21 de abril de 1792, em uma cerimônia que, segundo os depoimentos, deixou um clima pesado no Rio de Janeiro. Tinha 46 anos de idade. A marcha para o cadafalso, com uma cruz nas mãos, encenação para a expiação dos seus pecados, colaborou para causar o efeito contrário: convertê-lo numa espécie de mártir.

Com a execução de Tiradentes, a Coroa criou um bode expiatório e, ao mesmo tempo, apaziguou a elite colonial nas Minas, da qual dependia, como produtora de grande parte da riqueza no império. Começava uma era de distensão, conhecida pelos portugueses como a "Viradeira".

Com a demissão do marquês de Pombal, em 1777, Maria I já havia revogado as decisões do secretário de governo de seu pai: restituiu à Igreja Católica os poderes eclesiásticos e devolveu privilégios aos nobres feudais portugueses, o que, na prática, manteria Portugal à margem da industrialização e levaria o império a uma dependência crescente da Inglaterra. Além da produção de manufaturados, os ingleses já possuíam a maior rede de cargueiros da Europa para o comércio pelo Atlântico.

A suspensão da Derrama foi mantida, mas durou pouco. Libertado nove meses depois de preso, Silvério dos Reis recebeu o perdão de suas dívidas, teve de volta suas três fazendas e ainda ganhou um prêmio de 200 mil-réis. Quando, porém, a Fazenda Real voltou a cobrar os impostos devidos, inclusive dele, Silvério dos Reis perdeu praticamente tudo o que possuía. Passou o resto da vida reclamando favores e fugindo da população, que o execrava. "Cercado de inimigos", tentou novo perdão para suas dívidas e permissão para ir a Lisboa, sem sucesso. Depois de sofrer um atentado a tiros e ter sua casa no Rio de Janeiro incendiada, acabou autodesterrado em São Luís, no Maranhão, onde morreu aos 63 anos de idade.

Outro que quebrou com a Derrama foi Joaquim Macedo, que escapou de qualquer suspeição de inconfidência, mas não do Fisco. Terminou a vida em uma fazenda que lhe restou de propriedade, após o sequestro da maior parte de sua fortuna.

Dando a decadência da mineração como fato consumado, os representantes de Vila Rica, que por algum tempo puderam contemplar pela janela do edifício da Câmara a cabeça de Tiradentes espetada no meio na praça principal (hoje Praça Tiradentes), concluíram que "nada mais resta do que cortar tudo pela raiz, mudando-se inteiramente o sistema de percepção deste rendimento real", como dizia um ofício enviado ao governador Barbacena em 15 de agosto de 1789. Por sugestão dele, redistribuiu-se a "pensão" mínima anual do Estado português proveniente do ouro, de forma que recaísse sobre "muitos outros artigos", de modo a compensar a perda da arrecadação com o metal precioso. O aumento de impostos passou a incidir sobretudo sobre a venda de escravos e gêneros, como "as aguardentes e as carnes", de acordo com documento.

A revolução acabou em reforma fiscal, que, como toda reforma fiscal, distribuiu a conta dos endividados para toda a sociedade.

A leniência de Maria I com os inconfidentes não fora exatamente fruto da piedade. O degredo não era uma pena leve, visando apenas a afastar os condenados da política local. Além de terem seus bens expropriados, eles eram enviados a colônias com baixa expectativa de vida – e para alguns dos inconfidentes, de fato, o exílio foi de curta duração.

Alvarenga Peixoto não durou mais do que seis meses em Angola. Preso aos 45 anos, morreu aos 50, logo depois da chegada à prisão de Ambaca, em 1792. Foi vitimado por febres e pela depressão, descrita em versos dirigidos à mulher, a também poeta Bárbara Heliodora.

Entre todos, quem se saiu melhor foi Tomás Antônio Gonzaga, possivelmente com ajuda do pai, alto funcionário do sistema judiciário em Lisboa, que ainda estava vivo – o desembargador João Bernardo Gonzaga morreu seis anos após o julgamento do filho, em 1798. Nomeado promotor do Juizado de Defuntos e Ausentes em Moçambique, o ex-ouvidor de Vila Rica casou-se com Juliana de Sousa Mascarenhas, de 19 anos, analfabeta, filha do escrivão Alexandre Roberto Mascarenhas, seu subordinado, que morreu logo depois.

Passou a morar na casa do falecido sogro, na Rua do Largo da Saúde, na ilha de Moçambique, ao Norte do país, em 1793, enquanto a sogra, enviuvada, foi viver numa machamba (plantação de mandioca) no território continental da colônia. Gonzaga advogou para traficantes negreiros moçambicanos e foi nomeado procurador da Fazenda de Moçambique (1806) e juiz da alfândega (1809).

Gonzaga recuperou sua fortuna, o prestígio social e literário. Ainda na prisão da Ilha das Cobras, no Rio, onde desfez seu noivado com Maria Dorotéia, ele enviara Marília de Dirceu a uma editora em Lisboa, por meio de um amigo. O livro, publicado em 1792, foi favorecido pela história do poeta encarcerado pela tirania e o tornou o segundo bardo mais publicado e conhecido da língua portuguesa no mundo, atrás apenas de Luís Vaz de Camões.

Em 13 de maio de 1808, o príncipe regente d. João (futuro João VI) inaugurou em 13 de maio de 1808 a Imprensa Régia no Brasil, depois da vinda da família Real para o Rio de Janeiro, fugindo da invasão de Portugal pela França, com a qual a Inglaterra e seus aliados competiam pela hegemonia do comércio internacional. Marília de Dirceu foi o primeiro livro publicado no Brasil, em 1810, com dezesseis anos de atraso em relação a Portugal e depois de ser traduzido em francês, russo, italiano, inglês, alemão, espanhol e latim.

Agora best seller mundial e enfant gâté da monarquia, o ex-ouvidor de Vila Rica recebeu a notícia ainda em vida. Morreu em Moçambique em 1810, aos 66 anos.

O desfecho da Inconfidência Mineira, como de outros movimentos libertaristas no Brasil, deixou claro que a maior parte da elite colonial estava na contracorrente do mundo, tanto quanto a metrópole. Propunha-se nem tanto mudar o sistema, mas colocá-lo a seu favor. Enquanto o absolutismo caía na França, apontando o futuro, manteve-o incólume em Portugal, como burguesia ascendente que não via nisso grande empecilho para o progresso. "Os grupos de mercadores e negociantes buscam por todos os meios integrar-se na ordem nobiliárquica: a realidade é o mercador-cavaleiro e o cavaleiro-mercador, o fidalgo-negociante e o negociante-enobrecido, não sendo por isso fácil a existência de uma burguesia autônoma, com seus valores próprios", afirmou o historiador português Vitorino Magalhães Godinho, em A estrutura da antiga sociedade portuguesa.

A renovação do pacto entre a burguesia colonial e a monarquia absolutista portuguesa manteve o Império Português fora das mudanças econômicas que levaram nações como o Reino Unido, a França e os Estados Unidos à liderança econômica global nos séculos seguintes. A mudança da sede do reinado para o Brasil pouco melhorou a situação.

Em 19 de fevereiro de 1810, foram assinados entre Portugal e Inglaterra o Tratado de Comércio e Navegação e o Tratado de Aliança e Amizade, que regulavam as relações comerciais após a abertura dos portos, dois anos antes. O artigo VIII do primeiro tratado aboliu monopólios portugueses que restringiam o comércio do Brasil com a Inglaterra, apesar da manutenção de alguns "estancos" – restrições para a compra de alguns produtos, como pau-brasil pelos ingleses, e de tecidos de lã ingleses pelo Brasil. O comércio internacional, porém, era ainda exclusividade dos portugueses de berço. O artigo XV estipulava que os artigos ingleses podiam ser adquiridos no Brasil com taxas de 15% para a importação, enquanto essa porcentagem era de 24% para outras nações. Produtos exportados do Brasil seriam taxados também em 24% na Inglaterra.

O artigo X do Tratado de Aliança e Amizade previa a extinção gradual do tráfico de escravos africanos. Não se tratava de medida humanitária, mas concorrencial. O objetivo era tirar de vez do mercado internacional a indústria brasileira de açúcar, eliminando sua mão de obra, de maneira a favorecer as colônias inglesas. A manobra fazia parte do acordo pelo qual Portugal pagava em vantagens a conta da guerra para recuperar a metrópole, com ajuda dos ingleses, iniciada em agosto de 1808.

A distância que se abriu a partir do século XVIII entre os países capitalistas e os de base agrária juntou o Brasil às ex-colônias espanholas num processo de atraso crônico. Para a maior parte das lideranças coloniais brasileiras, melhor que derrubar o cartorialismo português era compactuar com ele. A liberdade dos Estados Unidos havia custado uma guerra, além de pesada indenização paga pelo novo país do Norte aos ingleses, algo com que os empreendedores coloniais brasileiros não estavam dispostos a arcar em uma separação de Portugal.

Dessa forma, em vez da independência, o terceiro século de colonização portuguesa consolidou no Brasil o patrimonialismo: o enriquecimento à sombra do poder concedente, associado ou manipulado pelos próprios agentes privados. Pouco importava quem mandasse, desde que uma casta pudesse beneficiar-se do aparelho do Estado. Essa passou a ser a principal força contra movimentos libertaristas e separatistas, especialmente os surgidos sobre uma base realmente popular, como a Conjuração Baiana, em 1798*.

No século XVIII, Portugal e Espanha, os dois maiores impérios monárquicos do passado, perderam espaço para potências emergentes, apoiadas no sistema de governo republicano, como na França e nos Estados Unidos, ou ao menos na monarquia constitucional, caso da Inglaterra. Com a inclusão da população no mercado de consumo da era industrial, transformando-a em massa livre, assalariada e consumidora, viria a triunfar mais tarde um conceito tão antigo na história (pois definido pelos gregos), quanto contrário ao da sociedade monárquica: o da cidadania.

Um século depois da Inconfidência Mineira, a inteligência do já anacrônico movimento republicanista no Brasil vasculhou a história em busca de heróis que pudessem se tornar símbolos da "nova" era. Optaram por Tiradentes. Era militar, como os republicanos que encabeçavam o golpe na monarquia, e tinha origem modesta, em contraste com a elite econômica e política tradicional, identificada com a monarquia.

No governo provisório do marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente da República Federativa dos Estados Unidos do Brasil, Tiradentes foi oficialmente guindado à condição de herói nacional pelo decreto n° 155-B, de 14 de janeiro de 1890, que instituiu o 21 de abril como feriado nacional, como ainda hoje.

Já o imaginário Dia de Gonzaga poderia servir para lembrar como vem de longe um mal que parece hereditário no Brasil: a tendência da elite de abandonar decisões, desafios e riscos que levam ao progresso real, para preservar seu status quo.

Serviria também para lembrar que o verdadeiro mártir do movimento que falhou em instituir a república, a cidadania e a liberdade política e econômica num momento crucial da história não foi Tiradentes, mas o povo brasileiro.

*A Conjuração Baiana não aconteceu em 1789, como dizia a versão anterior do texto, mas em 1798.

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Source Quality
Perspective
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Neutrality
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Source Quality 3/5
3/5 Score

Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety

Summary

Article relies heavily on secondary sources and one primary document, with no named experts except one historian.

Findings 4

"evelada. Ouvida nos Autos de Devassa, inquérito policial ab"

Cites a primary historical document (Devassa records).

Primary source

"o historiador Luiz Alberto Ornellas Rezende, da Universidade de São Paulo (USP), em A Câmara Municipal de Vila Rica e "

One named expert source is used, but not directly quoted.

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"Tomás Antônio Gonzaga"

Many historical figures are named, but they are not interviewed sources.

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"gem cuja identidade jamais foi revelada. Ouvida nos Autos "

Anonymous source used in historical narrative.

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Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation

Summary

Article presents a one-sided interpretation of historical events, portraying Gonzaga as a failed leader and criticizing the monarchy, without alternative viewpoints.

Findings 3

"m Paris. Gonzaga sabia que o mundo estava se movendo e "

Presents Gonzaga's perspective as correct without counterbalance.

One sided

"Ao decidir ficar em casa, Gonzaga abriu mão de vez da república da"

Implicitly criticizes his inaction without exploring possible reasons.

One sided

"ouvidor respondeu-lhe que não, imaginando ser "aviso de algum inimigo que queria qu"

Mentions Gonzaga's own reasoning, but still no opposing view.

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Background information, statistics, comprehensiveness of coverage

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Rich historical context with data on population, economic restrictions, and comparisons to other revolutions.

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" Janeiro. A comarca tinha 79 mil habitantes, s"

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Explains economic background of Portugal's fiscal demands.

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"Treze anos antes, um grupo de treze colônias na América do Norte já tinha declarado independência do"

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Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language

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"asileiro Na madrugada de 18 de maio de 1789, um mensageiro de"

Factual, neutral description.

Neutral language

"exploração econômica draconiana"

Loaded language: 'draconiana' is negative and evokes harshness.

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Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution

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Author and date present, clear attribution of quotes, but no methodology explanation.

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"Antônia da Costa, escrava do advogado e poeta Cláudio Manuel da Costa, descreveu o "

Quotes are attributed to specific historical figures.

Quote attribution
Logical Coherence 4/5
4/5 Score

Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation

Summary

No contradictions detected, but one causal claim is unsupported: that Gonzaga's inaction directly caused Brazil's delayed republic.

Findings 3

"Ao decidir ficar em casa, Gonzaga abriu mão de vez da república da qual seria líder."

Implies his decision alone ended the revolution, ignoring other factors.

Unsupported cause

"Ao falhar, cedendo ao atraso, comprometeu o futuro."

Overly simplistic causal link between failure and future delay.

Unsupported cause

" Ao decidir ficar em casa, Gonzaga abriu mão de vez da república da qual seria líder. Em seu lugar, acabaria c"

The article implies that Gonzaga's inaction was the primary cause for the failure of the conspiracy and subsequent delay in Brazilian republic, but doesn't account for other factors like Portuguese military power or lack of popular support.

Logic unsupported cause

Logic Issues

Unsupported cause · medium

The article implies that Gonzaga's inaction was the primary cause for the failure of the conspiracy and subsequent delay in Brazilian republic, but doesn't account for other factors like Portuguese military power or lack of popular support.

""Ao decidir ficar em casa, Gonzaga abriu mão de vez da república da qual seria líder." vs. other factors mentioned (e.g., Silvério's betrayal) that were also decisive."

Core Claims

"Tomás Antônio Gonzaga was the intellectual leader of the Inconfidência Mineira and his inaction led to the failure of the conspiracy."

The article itself, based on historical records (Devassa) and historical interpretation. Named secondary

"The Brazilian republic was delayed because the conspiracy failed, and Gonzaga's decision was pivotal."

Unattributed historical narrative; no source cited for this causal claim. Anonymous

Logic Model Inspector

Consistent

Extracted Propositions (6)

  • P1

    "In 1789, a conspiracy in Minas Gerais aimed to establish a republic."

    Factual
  • P2

    "Gonzaga was a poet and ouvidor (judge) involved in the conspiracy."

    Factual
  • P3

    "Silvério dos Reis betrayed the conspirators to the governor."

    Factual
  • P4

    "Tiradentes was executed in 1792."

    Factual
  • P5

    "Gonzaga's decision not to flee (or act) causes the conspiracy to fail."

    Causal
  • P6

    "The failure of the conspiracy causes delayed Brazil's republic by a century."

    Causal

Claim Relationships Graph

Contradiction
Causal
Temporal
View Formal Logic Representation
=== Propositions ===
P1 [factual]: In 1789, a conspiracy in Minas Gerais aimed to establish a republic.
P2 [factual]: Gonzaga was a poet and ouvidor (judge) involved in the conspiracy.
P3 [factual]: Silvério dos Reis betrayed the conspirators to the governor.
P4 [factual]: Tiradentes was executed in 1792.
P5 [causal]: Gonzaga's decision not to flee (or act) causes the conspiracy to fail.
P6 [causal]: The failure of the conspiracy causes delayed Brazil's republic by a century.

=== Causal Graph ===
gonzagas decision not to flee or act -> the conspiracy to fail
the failure of the conspiracy -> delayed brazils republic by a century

All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.

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