▸ Article
"Posso casar o Holmes?", perguntou Gillette, cauteloso.
"Você pode fazer o que bem entender com ele", respondeu Doyle, impaciente. "Pode casá-lo, assassiná-lo…".
O próprio Conan Doyle assassinou Holmes uma vez. Na verdade, tentou. Foi em 1893, no conto O Problema Final.
"A ideia me ocorrera durante umas férias na Suíça, quando conheci as maravilhosas cataratas de Reichenbach, um túmulo digno para o pobre Sherlock", relata em Memórias e Aventuras (1924).
Mas Holmes não permaneceu "morto" por muito tempo. Nove anos depois, foi "ressuscitado" no romance O Cão dos Baskervilles (1902).
Não foi por falta de aviso de sua mãe. Em 1891, quando confidenciou a Mary Doyle que estava pensando em matar Holmes, Conan Doyle ouviu dela: "Faça o que achar melhor, mas saiba que o público não aceitará isso em silêncio".
E não aceitou mesmo. Conan Doyle recebeu cartas de repúdio e sofreu ameaças de morte.
"Cedeu à tentação após receber garantias de que receberia o dobro de seu cachê normal", revela o pesquisador Leslie S. Klinger.
Mas, afinal, por que Conan Doyle queria tanto se livrar do detetive que, além de lhe conferir prestígio, o ajudava a pagar as contas?
É o próprio Klinger, um estudioso em literatura policial, quem responde:
"Escrever as histórias de Holmes o impedia de se dedicar a trabalhos melhores e mais importantes".
Um desses trabalhos é O Mundo Perdido (1912). Ambientado na Amazônia, teria inspirado Jurassic Park (1993), de Steven Spielberg.
Gênio imortal
Arthur Conan Doyle morreu em 7 de julho de 1930. Sherlock Holmes, não. O detetive mais famoso da literatura continua vivo até os dias de hoje.
No caso, "até os dias de hoje" não é força de expressão. O ilustre morador da 221B Baker Street acaba de chegar às livrarias com o romance Holmes e Moriarty, escrito por Gareth Rubin, e ao streaming com a série Jovem Sherlock, produzida por Guy Ritchie.
A ideia de escrever Holmes e Moriarty (Globo Livros) partiu do próprio Rubin, famoso pelo thriller A Ampulheta (2023).
"Todo escritor de mistério sonha escrever um romance de Sherlock Holmes", declara o britânico de 50 anos.
"Aquelas noites esfumaçadas, aqueles becos escuros, aquelas facas ensanguentadas... Bem, as histórias de Arthur Conan Doyle estão no nosso sangue. Quando você abre um livro dele, tudo pode acontecer", afirma.
Por sorte, o agente de Rubin é o mesmo dos herdeiros de Conan Doyle. Se ele, como todo escritor de mistério que se preza, sonhava escrever um romance de Holmes, os herdeiros de Conan Doyle, por sua vez, estavam à procura de um autor para assumir o legado de seu ancestral.
O agente colocou os dois em contato, e o resultado desse encontro é Holmes e Moriarty.
"Se ele teria gostado do livro? Acredito que sim!", arrisca Rubin.
Nos Estados Unidos, os direitos autorais dos quatro romances e dos 56 contos de Sherlock Holmes expiraram no dia 31 de dezembro de 2022.
No Brasil e no Reino Unido, entre outros países, Holmes & Watson, seu fiel confidente, já estavam em domínio público desde 2000, ou seja, 70 anos depois da morte do autor, em 1930.
Quem explica é Richard Pooley, bisneto postiço de Arthur Conan Doyle e diretor do escritório que cuida de seu legado.
"Não impomos condições ou fazemos exigências a ninguém", garante Pooley.
"No caso de Gareth, havia alguns elementos do livro, principalmente no que diz respeito à representação de Watson, de que não gostei. E tenho quase certeza de que meu bisavô postiço também não teria gostado. Mas não somos censores. Escritores, dramaturgos, cineastas e desenvolvedores de videogames, entre outros, têm plena liberdade para escrever o que quiserem", diz.
Indagado se, para escrever uma história de Holmes, precisava da autorização dos herdeiros de Conan Doyle, Rubin responde: "Sim e não".
"Eles leram um esboço antes da versão final e fizeram alguns comentários bastante úteis", prossegue o autor.
"Duvido que vetariam o livro, a não ser que fosse algo completamente insano", pondera.
Tipo o quê? "Bem, se eu resolvesse transformar Holmes em um peixe gigante", dá um exemplo bizarro.
Quase 140 anos depois de sua estreia em Um Estudo em Vermelho (1887), qual é o segredo da longevidade de Holmes?
"Ficamos maravilhados com a sua criatividade, intrigados com a sua observação e enfurecidos com a sua arrogância. Mesmo assim, nos sentimos felizes por tê-lo por perto. Ele traz ordem ao caos", arrisca Pooley.
"Enquanto Watson é o homem comum, Holmes é o herói intelectual. Queremos sempre que a inteligência vença a força".
Herói imperfeito
Enquanto uns adaptam os livros já escritos, outros preferem criar suas próprias histórias. É o caso de Leah Moore, filha do roteirista Alan Moore, e John Reppion, seu marido.
Juntos, Moore & Reppion escreveram, entre outros títulos, as graphic novels O Demônio de Liverpool, ilustrado por Matt Triano, e O Julgamento de Sherlock Holmes, desenhado por Aaron Campbell. Os dois volumes foram lançados no Brasil pela Nova Fronteira.
"Não precisamos pedir autorização à família porque Holmes entrou em domínio público, mas estávamos ansiosos, é claro, com a reação dos leitores", admite Reppion.
"Muitos disseram que fomos fiéis a Conan Doyle porque conseguimos captar as 'vozes' de Holmes e Watson. Isso se deve, em parte, à nossa familiaridade com o Holmes de Jeremy Brett. Enquanto escrevíamos os roteiros, imaginávamos Brett repetindo os diálogos", confessa Moore.
Brett é um dos incontáveis atores que interpretou o maior detetive de todos os tempos. A série The Adventures of Sherlock Holmes teve início em 1984 e chegou ao fim em 1994. Ao longo de dez temporadas, deu origem a 36 episódios e 5 filmes.
"Nunca sabemos como Holmes vai solucionar um mistério. Ao contrário de Hercule Poirot, criado por Agatha Christie, ele pode ser tanto um herói de ação quanto um mestre dos disfarces", afirma Reppion.
Se Brett é o Holmes favorito de Moore & Reppion, o predileto de Benoit Dahan é Peter Cushing. O roteirista e ilustrador francês conheceu o famoso detetive através dos filmes O Cão dos Baskervilles (1959), de Terence Fisher, e O Enigma da Pirâmide (1985), de Barry Levinson.
"O que torna Holmes um personagem tão fascinante é a sua imperfeição. Ele não é como um herói qualquer. Tem defeitos. É arrogante e faz uso de drogas", aponta Dahan.
Ao lado do também quadrinista Cyril Lieron, amigo desde o tempo do ensino médio, Dahan já lançou duas HQs dentro da série Na Mente de Sherlock Holmes: O Caso do Bilhete Escandaloso (Pipoca & Nanquim) e O Pesadelo do Lago Leathan (inédito no Brasil), ambas em dois volumes.
"Mais do que nas adaptações modernas, buscamos inspiração na obra original. Tentamos honrar ao máximo a memória de Conan Doyle", afirma Dahan.
Além de Brett e Cushing, Holmes foi interpretado por dezenas de outros atores em peças, filmes e séries. A lista inclui nomes como Basil Rathbone, Robert Downey Jr e Benedict Cumberbatch, três dos mais famosos.
O mais recente deles é Hero Fiennes Tiffin, que dá vida ao personagem em Jovem Sherlock.
"Por que admiro tanto Holmes? Acho que, no fundo, todos nós gostaríamos de ser como ele. Bem, às vezes, pelo menos", diverte-se Gareth Rubin.
Versão brasileira
Na lista dos atores que interpretaram Holmes, há até um português: Joaquim de Almeida.
Foi no filme O Xangô de Baker Street (2001), adaptado por Miguel Faria Jr do romance de Jô Soares. Nele, Holmes é convidado por Dom Pedro II para encontrar um violino Stradivarius desaparecido no Brasil. Jô abriu caminho para outros autores, como Pedro Bandeira, de Melodia Mortal (2017), e Luiz Antônio Aguiar, de Eu Odeio Sherlock Holmes (2024).
Em Melodia Mortal, escrito a quatro mãos com Guido Levi, Holmes investiga a morte de alguns gênios da música, como Wolfgang Mozart, Frédéric Chopin e Ludwig Beethoven.
Bandeira gostou tanto da brincadeira que, no segundo semestre, lança Sherlock Holmes Investiga a Traição de Capitu (Rocco). O detetive interroga os personagens de Dom Casmurro (1899), obra-prima de Machado de Assis, como Bentinho, Capitu e Escobar.
"Eu devia estar no ginásio, entre os 11 e os 14 anos, quando li uma história de Sherlock Holmes pela primeira vez. O título do livro? Nem me lembro mais... O Signo dos Quatro, talvez", puxa pela memória o autor de 84 anos.
"Esse personagem é uma delícia. Eu o conheço tanto que ele mesmo guia meus dedos pelas teclas do computador. Depois de ler e reler tantas vezes as suas histórias, é como se eu mesmo o tivesse criado".
Já Odeio Sherlock Holmes é, nas palavras de Luiz Antônio Aguiar, o drama íntimo de Arthur Conan Doyle, o autor que se tornou inimigo do seu protagonista.
"Os anos em que Doyle não publicou histórias novas de Holmes foram chamados de O Grande Vazio. Ele até tentou emplacar outros heróis, tão bons quanto Holmes, como o Prof. Challenger, mas não teve jeito: não encantaram o público e tiveram vida curta", lamenta Aguiar.
Hover overTap highlighted text for details
▸ Source Quality 4/5
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
The article uses two named experts (Leslie S. Klinger and Richard Pooley), a direct descendant (Pooley), and several authors/creators, but relies on paraphrasing without direct quotes from primary historical documents.
Findings 6
"revela o pesquisador Leslie S. Klinger."
Expert on Holmes, provides historical context on Doyle's return to Holmes.
Expert source"Richard Pooley, bisneto postiço de Arthur Conan Doyle"
Provides family perspective on current adaptations.
Named source"Gareth Rubin"
Author of new Holmes novel, offers writer's perspective.
Named source"Benoit Dahan"
French illustrator, offers perspective on Holmes's appeal.
Named source"Pedro Bandeira"
Brazilian author, discusses his Holmes works.
Named source"Cedeu à tentação após receber garantias de que receberia o dobro de seu cachê normal"
Paraphrasing Klinger's analysis, but no direct quote from archival sources.
Secondary source▸ Perspective Balance 4/5
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
The article presents multiple viewpoints: Doyle's desire to kill Holmes, public reaction, descendants' views on adaptations, and authors' creative freedom. However, no dissenting or critical perspective on Holmes's enduring popularity is included.
Findings 3
"Não impomos condições ou fazemos exigências a ninguém"
Shows descendants' hands-off approach, acknowledging author freedom.
Balance indicator"Sim e não"
Rubin's nuanced answer on needing permission reflects balance.
Balance indicator"Ele não é como um herói qualquer. Tem defeitos. É arrogante e faz uso de drogas""
Acknowledges Holmes's flaws, not just praising.
Balance indicator▸ Contextual Depth 4/5
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
The article provides historical background (Doyle's telegram, 1893 death, 1902 resurrection), legal context (expiration of copyright in US, Brazil, UK), and references to many adaptations. However, lacks detailed data on readership or impact statistics.
Findings 3
"Em 1899, o escritor britânico Arthur Conan Doyle recebeu um telegrama do dramaturgo americano William Gillette."
Provides historical anecdote.
Background"Nos Estados Unidos, os direitos autorais dos quatro romances e dos 56 contos de Sherlock Holmes expiraram no dia 31 de dezembro de 2022."
Offers legal context.
Background"Quase 140 anos depois de sua estreia em Um Estudo em Vermelho (1887)"
Provides time perspective.
Context indicator▸ Language Neutrality 5/5
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
The language is predominantly neutral and factual, with no sensationalism or politically loaded terms. The tone is descriptive and informative.
Findings 2
"Ao longo de dez temporadas, deu origem a 36 episódios e 5 filmes."
Factual statement, no loaded language.
Neutral language"Brett é um dos incontáveis atores que interpretou o maior detetive de todos os tempos."
Hyperbolic 'maior' but still mild and commonly used in cultural journalism.
Neutral language▸ Transparency 4/5
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
The article has a clear author (BBC News Brasil) and date, but no specific reporter byline. Quotes are attributed properly. No methodology disclosure (not needed for feature). No corrections or updates noted.
Findings 1
"revela o pesquisador Leslie S. Klinger."
Quote source named.
Quote attribution▸ Logical Coherence 5/5
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical inconsistencies, contradictions, or unsupported causal claims. The narrative flows logically from historical event to current adaptations.
Core Claims
"Conan Doyle killed Holmes in 1893 due to wanting to write more serious literature."
Quote from Doyle's memoir and researcher Klinger. Named secondary
"Holmes was revived due to public pressure and financial incentive."
Klinger's analysis. Named secondary
"Current authors can write Holmes without permission in countries where copyright expired."
Direct statement from Richard Pooley and author experiences. Primary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (5)
-
P1
"Sherlock Holmes first appeared in 1887 in A Study in Scarlet."
Factual -
P2
"The copyright in the US expired in 2022."
Factual -
P3
"In Brazil and UK, Holmes has been in public domain since 2000."
Factual -
P4
"Public outcry causes Doyle to bring back Holmes."
Causal -
P5
"Higher pay led Doyle causes to write more Holmes stories."
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: Sherlock Holmes first appeared in 1887 in A Study in Scarlet. P2 [factual]: The copyright in the US expired in 2022. P3 [factual]: In Brazil and UK, Holmes has been in public domain since 2000. P4 [causal]: Public outcry causes Doyle to bring back Holmes. P5 [causal]: Higher pay led Doyle causes to write more Holmes stories. === Causal Graph === public outcry -> doyle to bring back holmes higher pay led doyle -> to write more holmes stories
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.
Want to score another article? Paste a new URL →