Outras Palavras
B
23/30
Good

Higher than 71% of articles

Eleições: Para quê as IAs poderiam ser úteis | Outras Palavras

outraspalavras.net · Carmen Leitão · 2026-04-24 · 1,578 words
WhatsApp
Source Quality 3
Perspective Balance 4
Contextual Depth 4
Language Neutrality 3
Transparency 4
Logical Coherence 5
Article
Eleições: Para quê as IAs poderiam ser úteis

Tecnologia poderia incidir de forma positiva no processo eleitoral, como ampliar o acesso a informações confiáveis, facilitar compreensão de programas políticos e apoiar checagem de fatos. Mas, sem regulação, tendência é criar mais riscos que soluções

Publicado 24/04/2026 às 16:50

A inteligência artificial (IA) assumiu importância central no debate contemporâneo sobre o futuro das democracias em todo o mundo. No ciclo eleitoral de 2026, no Brasil, o tema ganhou ainda mais relevância em virtude da capacidade dessas ferramentas de ampliar a velocidade, a escala, a personalização e a credibilidade aparente dos conteúdos divulgados. O problema com potencial para afetar a integridade informacional do processo eleitoral reside: na produção de mensagens, na opacidade dos algoritmos, na baixa transparência das plataformas e na dificuldade de responsabilizar atores que difundem conteúdos enganosos, manipulados ou descontextualizados.

Do ponto de vista analítico, existem pelo menos quatro modalidades de uso da IA em contextos eleitorais democráticos: 1) produção sintética de conteúdos, como textos, imagens, áudios e vídeos; 2) sistemas conversacionais e mecanismos de recomendação, como chatbots, assistentes de IA e buscadores generativos; 3) usos analíticos, organizacionais e operacionais por campanhas, plataformas, meios de comunicação e instituições eleitorais; e 4) usos cívicos e institucionais orientados à ampliação do acesso à informação, à transparência, à acessibilidade e à participação pública. Essa classificação genérica permite avaliar com mais precisão quando a IA pode fortalecer a democracia e quando tende a fragilizá-la.

Em uma perspectiva positiva, a IA pode contribuir para o fortalecimento democrático quando empregada de modo a ampliar o acesso a informações eleitorais confiáveis, facilitar a compreensão de regras e programas, traduzir conteúdos para diferentes idiomas, produzir recursos de acessibilidade, apoiar a checagem de fatos, qualificar a moderação de conteúdo e melhorar a gestão administrativa das eleições. Entretanto, relatórios recentes da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO)1,2 e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)3 destacam precisamente esse caráter ambivalente: as mesmas tecnologias que podem ampliar a informação e a participação social também podem contribuir para intensificar desinformação, falta de transparência e violência política, sobretudo em períodos eleitorais.

No campo da comunicação, campanhas e candidaturas podem utilizar IA para redação assistida, adaptação da linguagem, organização de bases de informação, monitoramento de tendências, planejamento de comunicação e produção de peças digitais. O emprego destes usos, em si, não é necessariamente antidemocrático. Tornam-se, de fato, problemáticos quando ocultam processos de mediação tecnológica, simulam pessoas reais, exploram perfis falsos, reforçam discriminações ou são mobilizados para produzir deliberadamente contextos enganosos. Por essa razão, a transparência no uso da tecnologia e a responsabilização de quem produz e impulsiona conteúdos são dimensões centrais da integridade eleitoral em qualquer país de base democrática.

Já em uma perspectiva negativa, a IA pode ser empregada para criar ou manipular conteúdos com aparência de autenticidade, intensificar campanhas de desinformação, produzir deepfakes, disseminar assédio e violência política, inclusive de gênero, automatizar ataques coordenados e focalizados, amplificar discursos de ódio e explorar vulnerabilidades cognitivas e emocionais do conjunto e, em especial, de parcelas do eleitorado.

Em democracias francamente polarizadas, esses usos reduzem sobremaneira o custo de produção de conteúdo enganoso, aceleram sua circulação em amplas redes e dificultam a distinção entre crítica política legítima, sátira, propaganda e fraude informacional deliberada. De fato, a IA tende a profissionalizar e baratear a disputa por atenção, engajamento e enquadramento narrativo, favorecendo quem combina volume, repetição, segmentação e circulação coordenada em múltiplas plataformas, especialmente em ambientes de mensagens privadas e de redes de vídeos curtos. Instaura-se, portanto, uma dinâmica intensificada de geração contínua de conteúdos assistidos por IA. Esses materiais passam a desempenhar um papel central na definição das pautas cotidianas e na mobilização do engajamento nas redes sociais e em outros espaços de interação social.

No Brasil, episódios recentes mostram que atores governistas e oposicionistas já incorporaram, em graus distintos, linguagens, formatos e repertórios associados à IA em suas estratégias digitais. No atual contexto pré-eleitoral, percebe-se que tanto o Governo quanto o Partido dos Trabalhadores (PT) têm se reposicionado no ambiente digital4. Neste mês de abril, após vários ataques à imagem do presidente Lula nas redes sociais por meio de conteúdos gerados por IA5, intensificaram-se o investimento e a participação em plataformas como o WhatsApp, o Instagram e o TikTok. Assim, nas últimas duas semanas, cresceram tanto os conteúdos que retiram o candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, da sua zona de conforto, relembrando episódios como o da "rachadinha", quanto os de impulsionamento de agendas cruciais para ampliar o alcance de propostas centrais do Governo junto à população, como o fim da escala 6×1. A IA não é utilizada apenas no contra-ataque; também é vista como uma aposta para ampliar a adesão às políticas governamentais.

É importante salientar que o Governo já demonstrou sua capacidade de utilizar a IA para superar situações difíceis em momentos complexos, o que gerou efeitos positivos na avaliação do Governo e do Presidente Silva. Cabe relembrar a rápida reação do governo diante da resistência do Congresso Nacional ao aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), a partir da qual foram elaborados enquadramentos que simplificaram e tornaram mais visível a disputa política em torno da tributação e das políticas sociais. Também em 2025, o uso da IA foi altamente útil quando implementado rapidamente para criar conteúdos que contrapuseram-se às imposições de taxação das exportações brasileiras para os EUA, impostas por Donald Trump e apoiadas pela família do ex-presidente da República Jair Messias Bolsonaro.

Por outro lado, a extrema-direita tem demonstrado evidências de estratégias permanentes e consistentes de investimento em desinformação e na deterioração da imagem de seus adversários. Um aspecto relevante de preocupação é a constituição de estruturas organizadas de mobilização digital que articulam treinamento informal, padronização de comandos, replicação em massa e coordenação distribuída por meio de aplicativos de mensagens e redes sociais6. Nesses arranjos, a IA funciona menos como ferramenta isolada e mais como infraestrutura para acelerar a propaganda, a militância digital e, em alguns casos, a manipulação. A combinação entre conteúdo sintético, lógica algorítmica de recomendação e circulação em redes fechadas tende a aumentar a dificuldade de monitoramento público e de resposta institucional em tempo hábil. Assim, o uso de conteúdos gerados artificialmente, de fácil replicação, tende a ampliar e potencializar a polarização política, mas, sobretudo, a prática de ações que fragilizam a dinâmica democrática.

Em conjunto, estes fatos ajudam a compreender, inclusive, por que pode haver dissociação entre indicadores objetivos e percepções sociais sobre temas como a economia, a corrupção, a segurança ou as políticas públicas. Um exemplo é a comemoração, pelo Governo Federal, do baixo desemprego, da queda do dólar, da valorização da bolsa de valores e da inflação sob controle, mas com percepção, entre cidadãos e cidadãs, de que a economia piorou, como indicado no último levantamento da Quaest Pesquisa e Consultoria. Mensagens contínuas que enfatizam a crise, o aumento dos preços e o endividamento contribuem sobremaneira para a ampliação de uma visão negativa do governo federal e da vida cotidiana7. Nesse contexto, observa-se o recurso recorrente a estereótipos e à mobilização de afetos na esfera pública, muitas vezes associado à circulação de violências simbólicas e de desinformação.

Ressalta-se que a IA não cria sozinha essas percepções, mas pode intensificar sua produção, circulação e adaptação a públicos específicos, inclusive por meio de testes rápidos de linguagem, imagens emocionalmente carregadas, simplificação de conflitos complexos e repetição automatizada de enquadramentos que reforçam crenças prévias. Em termos democráticos, o risco maior é a deterioração da esfera pública informacional, bem como a fragilização das condições mínimas para a deliberação baseada em fatos.

Uma modalidade particularmente sensível a ser considerada é o uso de plataformas conversacionais para consultas sobre regras eleitorais, comparação de candidaturas, interpretação de propostas e busca de orientação política. Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Grok e outras podem oferecer respostas úteis, mas também podem apresentar informações incompletas, desatualizadas, enviesadas ou excessivamente assertivas. Quando uma pessoa passa a terceirizar a mediação informacional a sistemas privados, cujos critérios de priorização e de formulação de respostas são pouco transparentes, amplia-se o poder de intermediação de grandes empresas de tecnologia na formação de preferências políticas8. Ainda assim, esses sistemas podem ter utilidade pública quando orientados por fontes oficiais e consistentes, com limites de escopo e mecanismos de correção e auditoria.

Por isso, é importante reconhecer os usos da IA com potencial de fortalecimento democrático, bem como os de fragilização. Para o Brasil de 2026, a agenda estratégica combina pelo menos 6 frentes: transparência, responsabilização, integridade informacional, proteção contra violência política digital, regulação proporcional e fortalecimento da alfabetização digital da população. O campo progressista precisa tanto se apropriar destes usos potenciais quanto ampliar seu empoderamento na utilização da tecnologia, na capacidade de comunicação e na difusão de informações, sempre de forma ética, priorizando a regulação responsável da IA no campo da política.

Não há um único efeito da IA sobre as democracias. Seu impacto depende do contexto, da finalidade, do desenho institucional e da capacidade regulatória. Questões como o ator que a utiliza, a finalidade do uso, o grau de transparência, os mecanismos de controle social e institucional, as salvaguardas regulatórias e a capacidade coletiva de educação midiática e digital tornam-se cada vez mais centrais para um país que se diz democrático.

Referências

1 https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000393473

2 https://www.unesco.org/en/articles/new-unesco-undp-issue-brief-highlights-impacts-ai-freedom-expression-and-elections

3 https://www.oecd.org/en/publications/governing-with-artificial-intelligence_795de142-en/full-report/ai-in-civic-participation-and-open-government_51227ce7.html

4 https://www.cartacapital.com.br/politica/lula-e-flavio-bolsonaro-sobem-o-tom-nas-redes-com-ia-memes-e-ataques-diretos/

5 https://cbn.globo.com/politica/noticia/2026/03/19/flavio-bolsonaro-publica-video-com-ia-contra-lula-em-resposta-a-resolucao-do-pt-para-eleicoes.ghtml

6 https://iclnoticias.com.br/grupo-com-nome-de-flavio-bolsonaro-mobiliza-uso-de-ia-em-campanha/

7 https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-logica-da-infocracia-por-que-a-economia-melhora-mas-o-brasileiro-nao-sente-por-edward-magro/

8 https://www.scielo.br/j/rbcpol/a/9dHmHNSzsGWt4CTb3nthVTd/?lang=pt

Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para [email protected] e fortaleça o jornalismo crítico.

Tap highlighted text for details

Source Quality
Perspective
Context
Neutrality
Transparency
Logic
Source Quality 3/5
3/5 Score

Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety

Summary

Article cites UNESCO, OECD reports and includes hyperlinks to external sources, but lacks direct interviews or named primary sources. Sources are mostly institutional and tertiary.

Findings 2

"relatórios recentes da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO)1,2 e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)3"

Cites international organizations but no direct attribution to specific reports or authors.

Secondary source

"como indicado no último levantamento da Quaest Pesquisa e Consultoria."

Refers to a poll but does not quote specific findings or methodology.

Tertiary source
Perspective Balance 4/5
4/5 Score

Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation

Summary

Article discusses both positive and negative uses of AI in elections, acknowledging different actors' strategies, but leans slightly toward government perspective in examples.

Findings 3

"Em uma perspectiva positiva, a IA pode contribuir para o fortalecimento democrático quando empregada de modo a ampliar o acesso a informações eleitorais confiáveis, facilitar a compreensão de regra..."

Acknowledges both positive and negative sides of AI.

Balance indicator

"Por outro lado, a extrema-direita tem demonstrado evidências de estratégias permanentes e consistentes de investimento em desinformação"

Presents opposing side's actions.

Balance indicator

"O campo progressista precisa tanto se apropriar destes usos potenciais quanto ampliar seu empoderamento"

Concludes with a call to action for progressive field, showing slight bias.

One sided
Contextual Depth 4/5
4/5 Score

Background information, statistics, comprehensiveness of coverage

Summary

Provides substantial background on AI types, references to recent Brazilian events, and mentions of economic indicators.

Findings 3

"Do ponto de vista analítico, existem pelo menos quatro modalidades de uso da IA em contextos eleitorais democráticos"

Categorizes AI uses analytically.

Context indicator

"baixo desemprego, da queda do dólar, da valorização da bolsa de valores e da inflação sob controle"

Mentions economic indicators but without precise numbers.

Statistic

"Cabe relembrar a rápida reação do governo diante da resistência do Congresso Nacional ao aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF)"

Provides historical context for government AI use.

Background
Language Neutrality 3/5
3/5 Score

Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language

Summary

Uses some loaded terms like 'extrema-direita', 'desinformação', 'manipulação', but overall tone is analytical.

Findings 3

"extrema-direita tem demonstrado evidências de estratégias permanentes e consistentes de investimento em desinformação"

Labeling 'extrema-direita' may carry political charge.

Right loaded

"deterioração da esfera pública informacional"

Strong phrasing but contextually analytical.

Sensationalist

"a IA pode contribuir para o fortalecimento democrático quando empregada de modo a ampliar o acesso a informações eleitorais confiáveis"

Neutral, factual statement.

Neutral language
Transparency 4/5
4/5 Score

Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution

Summary

Author named, date present, numbered references provided, but no quotes attributed to specific individuals.

Findings 1

"Publicado 24/04/2026 às 16:50"

Date and time stamp provided.

Date present
Logical Coherence 5/5
5/5 Score

Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation

Summary

Arguments flow logically, no contradictions found. The article maintains consistent thesis around AI's dual role.

Core Claims

"IA pode fortalecer ou fragilizar a democracia dependendo do uso e regulação"

UNESCO and OECD reports Named secondary

"Governo e PT utilizam IA para contra-ataque e ampliar adesão popular"

Not explicitly sourced, based on reported events Anonymous

"Extrema-direita investe em desinformação com estruturas organizadas"

Reference to news articles via hyperlinks Anonymous

Logic Model Inspector

Consistent

Extracted Propositions (6)

  • P1

    "Eleições de 2026 no Brasil"

    Factual
  • P2

    "Uso de IA por governo e oposição"

    Factual
  • P3

    "Existência de relatórios UNESCO e OCDE"

    Factual
  • P4

    "Pesquisa Quaest sobre percepção econômica"

    Factual
  • P5

    "Uso de causes IA intensifica polarização"

    Causal
  • P6

    "Desinformação causa dissociação causes entre indicadores e percepção"

    Causal

Claim Relationships Graph

Contradiction
Causal
Temporal
View Formal Logic Representation
=== Propositions ===
P1 [factual]: Eleições de 2026 no Brasil
P2 [factual]: Uso de IA por governo e oposição
P3 [factual]: Existência de relatórios UNESCO e OCDE
P4 [factual]: Pesquisa Quaest sobre percepção econômica
P5 [causal]: Uso de causes IA intensifica polarização
P6 [causal]: Desinformação causa dissociação causes entre indicadores e percepção

=== Causal Graph ===
uso de -> ia intensifica polarização
desinformação causa dissociação -> entre indicadores e percepção

All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.

Want to score another article? Paste a new URL →