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por Daniel Costa
No último domingo, em sua coluna na Folha de S.Paulo, Elio Gaspari voltou a acenar com a velha miragem da terceira via, agora encarnada na dupla "Ro-Ro", formada por Ronaldo Caiado e Romeu Zema. A essa altura, já não se trata de um exercício de análise da conjuntura política, mas de um exercício recorrente de autoengano feito por setores da imprensa dita hegemônica e do mercado financeiro. Assim, a terceira via, tal como vem sendo apresentada, não é uma alternativa real; é apenas uma ficção conveniente.
Não há problema algum em desejar uma saída para a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ao contrário: em uma democracia, é saudável que existam múltiplas candidaturas, projetos e visões de país. O problema começa quando se tenta vender como novidade aquilo que, na prática, é meramente uma variação do mesmo campo político que se pretende superar.
Caiado e Zema não são outsiders de um centro democrático em formação. São, na verdade, produtos acabados da extrema direita brasileira, com vínculos evidentes com o bolsonarismo. Caiado é um nome associado publicamente à direita reacionária desde a eleição de 1989, quando já representava a União Democrática Ruralista (UDR). Em 2022, apoiou Jair Bolsonaro desde o primeiro turno. Ainda que, em momentos da pandemia, tenha adotado medidas alinhadas às recomendações sanitárias, chegando a divergir pontualmente de Bolsonaro, sua trajetória recente aponta mais para a convergência do que para a ruptura.
Zema, por sua vez, foi eleito pelo Partido Novo com discurso de eficiência fiscal e de "bom gestor", mas rapidamente percebeu que, em Minas Gerais, sobreviver politicamente sem o apoio de Bolsonaro seria difícil. Declarou voto no então presidente no segundo turno de 2022, dividindo o palanque com o ex capitão. Após a derrota de Bolsonaro, embora tenha repudiado de forma protocolar os atos golpistas de 8 de janeiro, manteve uma postura ambígua, preservando alianças com o bolsonarismo e evitando confrontar abertamente sua base mais radical.
Assim, fica claro que nenhum dos dois consumou uma ruptura clara e consistente com o bolsonarismo. Na realidade, são, em grande medida, expressões de um mesmo campo político, ainda que com estilos distintos. Não se trata aqui de demonizar alianças eleitorais; elas são parte do jogo democrático. O ponto é outro: sem ruptura, não há alternativa; há continuidade. A insistência em apresentá-los como terceira via revela mais sobre aqueles que formulam esse discurso do que sobre os próprios personagens. Trata-se de uma tentativa de reembalar a extrema direita sob uma estética mais palatável, sem enfrentar o núcleo duro que a sustenta: um eleitorado mobilizado por pautas antissistêmicas, por desconfiança institucional e, em muitos casos, por uma visão autoritária da política.
Outro nome frequentemente alçado ao panteão da terceira via, o gaúcho Eduardo Leite, também está longe de representar essa alternativa de forma inequívoca. Lembremos que, em 2022, disputou a pré-candidatura do PSDB à presidência e, após a derrota, manteve posição ambígua no decorrer do pleito. Sua trajetória revela aproximações táticas com setores da direita e dificuldade em se afirmar como liderança de um projeto nacional consistente.
A responsabilidade por esse vazio também recai sobre partidos que preferiram preservar alianças ambíguas a se posicionar com nitidez. O MDB, que poderia ter consolidado Simone Tebet como uma liderança nacional de centro, optou por uma estratégia fragmentada, com coligações diversas nos estados: Norte e Nordeste marcharam ao lado de Lula, enquanto Sul, Sudeste e Centro-Oeste caminharam ao lado do bolsonarismo. Como exemplo, basta lembrar a triste figura do prefeito Ricardo Nunes, político com uma trajetória abaixo dos níveis mais aceitáveis de mediocridade, mas que, para garantir sobrevida política, abraçou a pauta bolsonarista. O PSDB, capitaneado por Aécio Neves, e o Cidadania, sob o comando de Roberto Freire, aprofundaram seu isolamento em meio a divisões internas e ao ressentimento histórico da dupla em relação ao PT. Ambos barraram tentativas de construção de uma frente democrática mais ampla e vêm assistindo ao próprio encolhimento. O tucanato, que um dia foi a grande referência da social democracia brasileira, hoje sobrevive mais de sua memória do que de sua capacidade de renovação, e o Cidadania, em meio a uma crise interna sem precedentes, também se vê às portas de uma implosão.
Diante desse cenário, a terceira via tão alardeada pela grande imprensa e por setores do mercado, quando não vista como pura ficção, dificilmente se viabilizará no curto prazo. Sua construção exigirá uma reorganização mais profunda do sistema político, tornando-se possivelmente factível para a disputa de 2030.
Mas aqui reside o ponto mais incômodo dessa discussão. A consolidação de uma alternativa real ao lulismo e ao bolsonarismo não depende apenas de nomes ou partidos, mas das condições institucionais em que essa alternativa busca emergir. E essas condições não são neutras. Em cenários de alta polarização e ataques constantes à democracia, o espaço para projetos intermediários tende a desaparecer, com a política se reorganizando em torno de clivagens mais duras e empurrando o eleitorado para escolhas binárias, como se viu em 2018 e também, em grande medida, em 2022.
Daí o paradoxo que muitos se recusam a admitir: o desenvolvimento dessa terceira via está estreitamente ligado à preservação de um ambiente democrático estável. Em contextos de erosão institucional, alternativas moderadas tendem a definhar. Já em cenários de normalidade democrática, com regras respeitadas, abre-se espaço para o surgimento de novas lideranças.
A terceira via que Gaspari e tantos outros anunciam para 2026, portanto, não passa de uma antecipação retórica de algo que ainda não encontrou base social nem expressão política consistente. Caiado, Zema e Leite orbitam, em maior ou menor grau, o mesmo campo que dizem transcender. Ou seja, não há ruptura, não há projeto, não há novidade.
Se uma alternativa vier a existir, ela não nascerá de arranjos improvisados nem de candidaturas recicladas. Surgirá, se surgir, de um processo de reorganização do sistema político. Até lá, convém abandonar as ilusões confortáveis. A terceira via não está logo ali, esperando para ser descoberta. No Brasil de hoje, ela ainda é apenas uma ideia sem corpo, sem base e sem coragem de se afirmar como tal.
Daniel Costa é historiador, jornalista e pesquisador. Estuda temas como a corrupção no século XVIII e a cultura popular, com destaque para o samba paulista.
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▸ Source Quality 2/5
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
The article relies on the author's own analysis and references to Elio Gaspari's column, but lacks primary sources or named experts.
Findings 2
"Elio Gaspari voltou a acenar com a velha miragem da terceira via"
References another columnist's work as a starting point
Secondary source"análise da conjuntura política"
No specific named sources or experts cited
Anonymous source▸ Perspective Balance 2/5
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
The article presents a one-sided argument against the 'third way', with no acknowledgment of counterarguments or supporters' views.
Findings 1
"não há ruptura, não há projeto, não há novidade"
Dismisses any possibility of a valid third way without presenting opposing evidence
One sided▸ Contextual Depth 3/5
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides some historical background on the political figures and parties, but lacks statistical data or broader context about electoral systems.
Findings 2
"Caiado é um nome associado publicamente à direita reacionária desde a eleição de 1989"
Provides historical background on a key figure
Background"O MDB, que poderia ter consolidado Simone Tebet como uma liderança nacional de centro"
Mentions a potential alternative that failed
Context indicator▸ Language Neutrality 2/5
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Uses emotionally charged language and politically loaded terms such as 'miragem', 'ficção', 'autoengano', and 'extrema direita'.
Findings 2
"miragem da terceira via"
Describes the third way as a mirage, implying it is illusory
Sensationalist"extrema direita brasileira"
Labels Caiado and Zema as far-right
Left loaded▸ Transparency 4/5
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Author and date are clearly stated, with a brief bio. No methodology disclosure needed, but quotes are not precisely attributed beyond paraphrasing.
Findings 1
"Daniel Costa é historiador, jornalista e pesquisador."
Full author name and credentials provided
Author attribution▸ Logical Coherence 5/5
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
The argument is logically consistent: the author argues that the third way candidates are not truly independent because they haven't broken with Bolsonarismo, and supports this with evidence from their past actions.
Findings 1
"Surgirá, se surgir, de um processo de reorganização do sistema político."
Speculative claim about future conditions, but not a logical flaw per se
Unsupported causeCore Claims
"Caiado e Zema não representam uma terceira via porque estão ligados ao bolsonarismo."
Author's own analysis Unattributed
"A terceira via é uma ficção conveniente."
Author's opinion Unattributed
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (3)
-
P1
"Caiado apoiou Bolsonaro no primeiro turno de 2022."
Factual -
P2
"Zema declarou voto em Bolsonaro no segundo turno de 2022."
Factual -
P3
"Polarização causes desaparecimento de espaços para projetos intermediários"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: Caiado apoiou Bolsonaro no primeiro turno de 2022. P2 [factual]: Zema declarou voto em Bolsonaro no segundo turno de 2022. P3 [causal]: Polarização causes desaparecimento de espaços para projetos intermediários === Causal Graph === polarização -> desaparecimento de espaços para projetos intermediários
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.
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