▸ Article
Impressionada com o espetáculo da obediência, Dilma passou a entregar-lhe todas as tarefas perigosas. Ironicamente, a única que não pôde concluir permitiu-lhe viver seus dez dias de fama, mas com o sobrenome deformado pela troca do M por um B. Em março de 2016, o jovem pernambucano do Recife pousou no noticiário jornalístico a bordo de uma conversa telefônica entre Dilma e Lula, gravada com autorização judicial. Naquele dia, a dupla combinara que a afilhada instalaria o padrinho na chefia da Casa Civil. O cargo presentearia Lula, prestes a ser preso pela Operação Lava Jato, com o direito de ser julgado pelo Supremo.
Dilma ligou para avisar que o termo de posse estava a caminho. Na hora de identificar o mensageiro, a voz avariada por uma gripe e a cabeça baldia se uniram para atropelar a consoante inicial do sobrenome: "Seguinte, eu tô mandando o Bessias junto com o papel pra gente ter ele. Só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?" Lula agradeceu. "Só isso", insistiu Dilma. "Você espera aí que ele está indo aí." Ele era Messias. Melhor: Bessias. No fim da conversa, Lula revidou o "tchau" da parceira com uma expressão que provocaria epidemias de riso nas ruas do país: "Tchau, querida!". A divulgação da conversa pelo ainda juiz Sérgio Moro abortou a esperteza. O ministro Gilmar Mendes — vejam só: ele mesmo, o agora decano — decidiu vetar a nomeação antes que "Bessias" rumasse para o local onde Lula aguardava a salvação.
O Brasil então ficou sabendo qual era o nome correto do estafeta preferido da presidente. Nunca existiu um Bessias. Mas só em 1º de janeiro de 2023 se soube que fim levara Jorge Messias: era ele o novo chefe da Advocacia-Geral da União, a AGU. Em 2025, outro espanto: com a inesperada aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso, Lula decidiu que o mensageiro frustrado merecia virar ministro do STF. A folha corrida avisou e continua avisando aos berros que o indicado não rima com as exigências estabelecidas pela Constituição: só merece cobrir-se com a toga alguém diplomado em Direito que tenha notável saber jurídico e reputação ilibada. Messias não tem uma coisa nem outra.Não pode ser ilibada a reputação de quem nunca se recusou a burlar a lei a pedido do chefe. Nem se pode considerar provido de notável saber jurídico quem assassina a verdade movido por imposições ideológicas. Em sua dissertação de mestrado, por exemplo, Messias louva o Estado intervencionista. Em 2025, num artigo publicado na Revista Plenário, editada pela Câmara dos Deputados, o agora candidato ao Supremo afirmou que a AGU é a fiadora da harmonia entre os Poderes. Por isso mesmo, conclui o besteirol, "deve zelar pela estabilidade democrática". Deve coisa nenhuma. A AGU existe para advogar em favor do governo nas causas que envolvem interesses da União. Ponto.
Entrincheirado no gabinete em Brasília há mais de três anos, Messias faz o que pode para sepultar em cova rasa o que restou da Lava Jato. É um dos mais ferozes participantes das ofensivas concebidas para anular acordos de leniência (que tornaram possível a recuperação de parte do produto do roubo acumulado pelos quadrilheiros do Petrolão). Passou boa parte do tempo pressionando empresas que colaboraram com a mais bem-sucedida operação anticorrupção da história. Sempre engajado nas ofensivas destinadas a censurar redes sociais, Messias emitiu dezenas de pareceres que, "para combater a desinformação", endossaram decisões do STF e do TSE que colidem frontalmente com a liberdade de expressão.
Fez o diabo, enfim, para atender ao segundo dos dois predicados que orientam as indicações para o STF feitas por Lula: agir como agem os integrantes da bancada liderada por Gilmar Mendes. O primeiro é estar pelo menos 20 anos distante da aposentadoria. Caso seja aprovado pela maioria dos 81 senadores, Messias, aos 46 anos, poderá piorar o tribunal pelos próximos 29. Gilmar voltará de vez para casa em 2030. O mais novo discípulo, portanto, terá tempo para aprender com o mestre como se deve agir para que o Judiciário seja sempre, entre os três Poderes, o mais detestado. De acordo com todas as pesquisas de opinião, 6 em cada 10 brasileiros não confiam no Supremo. O que Gilmar tem dito e feito pode, num prazo curtíssimo, transformar tal recorde em coisa de principiante.
É possível que a insolência excessiva provoque surtos de cegueira. É também possível que os superpoderes imaginários da toga incluam o controle do calendário gregoriano. Seja qual for a razão, o fato é que Gilmar parece estacionado em 2022, quando a ditadura do Judiciário alcançou o seu clímax. Sucessivos destemperos, discurseiras amalucadas, ofensivas de napoleão de hospício e outras estranhezas informam que Gilmar ignora as mudanças operadas pela descoberta de que ministros do STF viraram multimilionários chapinhando no pântano do Banco Master. Neste outono de 2026, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes têm tanta força moral para julgar alguém quanto um juiz de briga de galo.
Foi também por isso que a bancada comandada por Gilmar emagreceu. O presidente Edson Fachin zanza pelo Supremo ora propondo um código de conduta, ora ouvindo em silêncio bravatas de presididos fora da lei. Sobretudo quando coberta pela toga, Cármen Lúcia não diz coisa com coisa, como uma Dilma de luto. Soterrado por 129 milhões de perguntas sem resposta e um buquê de imóveis comprados à vista, Moraes segue concentrado na perseguição aos prisioneiros da perversidade alucinada. O comunista Flávio Dino resolveu reformar um poder inexistente nos países que sempre lhe serviram de modelo. Nomeado por ter sido advogado de um criminoso, Cristiano Zanin emudeceu. Luiz Fux e Nunes Marques também andam afônicos.
Solitário nessa paisagem desoladora, André Mendonça é o único integrante do Supremo poupado pela imensa onda de desconfiança popular. Se continuar a investigar sem medo o escândalo do Master, se percorrer sem desvios os caminhos pavimentados pela Constituição e pelos códigos legais, Mendonça ficará fora das páginas reservadas ao STF pela História Nacional da Infâmia. Já estaria blindado pelo apoio unânime do país que pensa e presta se não tivesse demonstrado uma incompreensível simpatia pela indicação de Jorge Messias. E seria visto como a luz no fim do túnel se discordasse abertamente dos palavrórios infames de Gilmar Mendes.
O que há com os senadores que não entendem que a hora da contraofensiva é agora? Como entender a mudez dos integrantes de um Congresso insultado por Gilmar Mendes? No universo dos políticos vocacionais, o instinto de sobrevivência eleitoral sempre foi mais agudo que em outros mundos. Amontoam-se evidências de que candidatos sem coragem para enfrentar os abusos do Supremo serão castigados pelas urnas. Só a existência de algemas imaginárias, impostas a prisioneiros do medo, pode explicar por que a maioria do Senado prefere renunciar à chance de submeter os campeões da insolência a uma punição exemplar: negar a entrega de uma toga a Messias e enterrar a tentativa de piorar o que está péssimo.
Sozinho no front, Gilmar Mendes vinha esbanjando valentia até que alguns alvos barrassem a ofensiva retórica. O ex-governador Romeu Zema, candidato à Presidência pelo Partido Novo, afirmou que os ministros afundados no lamaçal do Master merecem mais que o impeachment; também merecem cadeia. O decano debochou do sotaque mineiro do adversário e cobrou-lhe gratidão: "O governador Zema só governou Minas Gerais porque obteve liminares aqui no Supremo, que o deixou sem pagar a dívida com a União de 22 meses". A réplica veio em minutos: "Suas decisões seguiram as normas da Constituição. Se você não fez isso, deveria renunciar".
Zema não parou por aí. Depois de registrar que qualquer sotaque inteligível é melhor que o juridiquês pedante que ninguém entende despejado nas sessões do STF, Zema satirizou Gilmar com um diálogo entre bonecos. "Não podemos tolerar esse tipo de brincadeira", irritou-se Gilmar antes de perder de vez a calma e o rumo: "Imagine que nós comecemos a fazer bonecos mostrando o Zema como homossexual. Será que isso não é ofensivo?". O surto de homofobia provocou uma inundação de comentários indignados na internet. Não rendeu ao ministro uma única manifestação de apoio.
Sete anos depois de parir o Inquérito do Fim do Mundo, o STF está mais fragilizado do que nunca. Demonstrações de força ensaiadas por Alexandre de Moraes servem apenas para escancarar seu enfraquecimento. E o falatório do decano só intimida medrosos de nascença. Gilmar sempre achou admirável tudo o que Mendes pensa, diz ou escreve. Quando lê numa sessão o voto que fabricou, capricha na pose de quem será homenageado em estátuas equestres — como cavaleiro, não como montaria. Filho mais ilustre da mato-grossense Diamantino, o vaidoso sem cura não consegue enxergar no espelho uma caricatura de Celso de Mello, o Pavão de Tatuí. Celso já foi esquecido. Por um punhado de anos, Gilmar será merecidamente lembrado. Não se pode esquecer tão cedo alguém que é a cara de um Brasil infeliz.
Leia também "A suprema cegueira"
Hover overTap highlighted text for details
▸ Source Quality 1/5
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Nenhuma fonte primária ou secundária é citada; a única referência indireta é uma gravação judicial de 2016 e menção a 'pesquisas de opinião' sem detalhamento.
Findings 2
" A divulgação da conversa pelo ainda juiz Sérgio Moro abortou a esperteza. O ministro"
A gravação é mencionada como fato, mas não é citada como fonte.
Anonymous source" De acordo com todas as pesquisas de opinião, 6 em cada 10 brasileiros não confiam no Supremo. O que Gilm"
A afirmação carece de citação específica da pesquisa.
Secondary source▸ Perspective Balance 1/5
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
O artigo é completamente unilateral, apresentando apenas críticas a Jorge Messias, Gilmar Mendes e ao STF, sem qualquer contraponto.
Findings 2
" Messias não tem uma coisa nem outra.Não pode se"
Afirmação negativa sem apresentação de perspectivas favoráveis.
One sided" Neste outono de 2026, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes têm tanta força moral para julgar alguém quanto um juiz de briga de galo. Foi també"
Comparação depreciativa sem contraponto.
One sided▸ Contextual Depth 3/5
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
O artigo fornece algum contexto histórico sobre Messias (filiação ao PT, papel na nomeação de Lula em 2016, cargo na AGU), mas carece de dados estatísticos ou fontes aprofundadas.
Findings 2
" Em março de 2016, o jovem pernambucano do Recife pousou no noticiário jornalístico a bordo de uma conversa telefônica entre Dilma e Lula, gravada com "
Fornece contexto sobre o episódio de 2016.
Background" 6 em cada 10 brasileiros não confiam no Supremo. O que Gilm"
Única estatística, mas sem fonte específica.
Statistic▸ Language Neutrality 1/5
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Linguagem fortemente carregada com termos depreciativos e sensacionalistas ao longo de todo o artigo.
Findings 3
" Fez o diabo, enfim, para atender ao segundo dos dois predicados que orient"
Expressão sensacionalista.
Sensationalist"arece estacionado em 2022, quando a ditadura do Judiciário alcançou o seu clímax. Sucessivos destemper"
Uso de 'ditadura' para descrever o Judiciário.
Sensationalist" ofensivas de napoleão de hospício e outras e"
Linguagem insultuosa e sensacionalista.
Sensationalist▸ Transparency 4/5
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
O artigo é assinado por Augusto Nunes e datado de 2026-04-24, mas não há metodologia ou notas editoriais.
▸ Logical Coherence 4/5
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
Apenas uma possível contradição: o artigo critica Messias por falta de 'reputação ilibada' mas também por ter sido um 'estafeta' obediente; no entanto, não há inconsistência interna grave.
Findings 2
" Fez o diabo, enfim, para atender ao segundo dos dois predicados que orientam as indicações para o STF feitas por Lula: agir como agem os integrantes da bancada liderada por Gilmar Mendes. O primeiro"
Afirma relação causal entre ações de Messias e supostos critérios de Lula, sem evidência direta.
Unsupported cause" Fez o diabo, enfim, para atender ao segundo dos dois predicados que orientam as indicações para o STF feitas "
Afirma que as ações de Messias visam atender predicados de Lula, sem evidência concreta.
Logic unsupported causeLogic Issues
Unsupported cause · medium
Afirma que as ações de Messias visam atender predicados de Lula, sem evidência concreta.
""Fez o diabo, enfim, para atender ao segundo dos dois predicados que orientam as indicações para o STF feitas por Lula""
Core Claims
"Jorge Messias não possui notável saber jurídico nem reputação ilibada."
Opinião do autor sem fontes que sustentem a alegação. Unattributed
"O STF está fragilizado e não goza de confiança pública."
Menciona 'pesquisas de opinião' sem citar qual. Anonymous
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (5)
-
P1
"Messias foi chefe da AGU a partir de 1º de janeiro de 2023."
Factual -
P2
"Gilmar Mendes vetou a nomeação de Messias para a Casa Civil em 2016."
Factual -
P3
"A gravação da conversa entre Dilma e Lula foi divulgada por Sérgio Moro."
Factual -
P4
"A obediência de Messias a Dilma levou à causes sua nomeação para a AGU e indicação ao STF."
Causal -
P5
"Os acordos de leniência foram causes anulados por ofensivas lideradas por Messias."
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: Messias foi chefe da AGU a partir de 1º de janeiro de 2023. P2 [factual]: Gilmar Mendes vetou a nomeação de Messias para a Casa Civil em 2016. P3 [factual]: A gravação da conversa entre Dilma e Lula foi divulgada por Sérgio Moro. P4 [causal]: A obediência de Messias a Dilma levou à causes sua nomeação para a AGU e indicação ao STF. P5 [causal]: Os acordos de leniência foram causes anulados por ofensivas lideradas por Messias. === Causal Graph === a obediência de messias a dilma levou à -> sua nomeação para a agu e indicação ao stf os acordos de leniência foram -> anulados por ofensivas lideradas por messias
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.
Want to score another article? Paste a new URL →