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Corte de verba da polícia científica deixa corpos sem refrigeração no IML de Santos

apublica.org · Rafael Custódio · 2026-02-05 · 1,149 words
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Quando as ondas de calor atingem a cidade de Santos, no litoral paulista, os moradores do bairro Estuário, na zona portuária, ligam os ventiladores, abrem as janelas e espirram aromatizantes em suas casas para lidar com o forte cheiro de putrefação vindo do Instituto Médico Legal (IML) da cidade.

Segundo o Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo (Sinpcresp), o motivo do cheiro forte é a falta de refrigeração adequada aos corpos que ficam expostos nas salas de autópsia em temperatura ambiente, o que escancara os problemas estruturais que a polícia técnico-científica vive sob a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O odor, segundo peritos e moradores, é o sintoma mais visível de um problema maior: um levantamento feito pela Agência Pública constatou a redução de quase 64% do orçamento destinado ao programa de melhoria, manutenção e construção das instalações físicas destinadas à Polícia Técnico-Científica, de 2023 até 2026, de acordo com as Leis Orçamentárias Anuais (LOAs) dos quatro anos.

No ano de 2023, o primeiro da gestão do governo Tarcísio, o orçamento para instalações físicas, aprovado pela LOA, foi de R$ 23,9 milhões. Para 2026, no entanto, o montante é de R$ 8,7 milhões.

O investimento nas instalações físicas da polícia científica foi reduzido ano a ano, caindo pela metade em 2024, com R$ 12 milhões investidos, para R$ 6 milhões em 2025 e um leve aumento para 2026, com R$ 8,7 milhões.

A polícia técnico-científica é a responsável pela produção de provas periciais para investigações criminais e decisões da Justiça. Ela realiza perícias em locais de crimes e exames em vestígios como armas, drogas, documentos e objetos. Também atua na área médico-legal, com necropsias e laudos sobre lesões corporais, fundamentais para apurar mortes e violência.

"Talvez ele [Tarcísio] não tenha o menor conhecimento, a menor noção do que é a Polícia Científica, de qual é a sua importância para o Estado. Porque, se tivesse, jamais ele deixaria chegar nesse ponto", disse Bruno Lazzari, presidente do Sinpcresp.

Falta de estrutura causa mau cheiro no IML de Santos

Parte dos corpos que chegam ao IML de Santos ficam expostos à temperatura ambiente, porque a maca que deveria colocá-los nas geladeiras mais altas está quebrada. Sendo assim, alguns ficam sobre mesas espalhadas pelo IML, até que se libere espaços nas geladeiras.

"Para um familiar que já está sensibilizado com a situação [da morte de um ente querido], o impacto emocional deve ser muito grande. Afinal aquela situação torna-se uma lembrança permanente", argumentou Lazzari.

A queima do café torrado foi uma das tentativas da moradora Daniela Tavares, de 39 anos, para espantar o cheiro podre que vem do IML, em frente à sua casa. Segundo ela, no entanto, nada é forte o suficiente para aliviar a fetidez.

Por que isso importa?

Orçamento para instalações físicas da polícia científica caiu de R$ 23,9 milhões em 2023 para R$ 8,7 milhões este ano;

Cortes deixaram o IML de Santos sem equipamentos adequados para a refrigeração de corpos. Moradores convivem com o mau cheiro vindo das instalações.

Há dois meses, a filha de Tavares brincava na porta de casa, quando o vento bateu e o fedor fez com que a brincadeira acabasse. "Tinha até urubus sobrevoando o prédio [do IML] naquele dia, de tão forte que o cheiro estava", contou a moradora.

O prédio da polícia científica de Santos, que abriga o IML, foi inaugurado em 2023. A nova sede do instituto foi recebida com protestos dos moradores do bairro Estuário, que organizaram até mesmo um abaixo-assinado contra a construção. "Nós espalhamos adesivos pelo bairro escrito: 'IML não!"', lembrou Tavares.

"O prédio de Santos, infelizmente, está muito longe da estrutura que entendemos ser a adequada. É praticamente um galpão que foi adaptado", disse o presidente do sindicato.

Diante da denúncia feita pelos vizinhos do IML, Lazzari disse que o Sinpcresp avalia os riscos a que os servidores estão submetidos ao trabalhar nessas condições.

"Corpos em decomposição possuem um cheiro muito desagradável. Trabalhar nessas condições é insalubre. Os gases liberados por cadáveres em decomposição são tóxicos e inflamáveis", alertou.

Pelo menos uma vez na semana, uma servidora da polícia científica, que preferiu não se identificar, contou que sente mal-estar ao chegar na sede de Santos, por conta do cheiro que vem do IML. "É mais comum as pessoas reclamarem de dor de cabeça, porque fica o dia inteiro exposto ao cheiro", contou.

Problemas em outras unidades do estado

Os problemas nas instalações físicas, entretanto, se estendem às outras unidades da polícia científica espalhadas pelo estado. Além da precariedade dos edifícios, faltam até mesmo materiais de higiene.

Uma perita criminal que atua na capital e também pediu para manter sua identidade em sigilo, contou à Pública que as viaturas utilizadas pela equipe "são raramente lavadas, porque não há orçamento destinado a esse serviço".

"Você vai a um lugar totalmente insalubre, volta com sangue no pé e material biológico contaminado, [entra na viatura] e não tem dinheiro para lavar viatura […] tem material biológico de muitos dos mortos que foram atendidos", explicou.

Os problemas estruturais se repetem em Votuporanga e Assis, no interior de São Paulo, onde os prédios sofrem com infiltrações e viaturas antigas sem circulação. Em dezembro de 2025, o sindicato denunciou que faltavam luvas para manusear objetos apreendidos e precisavam arcar com equipamentos de proteção individuais, que não eram fornecidos pelo estado.

"Eu tenho que levar o meu material próprio, porque não tem nem sabão pra lavar uma louça e às vezes falta papel higiênico", disse a perita criminal que trabalha em São Paulo.

Em Assis, segundo o sindicato, três viaturas disponíveis para a equipe de peritos estão paradas por mau funcionamento. Segundo servidores que atuam na unidade, os veículos são antigos e, mesmo com pedidos de trocas, nada foi feito.

Na unidade de Araçatuba, também no interior de São Paulo, os materiais coletados durante as perícias são deixados pelo chão, porque não há local adequado para armazenar os objetos apreendidos, que serão posteriormente periciados, longe de refrigeração e ambiente seguro.

Procurada para comentar os casos citados na reportagem, a Secretaria da Segurança Pública (SSP), sob a gestão do secretário Nico Gonçalves, disse que não houve descontinuidade ou "desinvestimento em sua estrutura e serviços", embora os dados públicos mostrem o oposto. Também que a SSP "manteve uma política consistente e contínua de investimento e custeio na área de segurança e perícia oficial."

Sobre a sede da Polícia Científica de Santos, a pasta negou que haja problemas de funcionamento no IML de Santos e informou que "a superintendência acompanha permanentemente a demanda da unidade para dimensionar melhor a sua capacidade de resposta."

A nota finaliza dizendo que o Estado tem buscado melhorar os seus serviços, "assegurando a plena operação da Polícia Técnico-Científica e das perícias criminalísticas, além da preparação de investimentos estruturantes – como modernização de instalações – com execução escalonada e responsável ao longo dos exercícios." [Leia a nota na íntegra]

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Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety

Summary

Multiple named sources including union president and residents, but some anonymous sources.

Findings 5

"Bruno Lazzari, presidente do Sinpcresp"

Named expert source with official position

Named source

"Daniela Tavares, de 39 anos"

Named resident providing firsthand account

Named source

"uma servidora da polícia científica, que preferiu não se identificar"

Anonymous source from within the institution

Anonymous source

"Uma perita criminal que atua na capital e também pediu para manter sua identidade em sigilo"

Anonymous expert source

Anonymous source

"Segundo o Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo (Sinpcresp)"

Organization as secondary source

Secondary source
Perspective Balance 4/5
4/5 Score

Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation

Summary

Includes government response and acknowledges multiple viewpoints.

Findings 3

"Procurada para comentar os casos citados na reportagem, a Secretaria da Segurança Pública (SSP)"

Article sought and included government response

Balance indicator

"embora os dados públicos mostrem o oposto"

Acknowledges discrepancy between government claims and data

Balance indicator

"a SSP "manteve uma política consistente e contínua de investimento "

Includes government's counterargument

Balance indicator
Contextual Depth 5/5
5/5 Score

Background information, statistics, comprehensiveness of coverage

Summary

Comprehensive data, historical context, and detailed explanations.

Findings 4

"redução de quase 64% do orçamento destinado ao programa"

Specific percentage data provided

Statistic

"de R$ 23,9 milhões em 2023 para R$ 8,7 milhões este ano"

Exact budget figures with year comparisons

Statistic

"A polícia técnico-científica é a responsável pela produção de provas periciais"

Explains institutional role and importance

Background

"Os problemas estruturais se repetem em Votuporanga e Assis"

Shows problem extends beyond Santos location

Context indicator
Language Neutrality 4/5
4/5 Score

Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language

Summary

Mostly neutral language with a few emotionally charged terms.

Findings 4

"Segundo o Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo"

Neutral attribution of information

Neutral language

"de acordo com as Leis Orçamentárias Anuais (LOAs) dos quatro anos"

Factual reference to official documents

Neutral language

"o que escancara os problemas estruturais"

"escancara" (lays bare) has dramatic connotation

Sensationalist

"Tinha até urubus sobrevoando o prédio"

Vivid imagery that could be seen as sensational

Sensationalist
Transparency 5/5
5/5 Score

Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution

Summary

Full attribution, date, author, and methodology disclosure.

Findings 2

"um levantamento feito pela Agência Pública constatou"

Describes research methodology

Methodology

"disse Bruno Lazzari, presidente do Sinpcresp"

Clear attribution of quotes

Quote attribution
Logical Coherence 5/5
5/5 Score

Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation

Summary

No logical inconsistencies detected.

Core Claims

"Budget cuts to forensic police facilities have caused bodies to be stored without refrigeration at Santos IML"

Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo (Sinpcresp) Named secondary

"Budget for physical installations of scientific police was reduced from R$23.9 million in 2023 to R$8.7 million in 2026"

Public Agency analysis of Annual Budget Laws (LOAs) Primary

"SSP denies there was any disinvestment or operational problems at Santos IML"

Secretaria da Segurança Pública (SSP) statement Named secondary

Logic Model Inspector

Consistent

Extracted Propositions (7)

  • P1

    "Santos IML building was inaugurated in 2023"

    Factual
  • P2

    "Residents organized a petition against the IML construction"

    Factual
  • P3

    "Problems extend to other units in Votuporanga, Assis, and Araçatuba"

    Factual
  • P4

    "Three vehicles in Assis are out of service due to malfunction"

    Factual
  • P5

    "Budget cuts causes inadequate refrigeration → bodies decomposing at room temperature"

    Causal
  • P6

    "Lack of budget causes vehicles not washed → biological contamination risk"

    Causal
  • P7

    "Structural problems causes insalubrious working conditions for employees"

    Causal

Claim Relationships Graph

Contradiction
Causal
Temporal
View Formal Logic Representation
=== Propositions ===
P1 [factual]: Santos IML building was inaugurated in 2023
P2 [factual]: Residents organized a petition against the IML construction
P3 [factual]: Problems extend to other units in Votuporanga, Assis, and Araçatuba
P4 [factual]: Three vehicles in Assis are out of service due to malfunction
P5 [causal]: Budget cuts causes inadequate refrigeration → bodies decomposing at room temperature
P6 [causal]: Lack of budget causes vehicles not washed → biological contamination risk
P7 [causal]: Structural problems causes insalubrious working conditions for employees

=== Causal Graph ===
budget cuts -> inadequate refrigeration  bodies decomposing at room temperature
lack of budget -> vehicles not washed  biological contamination risk
structural problems -> insalubrious working conditions for employees

All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.

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