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Como polícia desmascarou assassino brasileiro que ficou foragido no Paraguai por décadas

terra.com.br · Iara Diniz · 2026-04-23 · 1,670 words
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Como polícia desmascarou assassino brasileiro que ficou foragido no Paraguai por décadas

Condenado no Brasil por homicídio, Marcos Panissa viveu por décadas no Paraguai com outro nome; ele foi preso na última semana, 37 anos após o crime.

Por mais de 20 anos, o brasileiro Marcos Campinha Panissa viveu no Paraguai com outra identidade. Casou-se, construiu uma família, abriu negócios.

Para vizinhos e amigos, ele era José Carlos Vieira, apenas um comerciante que levava uma vida discreta.

Ninguém suspeitava que, décadas antes, ele havia sido condenado no Brasil por um crime brutal.

A vida construída com base em documentos falsos começou a ruir na manhã de quarta-feira (15/4), quando Marcos foi abordado por agentes da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai (Senad) ao sair de um estabelecimento em San Lorenzo, a cerca de 15 quilômetros da capital, Assunção.

"Marcos!", chamaram os policiais. A reação do brasileiro foi imediata.

"Ele olhou para os agentes com uma expressão de espanto. Era como alguém que não ouvia o próprio nome há muitos anos, e se surpreendia ao ouvi-lo novamente. Ele ficou paralisado", relatou à BBC News Brasil o ministro responsável pela Senad, Jalil Rachid.

Marcos es
tava foragido da Justiça brasileira havia mais de 30 anos. Ele foi condenado por matar a ex-mulher, Fernanda Estruzani, com 72 facadas. O crime ocorreu em agosto de 1989, dentro do apartamento de Fernanda, em Londrina, no Paraná.

Na época, o caso foi tratado como homicídio — o crime de feminicídio ainda não existia na legislação brasileira.

Marcos ch
egou a passar por dois júris em liberdade. Mas antes que o terceiro julgamento acontecesse, em 1995, ele desapareceu.

Desde então, seu nome constava na difusão vermelha da Interpol, lista de criminosos procurados internacionalmente.

"Esse era um dos alertas vermelhos ativos mais antigos da Polícia Federal na Interpol", disse o superintendente da PF no Paraná, Rivaldo Venâncio.

Em 2008,
com a mudança na legislação que passou a permitir julgamentos sem a presença do réu, Marcos foi condenado à revelia a 19 anos de prisão.

Mas nunca cumpriu a pena, que o manteria preso até 2028, porque não havia sido localizado — até a quarta-feira.

O crime

Fernanda Estruzani tinha 21 anos quando foi morta, em 6 de agosto de 1989. Marcos tinha 23 anos.

De acordo com o Ministério Público do Paraná, o casal tinha uma filha pequena e estava separado havia cerca de dois anos, mas ele não aceitava o fim do relacionamento.

Na manhã do crime, Marcos foi até o prédio onde Fernanda morava, no centro de Londrina.

Após a ex-mulher ter se recusado a deixá-lo entrar, ele invadiu o local, onde encontrou Fernanda com um namorado.

Segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público na época, Marcos fi
cou com ciúmes da ex-mulher, os dois discutiram e ele foi embora.

Por volta das 22h daquele mesmo dia, Marcos voltou ao local e conseguiu entrar no apartamento usando uma cópia da chave.

Fernanda estava deitada, prestes a dormir, quando foi atacada pelo ex-marido e atingida por 72 golpes de faca.

"Eles estavam separados, mas ele não aceitava o fim do relacionamento. Esse tipo de crime ainda se repete, marcado pela ideia de tratar a mulher como propriedade, objeto", afirma o procurador-geral do Ministério Público do Paraná, Francisco Zanicotti.

O corpo f
oi encontrado no dia seguinte, após uma denúncia anônima, segundo informações de reportagens na época. O crime causou grande comoção, levando a protestos na cidade.

Marcos sempre foi o principal suspeito da polícia. Ele chegou a ter prisão preventiva decretada, ficou foragido por dois meses, mas se apresentou depois e confessou o crime.

Julgamentos e fuga

Em outubro de 1991, Marcos foi julgado pela primeira vez e condenado a 20 anos e 6 meses de prisão.

Como a pena era superior a 20 anos, a defesa recorreu ao chamado "protesto por novo júri", mecanismo então previsto na legislação que permitia a realização de um novo julgamento. Ele continuou em liberdade.

À época, réus condenados a penas iguais ou superiores a 20 anos pelo Tribunal do Júri tinham direito automático a um novo julgamento — regra que só seria extinta anos depois, com a ref
orma do Código de Processo Penal.

Em março de 1992, Marcos foi submetido a um segundo júri e teve a pena reduzida para 9 anos.

A decisão, no entanto, foi anulada em 1994 pelo Tribunal de Justiça do Paraná, que apontou irregularidade na formação do Conselho de Sentença: um dos jurados não poderia ter participado do julgamento.

Um terceiro júri foi marcado para maio de 1995, mas Marcos não apareceu. A partir de então, passou a ser considerado foragido, e o julgamento ficou suspenso por tempo indeterminado.

Em 2008, com a reforma do Código de Processo Penal, que passou a permitir julgamentos mesmo na ausência do réu, ele foi julgado à revelia pelo Tribunal do Júri de Londrina e condenado a 19 anos de prisão.

Fuga e vida no Paraguai

Investigadores acreditam que, após o crime, Marcos passou um período em São Paulo antes de d
eixar o Brasil e seguir para o Paraguai, onde entrou usando uma identidade falsa.

Não há uma data exata para sua entrada no país, mas estima-se que isso aconteceu há pelo menos duas décadas, já que ele se casou em 2001.

"Logicamente, as circunstâncias geográficas, sendo países vizinhos, facilitam a entrada no Paraguai pelo Brasil, pois nossas fronteiras terrestres são facilmente acessíveis, especialmente considerando que, há 30 anos, estávamos em processo de transição para a democracia", afirmou o ministro da Senad, Jalil Rachid.

No Paraguai, Marcos assumiu o nome de José Carlos Vieira e construiu uma nova vida. Teve uma filha, adquiriu bens e abriu negócios, incluindo uma loja de ferragens e materiais agrícolas no departamento de Concepción, a cerca de 470 quilômetros de Assunção.

Segundo Rachid, Marcos levava uma rotina discreta e sem chamar atenção na capital, onde tinha uma casa.

Durante o período em que foi monitorado pela polícia paraguaia, ele foi visto circulando normalmente pela cidade: fazendo compras, frequentando comércios e visitando a filha.

"Ele não teve absolutamente nenhum problema para se locomover livremente no Paraguai. Ele tinha bens em seu nome, veículos, casa. Ele tinha uma vida normal aqui", destacou o ministro.

A polícia paraguaia acredita que a família não sabia sobre o passado de "José Carlos" ou sua verdadeira identidade, Marcos Panissa.

Rachid relatou que tanto a esposa quanto a filha do brasileiro, que são paraguaias, ficaram "absolutamente chocadas" ao saber que ele era foragido da polícia e que tinha matado a ex-mulher.

"Quando sua filha veio visitá-lo aqui, ela desabou em lágrimas, profundamente magoada e chocada com a situação do pai. Me parece que elas [esposa e filha] realmente não tinham a menor ideia do que ele havia feito em sua vida anterior", afirmou.

"Para elas, ele era outra pessoa, completamente diferente: o José Carlos, que a partir do momento em que entrou no Paraguai, construiu uma vida totalmente nova."

Cooperação entre as polícias

A prisão de Marcos só foi possível graças a um trabalho conjunto entre a Polícia Federal, o Ministério Público do Paraná e a Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai.

Após anos
de buscas e denúncias de que o brasileiro poderia estar nos Estados Unidos ou até na Europa, a Polícia Federal recebeu, no ano passado, a informação de que ele vivia no Paraguai.

"Pela proximidade entre os dois países e a facilidade de travessia, sempre houve a suspeita de que ele pudesse estar lá. Mas dados mais concretos chegaram no ano passado, e repassamos às autoridades paraguaias", afirmou o superintendente da Polícia Federal no Paraná, Rivaldo Venâncio.

A partir dessas informações, a Senad conseguiu cruzar dados até identificar o nome falso usado por Marcos e passou a monitorá-lo.

"Desenvolvemos uma rede de inteligência compartilhada, trocando informações entre as duas instituições. Foi assim que conseguimos localizá-lo no Paraguai e colocá-lo sob vigilância", afirmou Rachid, acrescentando que o período entre o monitoramento e a prisão foi de cerca de uma semana.

Na semana passada, a polícia montou a operação Memento Mei — expressão em latim que significa "lembre-se de mim", em alusão ao não esquecimento das vítimas de feminicídio no Brasil.

Inicialmente, os policiais foram até a cidade de Concepción, onde o brasileiro mantinha um comércio e imóveis, mas ele não foi encontrado.

As buscas seguiram no dia seguinte para Assunção, onde ele morava, e depois para San Lorenzo, na região metropolitana, onde Marcos acabou localizado.

O brasileiro foi preso na manhã de quarta-feira — 37 anos após o crime — enquanto fazia compras. Ele foi abordado na rua por agentes que o chamaram pelo nome verdadeiro, o que causou espanto.

"Aquela reação quase estupefata nos mostrou que era ele e que ele ficou realmente surpreso quando o chamamos pelo nome", declarou Rachid.

Após a detenção, as autoridades paraguaias iniciaram os procedimentos para a expulsão do brasileiro do país. Ele foi entregue à PF na Ponte Internacional da Amizade, onde o mandado de prisão foi cumprido.

"Apesar de ter um mandado de prisão na Interpol ativo, a polícia paraguaia concluiu que ele estava de forma irregular no país. Então, por questões migratórias, eles decidiram expulsá-lo", explicou Venâncio.

Para o Ministério Público, a prisão representa o desfecho de uma busca que nunca foi interrompida.

"Nunca deixamos de procurá-lo. O fato de a prisão ter ocorrido, mesmo tantos anos depois, mostra que o sistema de Justiça não esquece as vítimas", afirmou Zanicotti.

A BBC News Brasil entrou em contato com o advogado de defesa de Marcos Panissa, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem.

Em entrevista ao Fantástico, o advogado Antônio Carlos de Andrade Vianna disse que vai entrar com um recurso para dimin
uir a pena de Marcos para nove anos, como foi no julgamento em 1992.

"A defesa nunca falou que ele era inocente. Realmente ele confessou o crime. Ele cometeu um crime pavoroso, mas nem por isso podemos sair da legalidade desse assunto. Vamos fazer uma revisão criminal, para que aquela decisão seja revista", declarou.

Comentários

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Logic
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4/5 Score

Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety

Summary

multiple named official sources: minister, police superintendent, prosecutor; direct quotes from primary sources; one unnamed source (anonymous tip).

Findings 5

" relatou à BBC News Brasil o ministro responsável pela Senad, Jalil Rachid. Marcos es"

Direct quote from a primary source (minister).

Primary source

" disse o superintendente da PF no Paraná, Rivaldo Venâncio. Em 2008, "

Direct quote from a primary source (police superintendent).

Primary source

" afirma o procurador-geral do Ministério Público do Paraná, Francisco Zanicotti. O corpo f"

Direct quote from a primary source (prosecutor).

Primary source

" Investigadores acreditam que, após o crime, Marcos passou um período em São Paulo antes de d"

Sources are not named (attributed to 'investigators').

Secondary source

" segundo informações de reportagens na época. O crime ca"

Refers to earlier reports without specific attribution.

Anonymous source
Perspective Balance 3/5
3/5 Score

Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation

Summary

presents law enforcement and prosecution perspectives; includes defense attorney's comment; no victim's family or community perspective.

Findings 2

" Em entrevista ao Fantástico, o advogado Antônio Carlos de Andrade Vianna disse que vai entrar com um recurso para dimin"

Includes the defense attorney's perspective.

Balance indicator

" Segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público na época, Marcos fi"

Relies solely on prosecution's account of the crime without counter-narrative.

One sided
Contextual Depth 5/5
5/5 Score

Background information, statistics, comprehensiveness of coverage

Summary

detailed timeline of crime, trials, and legal changes; geographical context; explanation of legal mechanisms; quotes from multiple officials.

Findings 3

" condenado por matar a ex-mulher, Fernanda Estruzani, com 72 facadas. O crime oc"

Provides specific number of stab wounds.

Statistic

" À época, réus condenados a penas iguais ou superiores a 20 anos pelo Tribunal do Júri tinham direito automático a um novo julgamento — regra que só seria extinta anos depois, com a ref"

Explains historical legal context.

Background

" o crime de feminicídio ainda não existia na legislação brasileira. Marcos ch"

Provides important legal background.

Background
Language Neutrality 4/5
4/5 Score

Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language

Summary

mostly neutral reporting; uses 'brutal' and 'pavoroso' but these are attributed to sources; slight emotional tone in descriptions.

Findings 2

" Ele cometeu um crime pavoroso, mas nem p"

Quoted from the defense attorney's statement, not journalist's own words.

Sensationalist

" a polícia montou a operação Memento Mei — expressã"

Factual reporting of police operation name.

Neutral language
Transparency 5/5
5/5 Score

Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution

Summary

author and date clearly stated; all quotes attributed to named individuals; methodology mentioned (cooperation between agencies); includes update on defense contact.

Findings 2

" graças a um trabalho conjunto entre a Polícia Federal, o Ministério Público do Paraná e a Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai. Após anos"

Describes the cooperation that led to the arrest.

Methodology

" relatou à BBC News Brasil o ministro responsáve"

Every direct quote is attributed to a named source.

Quote attribution
Logical Coherence 5/5
5/5 Score

Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation

Summary

no contradictions; timeline is consistent; causal claims are supported by sources.

Findings 2

" O crime causou grande comoção, levando a protestos na cidade. Marcos se"

Implies that crime caused protests; plausible but not directly evidenced.

Unsupported cause

" O crime causou grande comoção, levando a protestos na cidade. Marcos se"

The article states the crime led to protests without explicit evidence linking the two events beyond the sequence.

Logic unsupported cause

Logic Issues

Unsupported cause · low

The article states the crime led to protests without explicit evidence linking the two events beyond the sequence.

""O crime causou grande comoção, levando a protestos na cidade.""

Core Claims

"Marcos Panissa was convicted of murdering his ex-wife with 72 stab wounds."

Prosecutor Francisco Zanicotti and police superintendent Rivaldo Venâncio. Primary

"He lived in Paraguay under a false identity for decades."

Minister Jalil Rachid and police authorities. Primary

"He was arrested on April 15, 2026, after being called by his real name."

Minister Jalil Rachid's direct account. Primary

Logic Model Inspector

Consistent

Extracted Propositions (6)

  • P1

    "The murder occurred on August 6, 1989, in Londrina, Brazil."

    Factual
  • P2

    "Panissa was convicted in 1991 to 20 years and 6 months, later reduced to 9 years, then to 19 years in absentia."

    Factual
  • P3

    "He entered Paraguay using a false identity and married in 2001."

    Factual
  • P4

    "He was arrested in San Lorenzo, Paraguay, and expelled to Brazil."

    Factual
  • P5

    "The arrest was possible due to causes cooperation between Brazilian and Paraguayan authorities."

    Causal
  • P6

    "His reaction of surprise when called causes by his real name confirmed his identity."

    Causal

Claim Relationships Graph

Contradiction
Causal
Temporal
View Formal Logic Representation
=== Propositions ===
P1 [factual]: The murder occurred on August 6, 1989, in Londrina, Brazil.
P2 [factual]: Panissa was convicted in 1991 to 20 years and 6 months, later reduced to 9 years, then to 19 years in absentia.
P3 [factual]: He entered Paraguay using a false identity and married in 2001.
P4 [factual]: He was arrested in San Lorenzo, Paraguay, and expelled to Brazil.
P5 [causal]: The arrest was possible due to causes cooperation between Brazilian and Paraguayan authorities.
P6 [causal]: His reaction of surprise when called causes by his real name confirmed his identity.

=== Causal Graph ===
the arrest was possible due to -> cooperation between brazilian and paraguayan authorities
his reaction of surprise when called -> by his real name confirmed his identity

All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.

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